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Um clérigo muçulmano discursa durante o ramadã de 1958 numa mesquita em Moscou. Embora a maioria das mesquitas tenha sido fechada, algumas centenas foram mantidas pelas autoridades soviéticas após a II Guerra Mundial. [Imagem via Quora]

A escola de religião islâmica de Bukhara [na RSS do Uzbequistão], com novecentos anos de existência, ainda funciona. Falamos com o reitor, pessoa sonolenta e de barba espessa, parecido com os dignitários muçulmanos da Nigéria setentrional ou do Marrocos. Dirige o estabelecimento há mais de trinta anos; e este possuía cem estudantes, que seguem um curso de nove anos. Os formados espalham-se por toda a Ásia Central como mullahs, ou sacerdotes. Perguntei qual a porcentagem da população de Bukhara que ainda assistia serviços religiosos. Após uma pausa, o reitor fugiu à questão dizendo que muitas pessoas “rezavam em casa”. Indaguei ainda se a sua congregação incluía ainda alguns membros do partido comunista. A sua resposta foi negativa. “Mas talvez também eles rezem em casa”. Por fim, perguntou-nos quantos muçulmanos praticantes viviam nos Estados Unidos. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. p. 491

Gunther provavelmente não soube responder à pergunta demográfica do reitor uzbeque. Mesmo hoje é difícil saber ao certo, já que o censo americano não registra afiliações religiosas. Ainda assim, estima-se que a população islâmica some apenas 1% dos residentes nos EUA (cerca de 3 milhões de pessoas). Por comparação, havia cerca de 45 a 50 milhões muçulmanos na URSS. Longe de ser minoria, eram parcela majoritária da população em seis das quinze principais repúblicas soviéticas — os –stãos: Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Embora a ampla maioria das mesquitas tenha sido fechada ou mesmo destruída, cerca de 500 ainda funcionavam nos anos 1970. Ainda hoje, o islã é a segunda religião mais numerosa da Rússia e existem mesquitas em Moscou e S. Petersburgo.

Algumas páginas adiante, Gunther prossegue em sua descrição da vida religiosa da RSS do Uzbequistão:

Existem em Tashkent [a capital do país] dez amplas mesquitas, e diversas menores, para servir ao culto da população muçulmana. Aconteceu visitarmos numa sexta-feira, que vem a ser o dia de descanso maometano, a Barracan, uma escola religiosa adjacente a uma mesquita apinhada de fiéis. O Grão-Mufti, de 96 anos de idade, é o chefe da comunidade muçulmana, não só do Uzbequistão, como de toda a Ásia Central [segundo uma nota de rodapé, o Mufti faleceu enquanto o livro estava no prelo]. Nessa área existem aproximadamente 20 milhões de fiéis. Na teoria, a prática soviética é de respeito às instituições islamíticas. Não há interferência (falando em teoria, de novo) na prática religiosa. Mas na realidade, a igreja muçulmana é apenas tolerada, estando separada de suas raízes vitais. É evidente que uma escola pública soviética não dá importância ao Islame, para não dizer mais. Perguntei ao filho do Mufti se algum membro de sua congregação já havia ido a Meca. A resposta foi afirmativa. É permitido a cada ano um número limitado de peregrinações – digamos, 20 ou 30. O pretendente dirige-se, em primeiro lugar, às autoridades muçulmanas, sendo depois o seu nome submetido aos representantes governamentais para aprovação final. Indaguei sobre a situação das mulheres, em geral de vida muito cerceada na maioria dos países de credo muçulmano. Na região ora descrita [Uzbequistão] são-lhe outorgados os mesmos direitos dos homens, e todas as moças maometanas são obrigadas a frequentar a escola. Naturalmente, a poligamia é ilegal de acordo com os termos da lei soviética; na realidade, porém, não sofre proibição; os casamentos poligâmicos são, contudo, raros. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. pp. 495-96

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