perfume

Ponto fraco dos sentidos humanos, o olfato continua intrigando cientistas. Dessa vez, eles descobriram os mecanismos por trás do aroma almiscarado.

Associado ao lendário boi-almiscarado das montanhas tibetanas, o almíscar é um odor comum no reino animal do Hemisfério Norte. Na Ásia existem o cervo-almiscarado, o rato-almiscarado e até a ratazana-almiscarada. Na América do Norte, há o rato-almiscarado, o musaranho-almiscarado, o escaravelho-almiscarado e até o aligátor-almiscarado. Nem as plantas escapam: existem madeiras e hibiscos com odores de almíscar.

Naturalmente, nós também fomos seduzidos por esse odor intenso e duradouro. Extraído das glândulas genitais dos cervos-almiscarados, essa substância era (e continua a ser) usada na fabricação de perfumes. Esses e os outros animais almiscarados só não foram extintos graças ao surgimento do almíscar sintético no fim do século XIX.

Dada sua onipresença no mundo animal, estudar o almíscar e sua captação pelo sistema olfativo não é uma tarefa supérflua. Nos últimos anos, têm crescido o interesse da comunidade científica pela química do olfato. Um dos principais grupos de pesquisa dessa área é o liderado por Victor Batista, professor de química da Universidade Yale (EUA).

Para entender como cheiramos o almíscar, os cientistas tiveram que identificar os receptores olfativos dessa substância em humanos. Receptores olfativos são como as fechaduras onde entram as chaves das substâncias aromáticas. Como uma boa fechadura, receptores aromáticos costumam ser bastante específicos. Quando as chaves certas se encaixam neles, desencadeia-se uma série de reações bioquímicas que culminam na sensação do aroma de dada substância e nas memórias associadas a ela.

Há alguns anos, Batista e sua equipe identificaram dois receptores olfativos em humanos: OR5AN1 e OR1A1, ambos especializados na detecção de aromas almiscarados. A estrutura da chave almiscarada já é bem conhecida, mas a de sua fechadura não. Partindo de modelos computacionais, Batista et. al. conduziram experimentos com substâncias almiscaradas, soluções e proteínas.

Os resultados, recém-publicados online na PNAS, descrevem as estruturas desses receptores olfativos e indicam que as fechaduras do almíscar são mesmo especializadas. Enquanto a OR5AN1 responde a compostos macrocíclicos e nitromoscados (dois grupos de almíscar sintético), a OR1AN1 se abre apenas com os nitromoscados. Também foram encontrados alguns aminoácidos residuais que facilitam a conexão entre essas chaves e fechaduras aromáticas.

Embora seja tão inodoro quanto qualquer artigo científico, o paper de Batista e seus colaboradores pode nos ajudar a farejar novas descobertas em áreas tão diversas quanto o comportamento animal, a fabricação de perfumes e a farmacologia (o almíscar é tradicionalmente usado pela medicina chinesa). É ciência com um toque almiscarado.

Referência

rb2_large_gray25Lucky Ahmed et al. Molecular mechanism of activation of human musk receptors OR5AN1 and OR1A1 by (R)-muscone and diverse other musk-smelling compounds [Mecanismo de ativação molecular dos receptores humanos de almíscar OR5AN1 e OR1A1 pela (R)-muscona e vários outros compostos com aroma almiscarado] PNAS, 9 de abril de 2018. https://doi.org/10.1073/pnas.1713026115

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