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Canibalismo, saliva, montanhas-russas e xingamentos estiveram entre pesquisas agraciadas com o prêmio mais engraçadinho da comunidade científica

Mesmo sabendo que sempre acontece em setembro, o IgNobel sempre me surpreende. O desse ano — 28º. primeiro, segundo a contagem dos organizadores — foi realizado na última (13/09) no mesmo lugar de sempre: o Teatro Sanders, na Universidade Harvard. Me equivoquei com o fuso-horário e só pude acompanhar ao vivo a última meia-hora da cerimônia pouco cerimoniosa de quase 2h, marcada por tradições já consagradas: Marc Abrahams, editor da Annals of Improbable Reasearch (a revista organizadora do prêmio), no papel de mestre de cerimônias; as lanternas humanas; os dois dilúvios de aviõezinhos de papel; Sweet Poo (a garotinha de oito anos que garante a brevidade dos discursos); as palestras 24/7 (que explicam um tópico em 24 segundos e depois em 7 palavras); a presença de laureados pelo Nobel e a ópera improvável, que este ano teve como tema o coração. Novidade desta edição foi a tradução simultânea — em russo, konkani, alemão, português e queijês, com tradutores falando ao mesmo tempo — do segundo dilúvio de aviõezinhos de papel.

Sem mais delongas, vamos aos prêmios e depois contamos o que mais aconteceu.


MEDICINA

O que dá mais medo: um passeio de montanha-russa ou uma pedra no rim? Graças à descoberta de um paciente, a montanha-russa pode ser um bom tratamento para esse problema renal tão aflitivo. Por essa descoberta, foram agraciados Marc Mitchell e David Wartinger, que resolveram comprovar esse achado e criar um procedimento que usa passeios de montanha-russa para facilitar a passagem de cálculos renais. Wartinger compareceu pessoalmente com brindes das montanhas-russas visitadas e foi o primeiro a levar para casa o sustentável troféu deste ano — um coração decorado com um estetoscópio sobre um pedestal de garrafa plástica.

Referência
Marc A. Mitchell, David D. Wartinger. Validation of a Functional Pyelocalyceal Renal Model for the Evaluation of Renal Calculi Passage While Riding a Roller Coaster [Validação de um modelo renal pielocaliceal funcional para a avaliação da passagem de cálculos renais durante o passeio em uma montanha-russa]. The Journal of the American Osteopathic Association, vol. 116, October 2016, pp. 647-652.

ANTROPOLOGIA

Em inglês diz-se que monkey see, monkey do (macaco vê, macaco faz). Em português, dizemos que macaquear é fazer uma imitação de alguém. Essa sabedoria popular foi comprovada por pesquisadores da Suécia, Romênia, Dinamarca, Holanda, Alemanha, Reino Unido, Indonésia e Itália. Tomas Persson e Gabriela-Alina Sucic, representantes do grupo na cerimônia, fizeram pesquisas em zoológicos e descobriram com seus colegas que chimpanzés imitam humanos tão bem e tão frequentemente quanto nós os imitamos. Os dois pesquisadores foram os primeiros da noite a ter o discurso interrompido pela graciosa Sweet Poo.

Referência
Tomas Persson, Gabriela-Alina Sauciuc e Elainie Madsen. Spontaneous Cross-Species Imitation in Interaction Between Chimpanzees and Zoo Visitors [Imitação espontânea inter-espécies na interação entre chimpazés e visitantes de zoológicos]. Primates, vol. 59, no. 1, January 2018, pp 19–29.

BIOLOGIA

A entomologia alcoólica parece estar em alta. Este ano já tratamos de besourinhos bêbados, mas essa (ainda) não foi a pesquisa premiada em Biologia. Representantes da Suécia, Colômbia, Alemanha, França e Suíça fizeram algo parecido ao demonstrar que os enochatos enólogos podem identificar precisamente a presença de uma mísera mosca num copo de vinho — apenas cheirando. Paul Becher, Sebastien Lebreton, Felipe Borrero-Echeverry, Peter Witzgall compareceram à cerimônia pessoalmente e levaram uma garrafa de vinho decorada com asas de mosca. Em seguida, alguns nobelizados participaram de uma demonstração prática da pesquisa.

Referência
Paul G. Becher, Sebastien Lebreton, Erika A. Wallin, Erik Hedenstrom, Felipe Borrero-Echeverry, Marie Bengtsson, Volker Jorger e Peter Witzgall. The Scent of the Fly [O aroma da mosca]. bioRxiv, no. 20637, 2017.

