Auto-hemoterapia e a ignorância galopante (e algumas ameaças vazias)

Proponentes de uma terapia mecanicamente sem sentido e potencialmente perigosa descobriram (até que enfim) um artigo que eu publiquei em busca de paraquedistas semana passada. Bom ver que deu certo.
Alguns têm comentado abertamente no espaço reservado para tal, enquanto outros não têm coragem suficiente para “mostrar a cara” (termo muito pouco apropriado quando na Internet) e me atacam por email.
Ameaças vazias como neste comentário de Fernanda:

Se houver dignidade, publique-se
Se não houver, será publicado igual, como disse o Marcelo aí acima, muitos receberão este email…

Uuu!! Muitos receberão!
Sabe quem são esses “muitos”?
De acordo com a lista de emails repassado por outro comentarista, Marcelo Fetha, eles são: a Procuradoria Geral do Ministério Público, o Senador da República Eduardo Suplicy, O Superior Tribunal Federal, uma coisa que eu acho ser uma ONG (Defesa Vida 2009), uma editora da revista Época e outros que eu não conheço nem acho que importe muito.
Pois bem, usando a velha tática do “olhe aí, se ligue viu!?”, esse pessoal “bonzinho” da AHT que só quer o bem da humanidade tenta intimidar um blogueiro para que ele se cale e fuja com medo e deixe a terapiazinha inútil deles para lá.
Aliás, esse mesmo Marcelo mandou, para esse mesmo conjunto aleatório de endereços, links para supostas pesquisas que suportam o tratamento da Auto-Hemoterapia.
O que não é o caso.
Um deles discorre sobre a aplicação de ozônio (um fármaco), outro sobre um tratamento tópico na bexiga via endoscopia e outro tão desacreditado, com resultados tão próximo do zero e ativamente diferentes dos propostos pela AHT que eu teria vergonha de confundir isso com provas da eficácia do tratamento.
Mais uma vez, nenhum dos estudos foi replicado, o que os torna cientificamente inúteis.
Mas, como disse outra (via email), eu estou na folha de pagamento da indústria médica, que abafa esse tratamento perfeito por ele ser barato.
“Só custa o preço de uma seringa!”, eles dizem. Será que a indústria de materiais médicos e farmacêuticos não tem um só caroço de poder para enfrentar os malvadões da Medicina, que só querem seu dinheiro?
Ainda não vi uma propaganda na TV de uma fábrica de seringas dizendo: “a auto-
hemoterapia é o caminho, se informe.”
Num mundo onde ainda se vende Epocler (que mudou o status de remédio e virou um neologismo lindo: hepatoprotetor), não seria difícil empurrar algumas seringas.
Alternativamente, existem pessoas educadas, como um Luiz Fernando, que se ofereceu a me mandar material caso eu tivesse interesse.
Aprendam com ele. Não quis me empurrar goela abaixo, foi gentil e elegante ao perguntar se eu estaria interessado em algumas palestras que ele coletou.
O problema é que isso é apenas mais do mesmo. Uma pessoa pode falar até cair a língua que não vai me convencer de que um tratamento médico funciona.
Medicina não vive de discurso. Um tratamento, para ser confiável (ou, no mínimo, etico), precisa passar pelas garras do Método Científico.
E outra, depois que passa não fica imune. Toda a Ciência é continuamente atacada por todos os lados. Se continuar em pé é porque presta. Se cair, foi merecidamente (vide a Lei da Gravidade, que apesar de ser razoavelmente simples e bem estabelecida, continua sendo “derrubada” e atualizada para se conformar melhor com observações).
Conselho para os que querem evitar caixas de email lotadas de verborragias incoerentes e ameaças ridículas: não mexam com as vacas sagradas dos outros. Dissonância cognitiva dói muito e alguns indivíduos não reagem bem a dor.
ATUALIZAÇÃO
Estão me pedindo provas e provas do que estou falando. Mas gostaria de lembrar a todos que quem está fazendo alegações extraordinárias não sou eu.
Não sou eu que quer curar todas as doenças do mundo com mágica.
É uma pena que essas pessoas confundam “anedota” com “prova”.
P.S. Tem um aí constantemente me chamando de “charlatão”. Não acho que ele saiba o que isso significa.

