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A resposta veio de pesquisa com imageamento cerebral e confirmou o que era esperado: as cores são, para os cegos, conceitos abstratos

Por Emma Young, no BPS Research Digest (março de 2019). Tradução de Renato Pincelli.

Ao pensar nos conceitos de “vermelho” e “justiça”, você vai notar que há uma diferença fundamental. Se você enxerga, vai associar o “vermelho” com uma experiência sensorial, que depende dos sinais que vêm dos cones em suas retinas. Por outro lado, “justiça” não tem nenhuma sensorialidade associada — é um conceito abstrato, no qual você pode pensar o sentido, adquirido via linguagem, e entender sua relação com outros conceitos abstratos, como “equidade” e “responsabilidade”. Mas e as pessoas cegas? Como elas pensam o “vermelho”?

Um estudo de imageamento foi feito com 12 pessoas cegas de nascença e 14 pessoas com vista normal e publicado recentemente na Nature Communications. Segundo a pesquisa, as pessoas que enxergam tem conceitos sensórios e abstratos, como “vermelho” e “justiça”, representados em partes diferentes do cérebro. Para quem é cego, ambas as coisas são representadas na mesma região de “conceito abstrato”.

“Você poderia conversar com uma pessoa cega e, se não soubesse dessa condição, nunca suspeitaria que a experiência de vermelho dela é distinta da sua porque elas sabem mesmo o que o vermelho significa”, exemplifica Alfonso Caramazza, da Universidade Harvard (EUA). Principal autor do estudo, Caramazza argumenta que “elas sabem o que ele [o vermelho] significa da mesma forma que você sabe o que justiça significa”. Ou seja, esse conhecimento é adquirido por ouvir e ler sobre o vermelho.

Essa ideia de que as pessoas cegas processam conceitos de cor de modo mais abstrato foi sustentada por novas descobertas. Ella Striem-Amit, também de Harvard e co-autora do estudo em colaboração com Caramazza e outros colegas [Xiaoying Wang e Yanchao Bi], usou a fMRI [Ressonância Magnética Funcional] para observar a atividade cerebral dos participantes do estudo enquanto eles ouviam palavras relacionadas a três tipos de conceitos: conceitos concretos conhecidos por cegos e não-cegos, que podem ser percebidos por ambos os grupos (como “copo”); conceitos visuais que são imperceptíveis apenas aos cegos (como “vermelho” e “arco-íris”) e conceitos abstratos desprovidos de qualquer característica sensorial (“liberdade” e “justiça”).

Os resultados indicam que, para todos nós, o Lobo Medial Anterior Temporal (ATL, na sigla em inglês) é a área cerebral mais responsável pela representação de conceitos concretos com qualquer tipo de percepção sensorial. Já os conceitos abstratos, que são compreendidos com base no sentido da palavra e não têm ligação com informações sensoriais, são processados pelo ATL dorsolateral. Isso causa uma diferença entre os grupos no caso das palavras sobre cores, que foram associadas com mais atividade no ATL nos que enxergam e no ATL dorsolateral nos que não enxergam.

Embora as pessoas cegas não tenham a experiência sensorial das cores, explica Caramazza, elas podem, graças à linguagem, formar conceitos ricos e precisos sobre elas. Os cegos não só aprendem que a cor é uma propriedade dos objetos ou cenários diferente das sensações que experimentam, mas também podem aprender que há diferenças entre as cores. Pesquisas antecedentes demonstraram, por exemplo, que eles sabem que o laranja é mais parecido com amarelo e vermelho do que com verde ou azul.

“Estudos do conhecimento sobre cor nos indivíduos cegos confirmaram esse aspecto de seu entendimento dos termos cromáticos”, explica Caramazza. “No entanto, nosso estudo demonstrou que esse tipo de conhecimento é representado numa região cerebral tipicamente associada ao conhecimento de palavras que não têm referências sensoriais, como virtude ou justiça”. Para o pesquisador, isso reflete a importância que essa região tem na aquisição de significado através da linguagem.

Referência

rb2_large_gray25STRIEM-AMIT, Ella et. al. Neural representation of visual concepts in people born blind [Representação neural dos conceitos visuais em pessoas cegas de nascença]. Nature Communications, volume 9, Article number: 5250 (2018)

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