QUÍMICA

Que atire a primeira cusparada quem nunca limpou uma sujeirinha numa mesa ou vidro com saliva. Mas será que isso é válido? Os portugueses Paula Romão, Adília Alarcão e César Viana estudaram o fenômeno e concluíram que sim, a saliva humana é um bom agente de limpeza para superfícies sujas. Romão e Alarcão não puderam comparecer pessoalmente mas enviaram um discurso de agradecimento gravado em vídeo com um inglês tosco e um alerta: não use esse método na cozinha. Viana fez algo pior e cometeu a desfeita de falecer antes da premiação — o que faz sentido, considerando que a pesquisa foi publicada originalmente em 1990 e só agora devidamente reconhecida. No palco, uma curadora do museu de Harvard fez uma demonstração dessa técnica com uma pintura.

Referência
Paula M. S. Romão, Adília M. Alarcão e César A.N. Viana. Human Saliva as a Cleaning Agent for Dirty Surfaces [Saliva humana como agente de limpeza para superfícies sujas]. Studies in Conservation, vol. 35, 1990, pp. 153-155.

EDUCAÇÃO MÉDICA

“O que acontece se eu enfiar isso no cu?” Basicamente é essa a pergunta que rendeu, sem dúvida, o prêmio mais egoísta, nojento e profundo da noite, concedido ao japonês Akira Horiuchi. Autor de um relatório sobre auto-colonoscopia, Horiuchi compareceu em pessoa — mas foi impedido de fazer uma demonstração de sua pesquisa por razões óbvias (e esqueceu seu troféu ao sair).

Referência
Akira Horiuchi e Yoshiko Nakayama. Colonoscopy in the Sitting Position: Lessons Learned From Self-Colonoscopy by Using a Small-Caliber, Variable-Stiffness Colonoscope [Colonoscopia em posição sentada: lições aprendidas através de auto-colonoscopia com uso de um colonoscópio de pequeno calibre e rigidez variável]. Gastrointestinal Endoscopy, vol. 63, No. 1, 2006, pp. 119-20.

LITERATURA

De automóveis a máquinas de lavar, de cafeteiras a móveis, todo tipo de coisa precisa de um manual de instruções para ser montado com segurança ou funcionar adequadamente. Se você não se lembra qual foi a última vez que leu o manual, poderia ser parte dos quatro estudos de pesquisadores da Austrália, Reino Unido e El Salvador. Thea Blackler, Rafael Gomez, Vesna Popovic e M. Helen Thompson comprovaram que as pessoas que lidam com produtos complexos não leem os manuais de instrução. Em seu discurso, Blacker ilustrou seus argumentos com desenhos toscos de manuais de instrução e uma cadeira montada de modo totalmente errado — e também esqueceu seu troféu ao sair.

Referência
Alethea L. Blackler, Rafael Gomez, Vesna Popovic e M. Helen Thompson. Life Is Too Short to RTFM: How Users Relate to Documentation and Excess Features in Consumer Products [A vida é muito curta para LPMI (ler a porra do manual de instruções): como usuários lidam com a documentação e o excesso de características em bens de consumo].  Interacting With Computers, vol. 28, no. 1, 2014, pp. 27-46.

NUTRIÇÃO

Existem pessoas que se preocupam com as calorias de um churrasco, então talvez também existam canibais que se preocupam com os valores calóricos de seus hábitos alimentares. Se você é um desses canibais certinhos (ou seguidor de uma dieta paleolítica, o que dá no mesmo em alguns casos), agradeça ao britânico James Cole. Ao estudar indícios de canibalismo pré-histórico entre neandertais, Cole descobriu que o valor calórico de uma dieta de canibalismo humano é menor do que o de outros tipos de consumo de carne. A equipe do evento tentou entregar um prato especial como demonstração aos nobelizados mas foi censurada pelo Fiscal do NSFW.

Referência
James Cole. Assessing the Calorific Significance of Episodes of Human Cannibalism in the Paleolithic [Análise da significância calorífica de episódios de canibalismo humano no paleolítico]. Scientific Reports, vol. 7, no. 44707, April 7, 2017.

PAZ

Se tem uma coisa muito barulhenta e nem um pouco pacífica é o trânsito. Se ele estiver engarrafado a maior fonte de ruídos será os xingamentos e gritos dos motoristas impacientes e ansiosos. Quantas vezes um motorista irritado xinga? Por quais motivos? Há algum efeito na saraivada de impropérios de quem está atrás do volante? Francisco Alonso, Cristina Esteban, Andrea Serge, Maria-Luisa Ballestar, Jaime Sanmartín, Constanza Calatayud e Beatriz Alamar mediram todas essas variáveis para entender o comportamento humano no trânsito. Ao ser interrompido por Sweet Poo, Alonso tentou insultá-la da maneira mais educada possível.

Referências
Alonso et. al. Shouting and Cursing While Driving: Frequency, Reasons, Perceived Risk and Punishment [Gritar e Xingar ao Dirigir: frequência, motivos, riscos percebidos e punições]. Journal of Sociology and Anthropology, vol. 1, no. 12017, pp. 1-7.