Auto-Hemoterapia e a medicina da Idade Média de mãos dadas

Sem ter o que fazer e procurando por pajés e feiticeiros modernos, me deparo com uma tal de Auto-hemoterapia (nome já devidamente adaptado às novas regras gramaticas) e uma rusga entre um médico e um jornalista acerca disso.
A ANIVSA proíbe, o Conselho Federal de Medicina apresentou um parecer sobre o assunto, dizendo que sua prática é potencialmente perigosa e o médico Munir Massud, escalado pelo tal conselho para preparar o documento (posteriormente apreciado, revisado e corrigido pelos 28 conselheiros federais do órgão) passou a ser furiosamente atacado pelo jornalista Walter Medeiros.
Um médico professor e pesquisador prepara um documento, a pedido do CFM, após decisão da ANVISA e um jornalista o ataca como sendo desonesto?
Achando um tanto quanto curioso, fui atrás de mais informações (novamente, era um dia ocioso, sem muito o que fazer).
Em primeiro lugar, auto-hemoterapia não consiste em tratar a si mesmo ouvindo Nx Zero ou Fall Out Boy, pois isso seria auto EMO terapia.
Ou nem isso, apenas auto emossificação, nada que qualquer adolescente hoje em dia já não faça.
Auto-hemoterapia é o ato de retirar sangue de uma veia e injetá-lo em um músculo da mesma pessoa.
O “auto” aí é falacioso, pois quem faz o procedimento é outra pessoa, em geral um médico.
Mas se médicos fazem então é beleza, certo?
Alguns médicos também praticam homeopatia e acupuntura, dois métodos não apenas comprovadamente falsos como também potencialmente perigosos que não trazem qualquer resultado benéfico aos pacientes além do efeito placebo (agulhas podem causar inflamações seríssimas e homeopatia é caro e pode desviar recursos de, e atenção a um tratamento realmente eficaz).
Zero eficácia e possibilidade de complicações? Passo.
Médicos são pessoas e como tal estão sujeitas a sugestões e preconceitos e uma das maiores forças naturais que existe é a Preguiça.
É tão mais fácil receber um dado e deixar por isso mesmo. Procurar corroboração adequada e confiável é muito mais difícil que simplesmente acreditar.
(E existem ainda os charlatões sem caráter que lesão propositalmente e que, como agravante, inventam estórias mirabolantes para justificar seus métodos sórdidos de infligir dor em outrem, como um tal de Francisco Rodrigues, que admitiu descaradamente em um periódico natalense (Diário de Natal) que tratava doentes mentais com passes (prática supersticiosa que envolve “espíritos” tomando os corpos dos vivos) e que, pasmem, pois eu estou 100% indignado, criou a disciplina opcional Medicina e Espiritualidade na UFRN.)
Auto-hemoterapia (que daqui para frente será referida por AHT para evitar repetição) não possui efeitos adversos comprovadamente atrelados a ela (o que não é o mesmo que dizer que ela está livre de efeitos colaterais indesejados, mas apenas que estes ainda não foram conectados sem sobra de dúvida à terapia) por simples falta de observações controladas.
Isso é o que a literatura me diz, mas eu digo um efeito adverso agora: dor.
Para qualquer tratamento que não traga benefício, o menor desconforto já é um malefício por demais grande.
É como um tapa na cara; por menor que o dano causado seja, a plena falta de benefícios torna o menor indício de dor algo insuportável.
E essa tal de AHT serve para o quê?
Segundo Luiz Moura, proeminente proponente da precitada prática; para tudo (incluindo câncer e HIV)!
Segundo a Ciência Médica, para nada!
Entre centenas de anos de melhoria, milhares de estudos e milhões de profissionais pesquisadores e um indivíduo, aposto sempre no primeiro grupo.
Quer revolucionar a medicina? Prove.
Apresente um projeto de pesquisa de uma condição específica (não pode ser tudo ao mesmo tempo) a uma comissão de ética, mendigue dinheiro de uma universidade e siga o método científico com a metodologia adequada.
Todo pesquisador faz isso (principalmente a parte da mendicância), por que alguns se acham perseguidos e merecedores de tratamento diferenciado?
Descobriu o moto-perpétuo da Medicina e acha que não precisa provar a ninguém?
Popper discorda de você.
Se acha o novo Newton e acha que é mais sabido que toda a comunidade médica?
Occam está de olho (e ele anda armado).
Voltando à confusão que me chamou atenção.
A maior parte das críticas (uma busca no Google por “Munir Massud” mostra vários resultados, podem ir atrás) são simples ataques à pessoa do médico.
Nenhum comentário que li, tanto do seu arquirrival Walter Medeiros (jornalista E poeta!) quanto de outros colegas seus são críticas ao documento, mas ao sujeito que primeiro o escreveu.
Eles não conseguem sequer citar trabalhos razoáveis que cubram seus argumentos, apenas estiram a língua e chamam de bobo.
Na minha terra, o nome disso é meninice. Na terra dos mais instruídos, chama-se ad hominem.
Não consegue discutir no mesmo nível intelectual? Seus argumentos não passam de xingamentos e tentativas de desacreditar o oponente?
Parabéns, você é um falacioso!
Há até um que o acusa de “criminoso” por ele assinar o documento como Professor Doutor Munir Massud.
Oxente, acusar Munir Massud de criminoso porque ele assina um texto como “professor doutor” é de uma cretinice esférica.
Em primeiro lugar, é tradicional se referir a médicos (e a advogados) por “doutor”.
Isso é um sinal de respeito pela dignidade da profissão e uma formalidade tradicional.
Médicos são doutores em Medicina, não necessariamente doutores acadêmicos. Contestar o fato tradicional (eis a palavra novamente) de que “médico” pode ser substituído por “doutor” é simplesmente desonestidade intelectual, visando somente ofender a honra e sujar o nome de Munir.
A não ser que o sujeito tenha sido criado numa caverna por um louco, ele sabe o que “doutor” nesse contexto significa.
(E sim, quando eu digo “cretino” estou me referindo à patologia de retardo mental.
Quem escreveu aquele texto tem duas opções: ser extremamente idiota (novamente, outra forma de retardo) ou ser irremediavelmente sem caráter. Escolha.)
Em segundo lugar, ele dá aulas numa universidade, logo pode se denominar “professor”.
E a premissa inicial ainda é falsa! Massud não foi o único responsável pelo documento.
Ele não fez uma apresentação .pps e saiu espalhando pelos emails de seus conhecidos. Ele procurou informações sérias (MedLine, EndNote) e teve seu artigo revisado e corrigido por um painel de 28 pessoas.
Houve ainda outro teorista da conspiração que sugeriu que a AHT não é aceita pela comunidade médica por ser uma terapia barata.
Beber água, caminhar meia hora por dia e dormir bem são atividades proibitivamente caras, por isso que são tão recomendadas por qualquer médico. Né?
Lavar as mãos antes de comer então, aff! Os olhos da cara!
Meus xingamentos não constituem ad hominens pois são baseados em evidências empíricas. É perfeitamente possível argumentar com alguém de igual para igual e continuar a chamá-lo de “feio” se ele assim o for.
Ou mesmo que não seja, argumentos sólidos podem ser construídos e temperados com esculachos. Por exemplo: “Você está errado porque está usando estudos com metodologia dúbia que não foram propriamente cegados e randomizados e que não contêm o menor valor científico, seu imbecil!”
A propósito, muito do que é dito por aí é fruto exatamente daquilo: estudos porcamente mal feitos, sem controles, não-cegos, não-randomizados, não-revisado por pares, não-replicados e divulgados em publicações sem critério.
Ou, pior ainda, divulgado em meios de mídia ANTES de passarem pelo crivo de pessoas que realmente sabem do que dizem.
Foi o que fez Luiz Moura, que distorceu estudos de um médico chamado Jesse Teixeira (já consideravelmente mal estruturados por terem sido idealizados antes de exigências metodológicas confiáveis) que se referiam a tratamentos de pós-operatórios.
Luiz Moura pegou a conclusão de Jesse e a esticou, sacudiu, dobrou, enrolou e distorceu até chegar a uma conclusão própria: AHT é a cura de todos os males!
URRÚ!!
Se você pegar um bolo solado e queimado feito de laranja azeda com farinha mofada e bater no liquidificador, temperar com alho e coentro, deixar no freezer por doze horas e reaquecer no micro-ondas e tentar comer, perceberá rapidamente que manipular algo que já começou ruim vai apenas incrementar a ruindade.
Ciência é como culinária nesse aspecto, mas várias ordens de magnitude maior.
Mexer em algo que desde o começo já está fora do escopo científico só tende a aumentar ainda mais a distância entre aquilo e o que é cientificamente aceitável.
E já que mencionei algumas falácias, aqui vem outra: alguns defensores da AHT afirmam que ela é boa por ser antiga (talvez não com essas palavras, estou interpretando um pouco), pois baseiam sua eficácia nas observações dos trabalhos do Dr. Teixeira. Se for um Apelo a Antiguidade, é um muito do reiêra, pois tem nem 80 anos direito. Velho o suficiente para ser ultrapassado, mas não o bastante para ser ‘antiguidade’. Igual a um Chevette.
E em medicina, quanto mais antigo o tratamento, menos crédito merece (a não ser que continue se mostrando bom ao longo dos anos).

