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Imagem do documentário “Caminhos da Vacina”, produzido pelos Médicos sem Fronteiras.

Estudo de Harvard confirma: a vacinação das pessoas de baixa renda impede o empobrecimento causado por problemas de saúde.

Para quem tem pouco dinheiro, ficar doente é muito mais que uma dor de cabeça passageira. As despesas decorrentes do tratamento custam caro e pesam mais no orçamento de quem tem baixa renda. Isso é ainda mais grave onde não há um sistema de saúde público, gratuito e universal. Não é possível evitar todas as doenças, claro, mas muitas podem ser prevenidas por uma simples dose de vacina. Além de evitar até mortes, a vacinação é capaz de impedir o chamado empobrecimento medicinal, que acontece quando uma pessoa ou família se endivida tanto para pagar seus tratamentos que chega à beira da falência.

Se parar pra pensar, não é preciso ser um gênio da economia para perceber a correlação positiva entre boa saúde física e financeira. Quem é saudável pode trabalhar ou estudar mais e, assim, melhorar sua renda. Por isso mesmo, a vacinação das populações mais pobres é um meio simples e indolor de combater a pobreza. Essa é a conclusão — que parece tão óbvia, mas precisa ser lembrada — de um estudo feito por pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard (EUA).

“Esse estudo mostra explicitamente como investir em vacinas em países de baixa e média renda pode ter um amplo impacto na saúde e na economia”, disse ao MedicalXpress Stéphane Verguet, professora-assistente de saúde global e uma das autoras da pesquisa. Com base em modelos matemáticos, os cientistas estimaram os impactos da distribuição de 10 tipos de vacinas (sarampo, hepatite B, papilomavirus humano, febre amarela, Hemophilus influenzae tipo B, Streptococcus pneumoniae, rotavirus, rubéola, meningite e encefalite japonesa) em 41 países de baixa e média renda entre 2016 e 2030.

Verguet e sua equipe descobriram que os lares mais pobres seriam os maiores beneficiados por um acesso mais amplo às vacinas. Isso acontece porque quem tem baixa renda costuma ser mais vulnerável a doenças que podem ser prevenidas por vacinas e tem mais dificuldade de arcar com os custos de não ser vacinado. Para Angela Chang, autora principal que era doutoranda em Harvard durante a pesquisa, “as vacinas previnem não apenas as doenças mas o empobrecimento. Por isso é tão importante que todo mundo, especialmente os mais pobres, tenha acesso adequado a vacinas de alta qualidade.”

No estudo, publicado na edição deste mês da Health Affairs, Verguet, Chang et. al. estimam que aumentar os investimentos nas dez vacinas estudadas nos próximos 15 anos seria o bastante para evitar até 36 milhões de mortes e 24 milhões de casos de empobrecimento medicinal.

Além de confirmar o óbvio, o estudo de Harvard derruba uma das mais estapafúrdias teses dos antivacinistas — alguns ainda insistem em dizer que vacinar os mais pobres seria um meio de esterilizá-los, prejudicando-os em vez de ajudá-los. Outra coisa que fica clara é o elitismo do movimento antivax: só pode abrir mão da vacina quem realmente pode arcar com as consequências de tal decisão por ter planos de saúde e menos riscos de contrair tais doenças. Mais do que uma idiotice do ponto de vista epidemiológico, defender que os mais pobres também não sejam vacinados é condená-los ao empobrecimento e à morte.

Referência

rb2_large_gray25CHANG, Angela Y. et. al. “The Equity Impact Vaccines May Have On Averting Deaths And Medical Impoverishment In Developing Countries [O impacto social das vacinas na prevenção de mortes e empobrecimento medicinal em países em desenvolvimento]”. Health Affairs, online February 5, 2018, DOI: 10.1377/hlthaff.2017.0861

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