Para participar da blogagem coletiva sobre África que estamos organizando, resolvi escrever sobre a origem do principal grupo de HIV. Recomendo que antes de ler este texto leiam sobre a descoberta do vírus aqui.

Durante o período da descoberta do HIV e dos sintomas que ele causava, os médicos e os pesquisadores começaram a se perguntar se outras pessoas que apresentassem imunodeficiência eram portadores desconhecidos do vírus.
Esse era o caso de muitos doentes na África. Muitos sofriam de pneumonia, tuberculose e infecções vinculados à imunodeficiência. Assim que começaram as investigações em 1983 e 84, foram encontrados anticorpos anti-HIV (na época anti-LAV) em heterossexuais, enquanto na Europa e Estados Unidos a maioria dos casos era de homossexuais e usuários de drogas injetáveis.
A chamada doença da magreza (nome dado à AIDS na região) era comum na África, mas mascarada por sintomas de desnutrição, malária e infecções. Luc Montagnier descobriu que na região de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo – antigamente chamada Léopoldville quando o país se chamava Congo Belga – 1 em cada 10 adultos tinha anticorpos contra HIV.
Isso somado à descoberta de que macacos eram portadores de vírus muito parecidos com o HIV, chamados de SIV (Vírus da Imunodeficiência Símia), não foi bem recebido pelos africanos – o SIV só é encontrado em macacos do Velho Mundo. Para os líderes políticos soava como uma batata quente passada para a mão deles, de modo que as origens do HIV só foram bem aceitas na década de 90, com as descobertas mais recentes.
mapa

Mapa da região. O círculo marca a região onde foram encontrados os chimpanzés portadores de SIV.