ATUALIZAÇÃO: hoje, primeiro de novembro, venho adicionar dizendo que meus comentaristas crentes (veja abaixo) demonstram que minha interpretação acima é confiável. Acreditam na terapia somente por ela ser antiga.

Mais uma vez, a ANVISA proibiu a prática da AHT e pediu ao Conselho Federal de Medicina que elaborasse um parecer com base científica.
Hoje em dia não apenas Vigilância Sanitária e o CFM proibem essa prática como também o fazem os Conselhos Federais de Enfermagem e Farmácia.
A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (notem a falta do “auto” no nome) apresentou o seguinte comunicado:

“A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia- SBHH, frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática hemoterápica denominada “auto-hemoterapia”, vem a público esclarecer o que se segue:
• A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia NÃO RECONHECE do ponto de vista científico o procedimento “auto-hemoterapia”;
• Não existe na literatura médica, tanto nacional quanto internacional, qualquer estudo com evidências científicas sobre o referido tema;
• Por não existirem informações científicas sobre o referido procedimento, são desconhecidos os possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática, podendo colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos;
• Agrega-se a este parecer, a Resolução do Conselho Federal de Medicina- Resolução CFM no 1.499/98, que em seu artigo 1º, “Proíbe aos médicos a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica”.
Frente ao exposto, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia não recomenda a prática desse procedimento.
O comunicado é assinado pelo Presidente da SBHH, Dr. Carlos Chiattone”

Buraco cavado, caixão lacrado, cal por cima.
Dúvidas, sugestões ou esculhambações, me procurem. Meu email está por aqui em algum lugar.
Eu procurei o jornalista Walter Medeiros para comentar o caso, mas ele se mostrou envergonhado e não quis gravar entrevista (mentira, apenas sempre quis dizer isso e, como agora posso oficialmente ser tão jornalista quanto ele, posso dizer esse tipo de coisa também).
O Dr. Munir, no entanto, estava disponível e me ajudou com material (verdade, mas não confiem em mim, pois eu minto tanto quanto vocês).

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam não necessariamente por email. Achar posts, imagens, tuítes, vídeos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso não é difícil. O difícil é confirmar a veracidade das informações antes de sair por aí espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alegações são, via de regra, as seguintes: as moedas falsas são mais leves, não brilham como as verdadeiras, não são atraídas por ímãs, os detalhes são grosseiros, a falsa é “mais oval”, o tamanho dos detalhes “são um pouco maior, pouca coisa, mas são!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que não significa que não estejam todos certos, visto que não existiria só um falsário fazendo moedas sempre no mesmo padrão. O problema aqui é, como muitos outros problemas na vida, ignorância dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, você me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo é uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

