Célebre por sua inclinação (atualmente em 3,97º, embora já tenha passado dos 5º), a Torre de Pisa não é o único edifício torto do mundo. Ao longo dos séculos, construções feitas em diversos países saíram do prumo durante ou após sua construção. Algumas tornaram-se atrações turísticas enquanto outras acabaram por ser demolidas. Entre templos e farois, eis 10 exemplos de torres em itálico:

1) Pagode de Huzhu (China)

Construída em 1079 na região da Xangai moderna, essa torre era parte de um complexo que armazenava relíquias budistas. Depois que uma série de incêndios devastou os templos, só sobrou essa torre de pedra com base octaédrica. Com cerca de 20 metros de altura, tem uma inclinação de cerca de 7º, quase o dobro da Torre de Pisa.


2) Grã-Mesquita de al-Nuri (Iraque)

Esta mesquita de Mosul era conhecida localmente como al-Hadba, “a corcunda”, graças ao seu minarete inclinado. O templo começou a ser construído no século XII, sendo reformado ao longo dos séculos após sobreviver a diversas invasões. Não há certeza quanto ao motivo da inclinação da torre, que tinha 45 metros e foi construída com tijolos decorados em padrões geométricos. Ainda que as tradições (cristãs e muçulmanas) atribuam essa característica a interveções divinas, o desvio da perpendicular só começou a ser observado e registrado por viajantes no século XIV. Infelizmente, a mesquita e seu pitoresco minarete foram destruídos pelo Estado Islâmico durante a Batalha de Mosul em 2017.


3) Igreja de Suurhusen (Alemanha)

Remanescente de uma fortaleza medieval, essa igreja gótica, construída com tijolos, recebeu uma torre quadrada em 1450. Fundada sobre um solo pantanoso, a torre de 27 metros permaneceu firme por séculos mas começou a entortar no século XIX. Desde então, o esgotamento de um lençol freático tem causado a inclinação da construção, que supera a de Pisa. Após uma década fechada para trabalhos de estabilização, o local foi aberto como atração turística em 1985.


4) Asinelli e 5) Garisenda (Itália)

Também conhecidas como as Duas Torres de Bolonha, esses arranha-céus medievais estão situados num antigo cruzamento da cidade. Teriam sido construídas entre 1109 e 1119 como parte da disputa entre as famílias Asinelli (a maior) e Garisenda (a mais inclinada). Feitas de pedra, tiveram vários usos ao longo dos séculos. Asinelli começou com uma altura de 70 metros, mas sucessivas ampliações a levaram aos atuais 97 metros. No século XIV, serviu como prisão e fortaleza e foi usada para estudos sobre a queda dos corpos e da rotação do planeta nos séculos XVII e XVIII. Na II Guerra Mundial virou posto de observação e mais tarde chegou a abrigar uma torre de TV no seu topo.

Garisenda, por sua vez, chegou a ter 60 metros mas em vez de crescer foi reduzida aos atuais 48 metros. A partir do século XIV, movimentos no subsolo fizeram a torre se inclinar num ritmo alarmante, obrigado as autoridades a desmantelar seus estágios superiores. Adquirida por comerciantes de tecido no século XVI, só passou ao poder público quatrocentos anos mais tarde e foi citada em obras de Dante, Goethe e Dickens. Juntas, as torres gêmeas bolonhesas sobreviveram a diversos incêndios, quedas de raios e bombardeios — e teriam inspirado as torres gêmeas de Nova York.


6) Torre de Nevyansk (Rússia)

Construída em alvenaria no século XVIII pelo manufatureiro Akifiny Demidov, então um dos homens mais ricos da Rússia, essa torre tem 57,5 metros de altura e uma inclinação de aproximadamente 3 graus. Os historiadores discordam sobre a data exata da construção e qual seria sua finalidade: caixa-forte, torre de vigia, campanário, prisão ou laboratório. Reza a lenda que Demidov usava a torre como fábrica de dinheiro falso. De fato há indícios de uma fornalha com traços de ouro e prata, mas o provável é que Demidov tenha sido um nobre esclarecido e cientista amador, que usava a torre para experiências químicas e físicas — uma de suas salas, secreta, tem uma acústica que permite trocar sussurros de um canto a outro do ambiente. Embora muitos pensem que a inclinação seria de propósito, essa característica deriva da subsidiência do solo, que começou ainda durante a construção. Talvez por isso tenham sido usados vergalhões de reforço (uma novidade da época) e um teto metálico, que servia de para-raio (antes da invenção desse acessório de segurança).