Com a idéia de que o HIV deveria ter surgido na África, começou uma busca por amostras antigas de pacientes que tivessem sofrido os sintomas da AIDS, mas que não teriam sido diagnosticados por falta de conhecimento. A amostra positiva mais antiga encontrada foi o plasma sanguíneo congelado de um paciente de 1959 recuperado em 1998 [1] e mais recentemente, em 2008, uma amostra parafinada de linfonodo de 1960 [2], ambas de Kinshasa.
Para entender a importância das amostras antigas, um pouco da diversidade do HIV – que vou explicar melhor no próximo post sobre o tema. Existem na verdade dois tipos de HIV, o HIV-1 e o HIV-2. O HIV-2 teve uma origem diferente do HIV-1, está restrito a algumas regiões da África e causa uma infecção mais branda. A classificação do HIV é feita com base nas diferenças e similaridades entre o material genético dos vírus.
O HIV-1 é o responsável pela grande maioria dos casos e possui 3 grupos com origens diferentes, o grupo M (de main ou principal) responsável por 95% dos casos mundiais, e os grupos N (de non-M ou não M) e O (de outgroup ou outro), ambos restritos à algumas regiões da África.
Seguindo a regra de maior e mais diverso, o grupo M do HIV-1 possui vários subtipos, que recebem as letras A a K. Cada subtipo possui uma distribuição diferente, e novamente só a África possui todos os subtipos. No Brasil, o mais comum é o subtipo B, bem como na Europa Ocidental e Estados Unidos, em outros países outros subtipos predominam.
O vírus de 1959 é mais próximo dos ancestrais do subtipo D. Já o vírus recuperado da amostra de 1960, difere seu material genético em cerca de 12% e é mais próximo dos ancestrais do subtipo A. 12% de diferença é o que encontramos hoje em dia em linhagens divergentes de um mesmo subtipo. Por extrapolação simples, podemos inferir que, se atualmente dentro de um mesmo subtipo há a mesma diferença que entre os dois vírus, e que há 50 anos começavam a formar os subtipos recentes, o grupo M do HIV-1 deve ter surgido cerca de 50 anos antes, por volta de 1910.
Essa diferença tem implicações muito importantes. A primeira e mais óbvia é que na época das amostras já havia uma grande diversidade de HIV-1 circulando na África, com os subtipos atuais já presentes, por mais que só tenhamos tomado conhecimento sobre o vírus depois de 1980.
A segunda e principal implicação é que comparando as diferenças entre os dois vírus e utilizando a taxa de evolução do HIV, é possível o uso de ferramentas de análise muito mais delicadas e precisas do que a extrapolação acima para inferir a origem do grupo M do HIV-1. Essa estimativa situa a origem do grupo em 1908, com uma variação aceitável entre 1884-1924 [2].
Hoje em dia, Kinshasa é o local com a maior diversidade de vírus do grupo M, inclusive com linhagens ainda não classificadas. Já o SIV que pode ter dado origem ao grupo, só foi encontrado em chimpanzés de Camarões [3] – é só conferir no mapa, são bem distantes. Isso levanta a pergunta, com tanto tempo de contato sanguíneo entre chimpanzés e caçadores, como só em 1900 o vírus foi passar para seres humanos e por que em Léopoldville?
A resposta é: não foi. O SIV foi passado de chimpanzés para seres humanos diversas vezes, e inclusive deu origem à diferentes linhagens de HIV [4]. Mas quase sempre isso esteve restrito a regiões remotas e pequenos grupos de pessoas, insuficientes para dar início a uma epidemia. O HIV carece de uma concentração populacional grande para explodir.
Léopoldville foi em 1900 o maior centro urbano da região, servindo inclusive de rota fluvial para quem vinha de Camarões atrás de troca de produtos e bens. Lá havia a massa crítica de pessoas necessária para a epidemia começar [5].
Isso também se reflete na posterior dispersão do vírus para o mundo todo. O grande crescimento de centros urbanos da década de 60, as crescentes guerras civis de 70 e conseqüentes migrações em massa, principalmente de pequenos vilarejos onde a fome reinava para as cidades, somados aos casos de abuso sexual (muito comuns em guerras) e prostituição foram o estopim. São eventos decisivos para o crescimento e dispersão do HIV, dentro da África e fora, para os povos colonizadores e turistas.
O surgimento do HIV é fruto da exploração mais recente da África, e mais uma demonstração de que em um mundo globalizado – não encontrei outra expressão – os problemas dos outros acabam se tornando os nossos problemas.
Fontes:
Para uma ótima descrição do contexto em que surgiu o HIV, além de um registro completíssimo sobre diversas doenças, recomendo “A próxima peste”, de Laurie Garret.
[1] Zhu, Tuofu, Bette T. Korber, Andre J. Nahmias, Edward Hooper, Paul M. Sharp, e David D. Ho. “An African HIV-1 sequence from 1959 and implications for the origin of the epidemic.” Nature 391, no. 6667 (Fevereiro 5, 1998): 594-597. doi/10.1038/35400.
[2] Worobey, Michael, Marlea Gemmel, Dirk E. Teuwen, Tamara Haselkorn, Kevin Kunstman, Michael Bunce, et al. “Direct evidence of extensive diversity of HIV-1 in Kinshasa by 1960.” Nature 455, no. 7213 (Outubro 2, 2008): 661-664. doi/10.1038/nature07390.
[3] Keele, Brandon F., Fran Van Heuverswyn, Yingying Li, Elizabeth Bailes, Jun Takehisa, Mario L. Santiago, et al. “Chimpanzee Reservoirs of Pandemic and Nonpandemic HIV-1.” Science 313, no. 5786 (Julho 28, 2006): 523-526.
[4]Gao, Feng, Elizabeth Bailes, David L. Robertson, Yalu Chen, Cynthia M. Rodenburg, Scott F. Michael, et al. “Origin of HIV-1 in the chimpanzee Pan troglodytes troglodytes.” Nature 397, no. 6718 (Fevereiro 4, 1999): 436-441. doi/10.1038/17130.
[5] Sharp, Paul M., e Beatrice H. Hahn. “AIDS: Prehistory of HIV-1.” Nature 455, no. 7213 (Outubro 2, 2008): 605-606. doi/10.1038/455605a.

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