É como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois é, ambas são joaninhas). Se você supõe previamente que uma delas é falsa, você vai concluir que uma delas não é uma joaninha. Não porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contrário da primeira, é sim uma aranha disfarçada) ou outra espécie de inseto, mas porque você chegou a essa conclusão antes de obter dados suficiente para qualquer conclusão, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso é comum em apologistas de pseudociências como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles já começam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X é geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles não entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contrário). Os que são um pouquinho mais dispostos da cabeça (e não pegam toda informação acerca de sua religião prática exclusivamente através de um blog escrito todo em maiúsculas e negrito) até se dão ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas já tendo certeza de que, digamos, exercício e dieta balanceada não funcionam, pois o que funciona é só sua religião prática e só pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religião prática. No artigo tem algo como “mas certas pessoas têm problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARRÁ! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL ESTÁ ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabeça de Rorschach. No caso da pseudociência ela precisa não ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detectável por qualquer instrumento que não minha própria fé e precisa ser algo que não me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que é certo é a moeda que eu “sei” que é verdadeira. Como a outra não se enquadra nas categorias arbitrárias pré-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circulação moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modificações em suas características físicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na prática, as modificações na moeda de R$0,50 – de disco prateado – e na de R$1,00 – de núcleo prateado e anel dourado – são pouco significativas. Além de apresentarem pequenas alterações de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. Já os desenhos de ambas não sofreram nenhuma modificação.

E, saca só!, nem cuproníquel e nem alpaca (liga de cobre, níquel e zinco) são ferromagnéticos e, como tal, não são atraídos por ímãs. São também ligas mais maleáveis que aço, ficando mais propensas a riscos e pequenas deformações. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, são ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na República ou pé-de-galinha no Barão de Rio Branco é prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil é um país vagabundo e vira-lata, que acha que é primeiro mundo e cunha moedas de cuproníquel/alpaca mas não tem sequer condições de recolher moedas que já circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cuproníquel/alpaca depois de apenas três anos porque eles são caros demais e o custo não é compensado pelo valor irrisório da face. [3]

Mas o Brasil é um país rico! E auto-hemoterapia cura câncer! E shiatsu tem comprovação científica! E homeopatia não é só água e açúcar! E o PT é diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” são apenas aço-inox pintado. Cobre (matéria-prima do bronze, do cuproníquel e da alpaca) é caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes públicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher capôs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso – talvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensação de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da população que nunca leu uma só linha de Sir Doyle e não sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por aí acusando alguém de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mistérios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

1 Macaco e Meio, um filme com Luisa Mell sobre a invasão do Instituto Royal que ninguém quer ver

O portal G1 fez uma matéria entrevistando Mayana Zatz, geneticista de renome (termo relativo, mas…) e sua meio-prima Marina Zatz, ativista ambiental que invadiu (nada de relativo aqui, invasão é crime, vide artigo 202 do Código Penal) o Instituto Royal e que prefere o codinome “Luisa Mell” ao seu nome real.

A “ativista” (que não será chamada de terrorista aqui porque ainda não definimos legalmente o termo) aparenta ser também malabarista de ideias, se utilizando do expediente já tão conhecido dos pseudocientistas (homeopatas, auto-hemoterapeutas e outros xamãs) de contar apenas a verdade que lhe convém completando os buracos com informações falsas e mentiras esteticamente bonitinhas.

(Recomendo que leiam a matéria já linkada lá em cima. Assim minhas citações do que Marina diz, entre aspas e italizadas, farão mais sentido.)

A primeira parte da pergunta sobre a possibilidade da extinção de testes em animais é respondida com “[é] possível e é necessário” enquanto a segunda parte, sobre quais seriam as alternativas, jamais é sequer lembrada. Marina não quer alternativas, apenas o fim do status quo. Desde que os avanços científicos que permitem que ela faça luzes nos cabelos e use batom e base matificante não sumam, obviamente.

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Marina Zatz (você deve preferir “Luisa Mell” mas, em não concordar com o uso de animais para o benefício da humanidade, não acho justo usar o “mel” do seu nome), se você sabe com tanta propriedade como é possível, por que não mostra a alternativa? Se é tão necessário, por que o maior poder do universo (a Economia) continua tolerando e preferindo tais métodos? Talvez você não saiba ou prefira esquecer que um dia soube, mas testes em animais são a etapa mais cara de uma pesquisa antes de chegar nos humanos. Se “testes científicos em animais não são um sistema de teste robusto” e existe alternativa (e “vasta literatura a respeito” – mais sobre isso daqui a pouco), por que a Big Pharma, que adora sarrabuiar em dinheiro, continua desperdiçando notas altíssimas fazendo testes em animais?

Você afirma que a “indústria farmacêutica tem mais fracassos (…) do que sucessos” e que “nove em dez drogas experimentais falham em estudos clínicos (…) com base em estudos laboratoriais e animais“. Se testes em animais erram a previsão 90% das vezes como você diz, qual outro método tem um grau de acerto melhor? Você inclui estudos laboratoriais. Você quer que deixemos de usar animais E deixemos de usar laboratórios também? Como vamos testar eficácia e segurança então? Em pedras ao ar livre? Porque pela sua própria admissão os animais que “[p]ossuem características relacionadas evolutivamente” a nós já não servem e, mais para frente, diz que humanos também não podem ser envolvidos, como vamos criar compostos para salvar mais vidas? Vidas até desses mesmos animais que você quer ver saudáveis e saltitantes fora dos laboratórios.

Você diz ainda que esses erros “não são revelados por motivo óbvio: mercado“. Se eles não são revelados… como você sabe deles? E o que o mercado tem a ganhar com uma taxa absurda de erros dessa?

Voltando ao seu uso de “vasta literatura a respeito“. Onde você encontrou essa vasta literatura? Na Vogue ou na Marie Claire? Porque se você descobriu essa mina de informação em periódicos científicos, no momento em que você diz que “Cientistas partem do pressuposto errôneo” você está criando um paradoxo onde você, ao mesmo tempo, acredita no que os cientistas escrevem na literatura E sabe, com uma propriedade ímpar que seu curso de direito a conferiu, que eles estão errados.

