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Se você bebeu café, pode dizer que sim. Duas pesquisas indicam que a cafeína aumenta a chamada “entropia cerebral”.

Entropia — ela existe em todo o universo e está sempre aumentando. Originário da Física, o conceito de entropia parece complicado, mas é bem simples: é o nível de desordem de um dado sistema. Quanto mais organizado um sistema, mais baixa sua entropia. E como manter as coisas organizadas exige trabalho, a tendência geral é que as coisas se desorganizem (irreversivelmente ou não). Ovos quebrados? Entropia. Quarto bagunçado? Entropia. Cérebros estimulados? Entropia também, por que não?

Como todo órgão vivo, um cérebro pode ser considerado um objeto de baixa entropia: tudo precisa estar muito bem organizadinho para funcionar. Será que um aumento de entropia na massa cinzenta seria algo bom? Para entender isso, os neurocientistas estão começando a estudar a chamada entropia cerebral — que se define pela variabilidade irregular da atividade cerebral entre um momento e outro, junto com as complexas inter-relações de diferentes redes neurais. Nesse sentido, a entropia cerebral indica a capacidade de processamento de informação: uma entropia cerebral baixa, com padrões ordeiros e repetitivos, é observada num estado de sono profundo ou coma; por outro lado, um cérebro estimulado apresenta uma entropia elevada.

Uma maneira simples de estudar um cérebro estimulado é usar um psicoestimulante — como a cafeína. Na Universidade Normal de Hangzhou (China), Da Chang e seus colegas investigaram se e como a cafeína altera a entropia cerebral. O estudo foi feito com 60 participantes — 30 de cada sexo — que fizeram exames de ressonância magnética do cérebro antes e depois da ingestão de uma pílula de 200mg de cafeína (o que equivale a umas duas xícaras de café). Ambos os escaneamentos foram feitos em estado de repouso: os voluntários tinham apenas que ficar deitados na máquina, sem realizar nenhuma tarefa cognitiva como resolver contas ou reconhecer imagens. Ao mesmo tempo em que monitorava a atividade cerebral dos examinados, Chang e sua equipe mediram variações no fluxo sanguíneo encefálico.

Os resultados, publicados em fevereiro na Scientific Reports, mostraram que a ingestão de cafeína aumentou a entropia cerebral em quase todo o córtex. Esse efeito foi mais intenso no “córtex lateral pré-frontal, na DMN [default mode network, uma rede neural envolvida com a imaginação e a auto-reflexão], no córtex visual e na rede motora”. Para os cientistas, essa dose extra de entropia explica os efeitos benéficos do café que conhecemos há séculos — melhora da atenção, da vigilância e da função motora. O fluxo sanguíneo foi ligeiramente reduzido pela substância, o que indica haver pouca relação com o efeito estimulante do café, que parece agir diretamente sobre os neurônios.

Do outro lado do mundo, na Escola de Medicina da Universidade de Nova York, um grupo de pesquisa liderado por Glenn Saxe usou quase os mesmos métodos da equipe chinesa para medir a entropia cerebral de 900 voluntários saudáveis. A diferença é que esses participantes tiveram que fazer testes de inteligência verbal e raciocínio depois de cada escaneamento cerebral. Saxe e sua equipe definiram a entropia cerebral como “uma medida da prontidão ou flexibilidade geral do cérebro diante de estímulos imprevisíveis.”

O grupo nova-iorquino também encontrou indícios de que a entropia elevada após uma dose de cafeína faz bem. Houve melhora no desempenho dos testes de vocabulário (associado à elevação da entropia no lobo frontal inferior esquerdo) e de raciocínio (graças a mais entropia na mesma região e também nas áreas pré-frontais bilaterais).

Em paper publicado na PLoS ONE também em fevereiro, Saxe e seus colegas consideram que um cérebro mais entrópico seria mais capaz de fazer modelos e previsões de um mundo complexo e caótico. A idade e o grau de escolaridade dos participantes não interferiu na relação entre entropia e inteligência, o que “sugere que a entropia é um preditor confiável de inteligência e fornece informações exclusivas, que não são apresentadas apenas pelo status de desenvolvimento ou educacional”.

Essas duas pesquisas corroboram outros estudos já feitos, que descobriram uma entropia neural reduzida tanto em adultos com hiperatividade e déficit de atenção quanto em viciados em cocaína. Como tudo na vida, entropia cerebral demais também faz mal: portadores de esquizofrenia têm entropia cerebral maior do que o normal. Portanto, da mesma forma que um quarto organizadinho demais causa tédio e um bagunçado demais te deixa confuso, tanto a falta quanto o excesso de entropia cerebral dificultam a capacidade de concentração e raciocínio. Lembre-se disso na hora de tomar café e beba com moderação.

Referências

rb2_large_gray25DA CHANG et. al. Caffeine Caused a Widespread Increase of Resting Brain Entropy [Cafeína causou um aumento generalizado de entropia cerebral em repouso] Scientific Reports (2018). doi:10.1038/s41598-018-21008-6

SAXE, Glenn N. et. al. Brain entropy and human intelligence: A resting-state fMRI study [Entropia cerebral e inteligência humana: um estudo de ressonância magnética funcional em repouso] PLoS ONE 13(2): e0191582. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0191582

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