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Gravura de O Ferreiro e o Demônio: análise comparativa linguística com técnicas de genética revelou que esse é um dos mais antigos contos de fadas existentes, com cerca de 6000 anos.

Ao aplicar o mesmo método usado para analisar genomas, pesquisadores descobrem que os contos de fadas são milenares

Dois seres vivos podem ser bem diferentes na aparência e no comportamento e mesmo assim ter um ancestral em comum. É o que pesquisas genéticas têm revelado nas últimas décadas. Ao verificar o que há de semelhante e de diferente entre duas amostras de DNA e sabendo qual a taxa de mutação, os geneticistas podem determinar quando viveu o último ancestral comum entre criaturas tão distintas quanto animais e fungos (1,1 bilhão de anos). Estudos desse gênero indicam que o Último Ancestral Comum Universal (LUCA, na sigla em inglês), do qual descendem todos os seres vivos da Terra, viveu há cerca de 3,8 bilhões de anos.

Mas não são apenas seres vivos que evoluem dessa forma. Elementos da cultura humana como línguas e suas narrativas também se ramificam ao longo das eras a partir de um ancestral comum. Um exemplo bem recente é o meme: proposto como explicação desse fenômeno replicador de ideias e conceitos por Richard Dawkins nos anos 1970, o meme saiu da academia e passou a ser o nome que damos a qualquer coisa que se espalha feito vírus na internet — de vídeos de gatinhos a correntes de WhatsApp.

Nem todo meme, porém, é recente e efêmero. Contos de fadas são um bom exemplo. Embora sejam tradicionalmente atribuídas a seus compiladores (como os Irmãos Grimm), narrativas como João e o Pé de Feijão e A Bela e a Fera vem sendo passadas de geração a geração e de cultura a cultura há séculos. Traçar as origens dessas histórias não é fácil. Os registros escritos são raros pois a maioria dessas narrativas era transmitida apenas por via oral. Para determinar a idade e a origem dessas histórias tão populares, o antropólogo Jamshid Tehrani, da Universidade Durham (Reino Unido), recorreu à mesma metodologia usada pelos geneticistas para encontrar espécies ancestrais.

Evidentemente, contos de fadas não contém DNA. Mas estão codificados em línguas, e a árvore genealógica das línguas indo-europeias — que abriga idiomas tão distintos quanto o português, o grego e o hindi — é algo bem definido. Todas essas línguas e suas culturas descendem do povo proto-indo-europeu, que viveu durante o período neolítico (entre 10 mil e 2 mil anos atrás) no leste da Europa.

Árvore filogenética da família indo-europeia de línguas. Cada nó é um ponto de divergência, cuja data é marcada pela escala à direita.

Contos de fadas contam-se aos milhares: o Aarne–Thompson–Uther Index registra mais de 2000 exemplares dessas narrativas de diversas culturas indo-europeias. Auxiliado pela portuguesa Sara Graça da Silva (da Universidade Nova de Lisboa), Tehrani partiu dessa imensa coletânea mas para evitar confusões e repetições, a amostra foi reduzida às histórias com elementos mágicos e sobrenaturais mais comuns. Dentro desse recorte, que tem 275 contos de fadas, encontram-se clássicos como João e Maria.

Para encontrar o tatatata(tan)ravô de uma lesma e um cogumelo, os cientistas comparam o material genético de sucessivas gerações dos bichos. Assim, Silva e Tehrani fizeram algo parecido com os contos de fadas. Se houver uma versão de João e o Pé de Feijão tanto em irlandês (uma língua céltica) como em polonês (idioma eslávico), existe a possibilidade de encontrar uma versão no último ancestral comum entre essas duas línguas. Esse ancestral linguístico seria o Proto-Indo-Europeu Ocidental, que começou a divergir há cerca de 6800 anos e deu origem aos troncos eslávico e céltico.

Só que as coisas não são tão simples assim: diferente dos genes, que são transmitidos quase sempre de modo vertical (apenas de pai para filho e assim por diante), memes como contos de fadas também podem se espalhar horizontalmente quando uma cultura interage com outra. Reconhecendo esse problema, os autores desse estudo fizeram mais um recorte e excluíram histórias que teriam disseminação horizontal. Com isso, a amostra foi reduzida a apenas 76 contos de fadas.

A árvore genealógica dos contos de fadas, identificados pelos números da lista na parte inferior [Silva & Tehrani, 2016].

Esse enquadramento permitiu que os pesquisadores estimassem com maior precisão a origem de contos mais antigos, como O Ferreiro e o Diabo. Quase esquecida entre nós, essa história narra o acordo que um ferreiro faz com o demônio em troca de façanhas profissionais incomparáveis (deve ser essa raiz de Fausto, de Goethe). Esse conto remontaria ao próprio povo Proto-Indo-Europeu e seria um dos mais antigos existentes. Publicados na Royal Society Open Science, os resultados dessas análises linguísticas com um quê de genética indicam que os contos de fadas que ainda contamos às crianças teriam a avançada idade de 2500 a 6000 anos.

Para Mark Pagel, biólogo evolucionário da Universidade de Reading (Reino Unido) que não participou do estudo, a pesquisa foi bem feita. Em comentário publicado na Current Biology, ele se pergunta: “O que realmente me interessa é por que essas formas culturais existem. Por que é que contos de fadas, cantigas, arte, poemas e essas coisas parecem ter tamanha longevidade?”

Para Tehrani, o sucesso dos contos de fadas se dá porque eles são “narrativas minimamente contra-intuitivas”. Ou seja, todos contêm alguns elementos de dissonância cognitiva — como criaturas fantásticas ou soluções mágicas — mas mesmo assim são fáceis de entender. A Bela e a Fera, por exemplo, é sobre um homem que foi transformado em uma criatura monstruosa num passe de mágica mas ao mesmo tempo também é uma história simples sobre família, romance e não julgar as pessoas pela aparência. Os elementos fantásticos chamam a atenção para esses contos mas são as partes tiradas do cotidiano que os fazem ser fáceis de entender, memorizar e recontar.

Referência

rb2_large_gray25TEHRANI, Jamshid J. e SILVA, Sara Graça da. Comparative phylogenetic analyses uncover the ancient roots of Indo-European folktales [Análises comparativas filogenéticas revelam as raízes antigas dos contos folclóricos Indo-Europeus]. Royal Society Open Science 2016 3 150645; DOI: 10.1098/rsos.150645. Published 20 January 2016

[via Science]

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