Mas não, o que está acontecendo aqui é que você prefere acreditar na informação que mais lhe seja confortável. Isso tem vários nomes; viés de confirmação, seleção discriminatória, falácia do atirador e etc, mas todos se resumem apenas a desonestidade intelectual. Você desacredita completamente na ciência e faz questão de tentar sujar o nome dos cientistas mas usa tanto dados científicos quanto o bom nome de qualquer cientista que você acha que concordam com seu ponto de vista enviesado. Só isso.

Ou você sabe que está errada e está sendo vilmente desonesta, ou não sabe que está esfericamente errada e está sendo hiperesfericamente ignorante.

Vários médicos e cientistas americanos já são contrários a experimentos com animais, não pela ética, mas sim por isso atrapalhar a ciência!“. E por que você acredita logo nessa minoria? Porque cita apenas um “ex-secretário de Serviços Humanos e de Saúde dos EUA” e não as dezenas de outros? O que esses poucos equivocados (não sei porque você incluiu médicos ali, sinceramente) têm de tão especial para você, fora o fato de seu equívoco ser o mesmo deles?

A segunda pergunta é meio mal feita e supõe várias coisas baseadas em achismos, mas sua resposta, Marina, é ainda pior. Você diz que não é ético usar animais para beneficiar humanos. Você só não definiu o que entende por “ética”, porque a alternativa, baseada na pergunta, pode ser resumida como “é ético não beneficiar humanos”. Você misturou humanos e demais animais no mesmo bolo e tentou sambar com palavras fortes como “instrumentalizar”, “mero meio”, “ser dotado de inteligência, consciência, projetos” (características humanas que você trouxe para o picadeiro por conta própria e está misturando cretinamente numa discussão sobre animais). E sinto informar, mas com essa linha de argumento é você que está convertendo “seres vivos complexos em mero instrumento para nossos desejos e necessidades“. Quando o “desejo” é o de melhorar a vida humana (e animal, graças a remédios e tratamentos, nunca esqueça disso) e o “instrumento” é uma prática controlada e constantemente refinada para justamente se aproximar cada vez mais desses “direitos mais básicos” pelos quais você clama, suas palavras não parecem mais tão apocalípticas assim, né?

Você finaliza sua resposta com “além de injusto, é imoral“. Muito mais imoral é deixar alguém morrer de tuberculose, muito mais injusto é alguém perder uma perna por falta de insulina. Mas isso é apenas uma opinião minha. Talvez você não concorde com a minha definição de moralidade e justiça.

A terceira pergunta (algo como “é melhor assumirmos o bem-estar animal como prioridade, em detrimento à nossa saúde”, mais ou menos) é até um tanto pior que a segunda em grau de direcionamento da resposta, mas você consegue enfiar os dois pés na boca mesmo assim.

Você, Marina, afirma que testes animais são uma metodologia equivocada (evidências?) que visam “atender uma necessidade exclusivamente humana“. Sério? Você conhece a história da ararinha-azul (que, aliás, muito ironicamente perdeu habitat para abelhas melíferas, Luisa Mell)? Especialmente o pedaço sobre a luta para a restauração da espécie? Recomendo uma leitura a respeito, textos estando disponíveis em periódicos científicos. Ah, e você sabia que seu bichinho favorito no momento, o beagle, pode sofrer uma morte horrível por causa de uma entidade conhecida por “doença do carrapato”? Você acha que o cachorro prefere o bem-estar de uma doença sanguínea natural, provocada por outro animal, ou outro estilo de bem-estar que envolve uma coleira vermelha e atóxica? Novamente, minhas definições conflituam com as suas.

Você cita “Dr. John Pippin (diretor acadêmico do Comitê de Médicos pela Medicina Responsável, nos EUA)” e completa com “[i]sso não é ciência, é bruxaria“.

Esse comitê do qual Pippin é diretor é o mesmo Physician’s Committee For Responsible Medicine (PCRM) que o Conselho Nacional Contra Fraudes na Saúde diz ser “uma associação sem fins lucrativos que alega promover uma ‘dieta ideal para a prevenção de doenças’, que diz não haver evidências de que os seres humanos tenham um requisito dietético específico para proteínas e ensina que ‘muita proteína de origem animal na dieta é prejudicial à saúde’ e que “seu líder, Neal Barnard, médico, foi identificado como consultor médico da organização radical pelos direitos dos animais, PETA, que também substancialmente financia o PCRM.”

O Conselho completa a introdução da análise com: “Na nossa visão, o PCRM é uma máquina de propaganda cujas coletivas de imprensa são teatros para disfarçar de notícia sua ideologia.” Mas tem mais nessa análise. Muito mais.

Você confia absolutamente na palavra desse comitê pelo simples fato de que sua ideologia é compartilhada com a dele. Nada além disso. Com a mesma veemência, você acusa o FDA de cometer fraude “por causa de dinheiro” enquanto suas evidências são somente as palavras que saem das bocas de pessoas de rabo preso ideológica e financeiramente com organizações radicais como a sua. Você faz parecer que o FDA financia testes em animais, o que não é verdade.

A quarta pergunta tenta comparar animais usados em pesquisa com animais criados para consumo.

