Agricultores natos, os besouros da espécie Xylosandrus germanus (Coleoptera - Curculionidae - Scolytinae) estão sempre atrás de um ambiente rico em álcool. Às vezes, são atraídos por um copo de cerveja.

Agricultores natos, os besouros da espécie Xylosandrus germanus (ColeopteraCurculionidaeScolytinae) estão sempre atrás de um ambiente rico em álcool. Às vezes, são atraídos por um copo de cerveja.

Se aparecer um besouro em sua cerveja não fique bravo: ele só quer alimentar as crianças

Depois de um longo dia de labuta, o agricultor vai tomar uma cervejinha debaixo de uma velha árvore. Tão logo ele serve a bebida em seu copo, um bichinho cai nele. Calma aí, Tião! Antes de sair esbravejando com o bizorro, saiba que ele é bem parecido com você. Esse besouro aí no seu copo provavelmente é uma das milhares de espécies conhecidas como besouros-de-ambrosia. Eles também são agricultores e adoram um trago — mas por motivos um pouco diferentes.

Besouros assim — classificados nas subfamílias Scolytinea e Platypodinea — existem no mundo inteiro, Tião, e são capazes de cultivar fungos — como os do gênero Ambrosiella — para se alimentar. “Então por que é que eles precisam de álcool?”. Boa pergunta, Tião. Inclusive foi a mesma pergunta feita pelo ecologista Peter Biedermann, da Universidade de Würzburg (Alemanha) e seus colegas Philipp Benz, da Universidade Técnica de Munique (também na Alemanhas) e Christopher Ranger, da Universidade Estadual de Ohio.

Dentre as milhares de espécies de besouros-de-ambrosia, os pesquisadores escolheram pesquisar a Xylosandrus germanus. “Há muito que se sabe que o álcool é produzido por árvores enfraquecidas e essas árvores são reconhecidas e colonizadas pelos besouros-de-ambrosia”, diz Biedermann em comunicado ao Phys.org. Uma maneira clássica de caçar esses bichinhos — que costumam ter uns 2 milímetros — é fazer armadilhas com álcool. Ou pode acontecer o mesmo que houve contigo, Tião: abrir uma cerveja debaixo de uma árvore envelhecida.

Em vez de cerveja, os X. germanus estudados foram capturados com armadilhas de álcool mesmo, montadas num bosque do interior de Ohio (EUA) entre abril e maio do ano passado. Depois do período do experimento, foram extraídas as amostras de cascas infectadas pelos besouros, que foram analisadas ao microscópio. Os cientistas contaram a população de cada colônia e mediram a concentração alcoólica de cada pedaço de madeira.

Vindo da madeira (ou de um copo), o álcool atrai os bichinhos por causa dos fungos que ele cultiva. Biedermann, Benz e Ranger descobriram que esses fungos que vivem em simbiose com os besourinhos têm uma alta atividade na enzima que degrada o álcool. Isso permite que eles cresçam bastante em ambientes alcoolizados — e quanto mais fungos, mais comida os besouros têm e mais filhotes conseguem sustentar. Tá vendo, Tião, eles não tomam um trago só pra refrescar a cabeça, mas pra botar comida pras crianças!

Segundo artigo publicado na PNAS por Biedermann e seus colegas, a melhor concentração de álcool para os fungos e os besouros é de cerca de 2% – o equivalente a uma cerveja bem fraquinha. “Nesse nível de álcool”, explica o prof. Benz, “o mofo onipresente, que pode ser considerado ‘erva daninha’ da agricultura fungal cresce fracamente e não atrapalha os jardins de fungos.”

Para os besouros, portanto, o álcool não é apenas um adubo mas também um defensivo químico. Considerando que praticam agricultura assim há cerca de 60 milhões de anos e sem sinais de surgimento de “pragas” resistentes ao álcool, os besouros-de-ambrosia podem ter muito a ensinar tanto aos cientistas quanto a agricultores como você, Tião.

Como você já deve ter reparado, embora possam se afogar pelo excesso de líquidos, os besouros não chegam a ficar bêbados — de fato, eles parecem ser mais resistentes ao álcool do que outras criaturas. Os fungos se dão bem em meio alcoólico, mas como será que os besouros resistem ao ambiente manguaçado? Será que eles também se apropriam das enzimas fungais ou desenvolveram seus próprios meios de lidar com o álcool? Biedermann e Benz planejam esclarecer essas dúvidas em futuros estudos.

Ah, Tião, mas você só queria saber se eu tô a fim de um trago? Claro que sim, mas antes vamos tirar esse besourinho bêbado daí…

Re(hic!)fe(hic!)rência

rb2_large_gray25Christopher M. Ranger et. al.,“Symbiont selection via alcohol benefits fungus farming by ambrosia beetles [Seleção simbionte via benfícios do álcool aos fungos cultivados por besouros-de-ambrosia]” PNAS, 24 de abril de 2018, 115 (17) 4447-4452 www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1716852115

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