Alonso et. al. La Justicia en el Tráfico: Conocimiento y Valoración de la Población Española [A Justiça no Trânsito: conhecimento e avaliação da população espanhola]. Cuadernos de Reflexión Attitudes, 2005.

MEDICINA REPRODUTIVA

De todos os hobbies que existem, a filatelia parece estar entre os menos excitantes. Menos para John Barry, Bruce Blank e Michel Boileau, que em 1980 usaram selos para verificar se o órgão sexual masculino está funcionando adequadamente. O trio de pesquisadores lembrou, com selos bastante ilustrativos, que o pênis pode endurecer várias vezes durante a noite com a maior naturalidade. Isso, se ele estiver funcionando, claro. Como examinar o dito-cujo a noite inteira não é tarefa agradável ou então exige equipamentos muito caros, Barry e seus colegas passaram a usar estampas filatélicas. Por motivos de pudor, a pesquisa teve que ser demonstrada com balões e talvez por isso não tenha sido censurada pelo Fiscal do NSFW. Entretanto, a prática de filatelia no recinto do IgNobel foi vetada.

Referência
John M. Barry, Bruce Blank, Michael Boileau. Nocturnal Penile Tumescence Monitoring With Stamps [Monitoramento da tumescência peniana noturna com selos]. Urology, vol. 15, 1980, pp. 171-172.

ECONOMIA

Seu chefe é abusivo? Já pensou em fazer picadinho dele? Não se desespere nem cometa um crime. Em vez disso, arranje umas agulhas e um boneco de vodu do patrão. Cientistas do Canadá, China, Singapura e EUA descobriram que esse é um método efetivo (e seguro) para se vingar de um chefe com comportamento abusivo. Os autores dessa pesquisa espinhosa — Hanyu Liang, Douglas J. Brown, Huiwen Lian, D. Lance Ferris e Lisa M. Keeping — apareceram  com os bonequinhos espetados de seus respectivos ex-chefes.

Referência
Lindie Hanyu Liang, Douglas J. Brown, Huiwen Lian, Samuel Hanig, D. Lance Ferris e Lisa M. Keeping. Righting a Wrong: Retaliation on a Voodoo Doll Symbolizing an Abusive Supervisor Restores Justice [Corrigindo um Erro: retaliação sobre um boneco de vodu que simboliza um supervisor restaura o senso de justiça]. The Leadership Quarterly, February 2018.


E o que mais? Bem, enquanto o público se acomodava para o evento foi executado o concerto para piano e sapato — que culmina, após vários minutos, com um sapato sendo melodicamente jogado ao chão. Antes de começar, as recomendações de segurança lembraram que nenhuma comida seria permitida no recinto a menos que estivesse no interior do sistema digestivo e que o lançamento de aviões de papel seria intolerável, exceto nos momentos indicados e mesmo assim as aeronavezinhas precisam ser única e exclusivamente de papel (nada de penas, propulsores, etc).

Os nobelizados presentes foram Eric Maskin (Economia, 2007), Wolfgang Ketterle (Física, 2001), Michael Rosbash (Medicina, 2017), Oliver Hart (Economia, 2016) e, remotamente, Jerome Friedman (Física, 1990), que mesmo assim participou de todas as cerimônias do IgNobel. IgNobelizados já consagrados também compareceram, como Deborah Anderson, que recebeu o prêmio de Química em 2008 por pesquisar sobre o efeito espermicida (ou não) da Coca-Cola. Foi lembrado o passamento do laureado com o IgNobel de Engenharia de Segurança em 1998 — o canadense Troy Hurtubise, que desenvolveu e testou uma armadura que seria à prova de ursos-pardos.

Os palestrantes 24/7 de 2018 foram: Suzana Herculano-Houzel, que explicou o cérebro humano (e foi a única brasileira a participar do evento este ano); Dakota McCoy, uma estudante universitária que descobriu um novo tipo de pigmentação preta em animais discorreu sobre o mesmo assunto; Oliver Hart explicou sua pesquisa sobre contratos incompletos, que lhe rendeu um Nobel de Economia; a cardiologista Natalia Berry discursou sobre sua profissão e a especialista em evolução Pardis Sabeti explanou a evolução dos vírus usando o Ebola como exemplo.

A ópera deste ano, em 4 atos, foi musicada, cantada e representada por um grupo de cardiologistas e biomédicos. O melodrama, intitulado Ópera do Coração Partido, conta a história de um par de crianças irritantes que quer descobrir como consertar um coração partido. Para isso, eles resolvem criar um coração, quebrá-lo e tentar consertá-lo. O ponto alto da peça foi o 3º. ato, que teve um dueto inédito entre um violino e uma bobina-de-Tesla.

Por fim, se você ficou entediado demais e pulou meu textão para procurar o vídeo da cerimônia na íntegra, pode vê-lo a seguir (em inglês, of course):

 

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