Marina, sua resposta é pouco mais que um desabafo que visa deixar claro o quanto você sofre, por procuração, pelos animais, tipificado por “uma das inúmeras e terríveis formas de exploração animal“. Mais uma vez você escolhe certas definições que na sua boca parecem muito mais graves do que realmente são. Nem toda “exploração” é “terrível”, vide a produção de mel, que deixa bilhões de abelhas felizes (você atropomorfiza, então também posso) e permite a você, vegetariana, se deliciar com tomates e amêndoas. Ou você acha que tomateiros e castanhas se polinizam sozinhos? Ou acha que outros animais que não abelhas conseguem polinizar tomates e amêndoas?

Por outro lado, você também mostra como pensa por procuração através dos explorados quando diz “tão errado quanto criá-los para abate por questões tão frívolas como hábito, tradição ou conveniência“. Quem é o criador de gado que você conhece que tem um rebanho de milhares de cabeças por hábito? Onde é essa avícola que insemina milhões de perus por tradição? Qual é o agricultor que usa um boi para puxar um arado para plantar feijão por conveniência? Marina, ou você é completamente desconectada da realidade e delirante ou refinou e sintonizou seu discurso precisamente para pintar uma humanidade muito mais macabra e sombria do realmente é (logo eu tentando defender os humanos, quem diria) nos fazendo parecer monstros que matam, mutilam e torturam animais por prazer. Ou, pior, porque sim.

Você prega que animais são “criaturas biográficas que percebem o mundo à sua volta e interagem com ele” e, guess what? Nós também somos! E parte dessa interação, parte dessa biografia que nos permitiu “parar de pensar como humanos da era paleolítica” foi justamente a interação do nosso sistema digestivo com proteína de origem animal e a interação das nossas necessidades (fome e abrigo) e desejos (parar de sentir fome e frio) com a inteligência inferior de bestas maiores, mais fortes e mais peludas que nós. Nosso cérebro só serve para dar entrevistas porque nossos ancestrais paleolíticos o cultivaram com mais e melhor nutrição e mais tempo para usá-lo. Não se iluda, absolutamente nenhum item que você consome é animal free; das minhocas que limpam as raízes do alface aos jegues atropelados que viram a cola que segura as pedras dos seus anéis e brincos. E se você, através de seus atos (vide foto abaixo), aceita esse uso “natural” de animais, por que não o igualmente natural ato de consumí-los?

Imagem retirada da Wikipedia

Imagem retirada da Wikipedia

É justamente por não pensarmos paleoliticamente que usamos animais da forma como usamos, ao invés de correr atrás de rebanhos em direção a penhascos.

A última pergunta da matéria é sobre um suposto acordo para acabar com o uso de animais em pesquisas e seu prazo de cumprimento.

Quase sensatamente, Marina diz que mudanças precisam de prazos e discussões e que “[e]ssa discussão (…) deve existir“. E existe. Desde décadas atrás, especialmente entre os cientistas, que são os mais habilitados/atingidos/interessados a ter essa discussão.

Eu disse “quase” porque ela completa dizendo que a discussão deve envolver “especialistas em ética e ciência, junto à opinião imprescindível do público leigo“. Por que a opinião do “público leigo” (diferente de qual outro público?) é tão necessária e imprescindível? O que um público que, pela sua própria admissão, não sabe do que está falando teria tanto a contribuir que não desinformação, equívocos e noções destoantes da realidade, como as suas, Marina?

Motivo do título:
twitter-luisa-mell

Uma elegia a um dinossauro

Para os que talvez ainda não saibam, sinto informar que Carlos Hotta, do Brontossauros em meu Jardim se foi.

Não sei exatamente por onde começar, então começarei do começo e deixarei o fluxo de consciência tomar conta (e se parecer que estou fazendo piada, estou mesmo. É assim que lido com as coisas no dia a dia).

Até abril de 2008, parte da minha rotina consistia em responder/corrigir (com informações, na medida do possível, corretas) a correntes de email e, aproveitando a imensa quantidade de endereços que vinham atrelados a tais mensagens, espalhar algumas gotinhas de conhecimento da Natureza e apreciação da Ciência.

Quando vi uma imensa quantidade de emails retornando, percebi que estava sendo, na maior parte, mandado para a caixa de spam dos outros a quem tentava convencer de que o mundo é fascinante e que tomate não dá nem cura câncer.

Então, um dia após o meu aniversário, aproveitei alguns textos que já havia escrito (e mandado por email para pessoas mal agradecidas) e resolvi iniciar um blog (ou “blogue”, como eu pedantemente chamava, até perceber que não faz diferença) que, à época, se chamava “Não Acredite no que Eu Digo, Pois Minto Tanto Quanto Você” e que, por motivos óbvios, rapidamente foi mudado para “42”, ainda sem o ponto final que adorna o cabeçalho deste.

Pouco mais de um mês e meio depois, um mundo completamente novo apareceu diante dos meus olhos: blogs especializados em ciência (o meu era do que quer que estivesse na minha cabeça no momento em que sentava para escrever) e, principalmente, em português (pois já conhecia alguns em inglês). Por ocasião de um comentário, conheci em poucos minutos Atila Iamarino, Rafael Soares e Carlos Hotta.

Mais ou menos um mês depois, sozinho e carente, escrevo um texto especificando nos mínimos detalhes o tipo de mulher com quem desejo passar meus dias (e que demoraria ainda dois anos e meio para finalmente conseguir), finalizando com “se você se identificou com o texto, me procure”.

O primeiro comentário, poucos minutos após a publicação do post foi esse aí:

Carlos Hotta

Sem saber muito bem como reagir nem para que lado a interação penderia, mandei um email para Carlos da forma mais neutra possível. Algo como “que foi?”.