7) Torre de Zaragoza ou Saragoça (Espanha)

Conhecida localmente como Torre Nueva, foi construída em tijolo por dois mestres cristãos, dois muçulmanos e um judeu nos primeiros anos do século XVI. Com 16 vértices na base e uma altura de 80 metros, foi a mais alta torre em estilo mudéjar (fusão das aquiteturas muçulmana e cristã) já construída. Sua inclinação foi notada pouco depois da conclusão das obras e provavelmente foi causada por falhas na execução do projeto: um dos lados da fundação e do térreo foi levantado mais rápido que o outro, causando uma tensão que a tirou do prumo. Apesar das tentativas de reforçar os alicerces, o defeito permaneceu e acabou virando o ícone da cidade, sendo profusamente pintada e fotografada. Infelizmente, aquela poderia ser a rival mais famosa (e mais alta) da Torre de Pisa não sobreviveu: em 1892 a câmara de vereadores local votou pelo seu desmantelamento, no que foi considerado o maior crime artístico cometido na Espanha.


8) Igreja de Sta. Maria e Todos-os-Santos (Inglaterra)

Localizada em Chesterfield, essa igreja foi construída em silhar (tipo de pedra lavrada) ao longo do século  XIV. Sua principal característica é a agulha retorcida e inclinada situada sobre sua torre, que tem cerca de 70 metros. O folclore local atribui a distorção da torre às passagens do demônio pelo edifício, que, segundo uma história popular, teria sido enrolado pela cauda do diabo. Antigamente, pensava-se que o defeito seria resultado da falta de pedreiros experientes após a Peste Negra, mas hoje sabe-se que a causa está no chumbo usado na cobertura: o sol costuma bater apenas no lado sul da torre, levando a ciclos irregulares de contração e expansão térmicas entre o norte e o sul. Assim, a cobertura foi sendo entortada e retorcida pelo calor ao longo dos séculos. Atingida por um raio em 1861, a torre com aparência de parafuso sobreviveu ao incêndio subsequente. Atualmente, a torre é um símbolo da comunidade local, e aparece no escudo do Chesterfield F.C.


9) Farol de Puerto Morellos (México)

Segundo farol construído no mesmo local, o Faro Inclinado foi construído em 1946 e tem 10 metros de altura. Sua inclinação deve-se à passagem do Furacão Beulah, em setembro de 1967. Situado bem próximo do mar, o pequeno farol teve sua fundação levada pelas ondas daquela forte tempestade. Apesar de ter sido abandonado e caído em desuso, o prédio tornou-se atração turística e símbolo da cidade. Ironicamente o terceiro farol, construído nos anos 1980, também foi danificado por um furacão, o Wilma, em 2005.


10) Farol de Sharps Island (EUA)

Este farol norte-americano também foi o segundo a ser construído no mesmo local, mais ou menos no centro da Baía de Chesapeake, em Maryland. O primeiro, erigido em 1866, foi varrido de suas fundações por uma corrente de gelo à deriva em 1881 — e flutuou por uns 12 quilômetros, com faroleiro e tudo, até alcançar terra firme. No ano seguinte foi construído um novo farol, com uma estrutura de ferro de 11 metros de altura sobre um grande alicerce cilíndrico de concreto. Automatizado pela Guarda Costeira dos EUA em 1938, recebeu novas lentes em 1977. Porém, pouco depois dessa reforma, o farol foi novamente atingido por uma correnteza de gelo. Dessa vez, a massa gelada não arrancou o farol, mas fez um estrago em sua fundação, deixando-o com uma inclinação de 15 graus — três vezes a inclinação original de Pisa. Tombado como patrimônio histórico em 1982, o Farol de Sharps Island só foi desativado em 2010 e desde então tem se degradado rapidamente.

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