Ao responder, ele me tranquilizou e disse que me queria para um projeto que ele e Atila estariam montando e que seria um “condomínio” de blogs de ciência, chamado Lablogatórios.

Logo original do Lablogatórios

Logo original do Lablogatórios

Cinquenta dias após aquela primeira notícia, entrava no ar o portal com o melhor nome de todos os tempos até hoje e que, apenas sete meses depois, viraria o Scienceblogs Brasil.

Toda essa celeridade que não me deixa lembrar de como era ser blogueiro sem ser scienceblogueiro foi, em grande parte, por causa de Hotta.

Foi por causa dele que eu estou aqui hoje, falando para as milhares de pessoas que leem diariamente as insanidades que eu escrevo vez por outra.

Se uma mulher passou batom despreocupada por causa de um texto meu, agradeçam a Carlos.

Se alguém pesquisou por auto-hemoterapia, viu o comportamento animalesco de seus defensores e pensou duas vezes antes de abandonar um tratamento sério em busca de alternativas potencialmente arriscadas, os louros são de Carlos.

Se um médico deixou de usar seu jaleco na rua e uma infecção não piorou por causa disso, esse não-evento é devido, em parte, a Carlos.

Quando alguém conseguiu entender o motivo de espirrar sob luz forte; soube pela primeira vez que homeopatia é só água, açúcar e pensamento mágico; descobriu que a chamada “medicina ortomolecular” só cura a falta de pedras nos rins; se divertiu com meus enigmas ou aprendeu o conceito de “napalm caseiro”, parte de tudo isso foi graças à falta de tato de Carlos Hotta em me abordar num momento constrangedor.

Foi também por causa de sua influência que conheci outros seres, com os quais interajo quase diariamente, que foram e são muito importantes em minha formação intelectual e identidade pessoal, como Karl, que me ensinou que eu posso, ao mesmo tempo, estar correto mas ainda errado; Fafá, que se tornou meu amigo, ocasional hospedeiro e acessório em crimes companheiro em projetos extra-blogs; Fernanda e Bessa, que me mostraram, de pontos de vista diferentes, que um passeio pela universidade pode ser a mais fascinante jornada de conhecimento (certamente as duas pessoas que serviram de estopim para a minha saída do armário não-religioso); até mesmo Meire, a minha confidente e companheira esposa a quem eu provavelmente não teria conhecido caso não tivesse ainda a auto-bibliografia atrelada e on-line do 42. e que se encaixou como uma luva feita sob medida e com talco no texto tão rudemente epilogado por Hotta.

(Atila também é responsável por muito disso, mas como ele ainda está aqui não preciso falar bem dele. E Kentaro também é um que pertence à lista acima, mas eu já o conhecia antes, então não conta. Outros também deveriam aparecer, mas FOCO!)

Também ainda por causa dele, em uma reunião onde decidimos os rumos do condomínio, realizei um sonho e criei meu próprio podcast (que não durou o suficiente, mas isso é culpa minha).

Até um restaurante japonês excelente em São Paulo (quem diria que eles existissem…) me foi apresentado por ele.

Um jeito tranquilo de falar (com um leve problema nos fonemas PR e FR) mas sempre com algo relevante a dizer, com uma genialidade do tipo que sabe o que importa e sabe que chamar atenção para o fato é uma das que não importam e com uma maturidade psicológica muito além dos seus 45 anos (eu acho que nascemos no mesmo ano, mas ele adquiriu tantas realizações ao longo da vida que trinta e poucos anos não seria tempo suficiente para um ser que vive na mesma velocidade dos outros).

Semana passada eu gravei uma entrevista com ele – talvez sua última. Quarta-feira que vem ela sairá na página do Dispersando e por lá deverá ficar até que as circunstâncias permitam, nos fazendo lembrar como ele foi um dia; tranquilo e sábio.

Este texto é dedicado (caso não tenha ficado extremamente óbvio ainda) a Carlos Hotta.

Sentirei, além de imensa e eterna gratidão, enormes saudades.

———

Antes que alguém se confunda com alguma coisa, Carlos Hotta não morreu. Apenas seu blog deixou o Scienceblogs.

Onze onzes de 2011, uma retrospectiva

Já que ano passado não teve poeminha e 11 é um número muito mais redondo que 10, aqui vão onze listas de onze coisas que aconteceram no ano 11 do Calendário Apocalíptico.

Os onze textos mais visitados:

1 – Participe da campanha “Seja um Médico Limpinho” (LINK);

2 – Cura do câncer – ascensão e queda de um mito (LINK);

3 – Homeopatia, coitadinha, não tem vez porque a “Indústria Farmacêutica”, que se preocupa apenas com dinheiro, não deixa! (LINK);

4 – Batons com chumbo (LINK);

5 – Camarões, arsênio e vitamina C, uma estória (falsa) de amor (LINK);

6 – Avião de papel (LINK) (minha primeira publicação com um “scienceblogs” antes do meu “uoleo”);

7 – Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades (LINK);

8 – Cuspir ou engolir?(LINK);

9 – Carnaval Proibido (LINK);

10 – Este blogue é a favor do aborto (LINK);

11 – Auto-Hemoterapia e a medicina da Idade Média de mãos dadas (LINK). [1]

Agora, para o tráfego “social”.

Os onze artigos mais lidos via Facebook:

Participe da campanha “Seja um Médico Limpinho”;

666, o mais besta dos números (LINK);

Ferro, Lítio, Zinco, Astato e Alumínio para todos! (LINK) (minha entrada mais roubada do ano, o que se torna algo ainda mais impressionante visto que foi publicada seis dias antes de 2011 acabar);

Este blogue é a favor do aborto;

Para cada escravo que você financiar, eu vou comprar três cintos de couro (LINK);

A latrina dos deuses (ou, a cólonização do espaço) (LINK)

Homeopatia, coitadinha, não tem vez porque a “Indústria Farmacêutica”, que se preocupa apenas com dinheiro, não deixa!;

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades;

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue (LINK);

Resenha – Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas (LINK);

UTILIDADE PÚBLICA – Cuidado com os ESPELHOS, ops, SPAMS! (LINK) (a dois dias do fim do ano! Valeu, Facebook!).

Artigos mais lidos via feed (volta GReader!)

Participe da campanha “Seja um Médico Limpinho”;

666, o mais besta dos números;

Homeopatia, coitadinha, não tem vez porque a “Indústria Farmacêutica”, que se preocupa apenas com dinheiro, não deixa!;

Para cada escravo que você financiar, eu vou comprar três cintos de couro;

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar) (LINK);

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23 (LINK);

A mais nerd das piadas (LINK);

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades;

Ferro, Lítio, Zinco, Astato e Alumínio para todos!;

“Bebida amarga torna as pessoas mais críticas, mostra estudo” <= Não, não mostra. (LINK);

Pedofilia nem sempre é crime (LINK).

Artigos mais lidos via Twitter: [2]

Homeopatia, coitadinha, não tem vez porque a “Indústria Farmacêutica”, que se preocupa apenas com dinheiro, não deixa!;

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades;

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue;

Pedofilia nem sempre é crime;

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23;

Desafio #ten23 – overdose homeopática: vídeo-diário (LINK);

666, o mais besta dos números;

Desafio #ten23 – overdose homeopática. Ou, ‘o dia em que eu não morri’ (LINK);

Douglas Adams: frases aleatórias (LINK) (“A lojinha do hotel só tinha dois livros bons, ambos escritos por mim.“);

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar);

A mais nerd das piadas;

Agora, mudando um pouquinho a abordagem, alguns termos de busca que, de uma forma ou de outra, dão aqui no 42.

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Google, ipsis litteris:

1 – 42;

2 – josé alexandre barbuto;

3 – carnaval proibido;

4 – cura do câncer;

5 – batom com chumbo;

6 – candiru;

7 – douglas adams frases;

8 – avião de papel;

9 – pavesio advogados associados;

10 – a favor do aborto;

11 – vidente tara.

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Bing:

1 – carnaval proibido;

2 – horas iguais;

3 – josé alexandre barbuto;

4 – 42;

5 – aviao de papel;

6 – receita de sorvete;

7 – carnavalproibido;

8 – horas diferentes;

9 – avião de papel;

10 – batons com chumbo;

11 – www.carnavalproibido.com.br (sério, isso leva ao 42. através do Bing).

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Yahoo: [3]

1 – josé alexandre barbuto;

2 – carnaval proibido;

3 – carnaval proibido 2010;

4 – jornal do carnaval proibido;

5 – camarão e vitamina c;

6 – amish;

7 – engolir ou cuspir;

8 – horas iguais;

9 – 42;

10 – alergia a luz (texto que propiciou minha primeira entrevista à Folha de São Paulo, bitches!);

11 – chumbo nos batons da natura?

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Ask (por que não? Povo ainda usa Yahoo…): [4]

1 – receita de sorvete;

2 – carnaval proibido;

3 – doença toxoplasmose;

4 – josé alexandre barbuto;

5 – medidas de tijolo <= Não tem link porque eu não faço ideia do que se trata. Mas um de oito furos mede 9 por 18 por 18;

6 – mega da virada 2009;

7 – receita de sorvete de massa;

8 – receita sorvete de creme;

9 – banda cheiro verde;

10 – doença de toxoplasmose;

11 – horoscopo 2010.

As onze maneiras mais usadas para questionar a Internet sobre o número 42 que o Google interpreta como sendo da minha alçada:

+42!

42=

42,

42]

#42

“42.”

42 ?

:42:.

42:)

42 ????????????????/

47

Onze frases aleatórias acerca do 42:

42 binário

define: 42

teoria do 42

42 com bolhas

42 mandamentos

42 o que significa ?

42 o que é? nerd

42.: a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

420 coisas para se fazer chapado

42 = 666

41 science blogs

E, finalmente, os onze termos mais estranhos usados para se chegar ao 42. (comentado):

11 – como tirar cheiro de suvaco da roupa <= Tome banho antes de se vestir?

10 – frases sobre sustentabilidade na moda <= Este aqui está a prestes de ter uma excelente surpresa.

9 – catarro que não acaba <= Ê fartura!

8 – curar vomito de bebida <= Aí depende. Se for o vinho que estiver vomitando, coloque a rolha de volta. Se for cerveja em lata, acho que um copo é a melhor solução. Se for o champanhe, então é ano novo, divirta-se.

7 – filme idiota 2010 congelado passa a ser o mais inteligente <= O congelado passa a ser o mais inteligente? É um filme sobre criacionistas?

6 – prefiro+ficar+chapado+sozinho <= Excelente. Quanto menos me envolver nisso, melhor.

5 – como é o nome do francês que descobriu a cura da cancar <= François Charlataun

4 – oops! url está incompleta ou url desconhecida !!! <= Sem brincadeira.

3 – como parar de falar cuspindo <= Tomara que seja um colega meu, tomara que seja um colega meu, tomara que seja um colega meu. E tomara que ele aprenda.

2 – como tirar o cheiro do nabo <= Mais alguém leu errado? o/

1 – igor hikari domine sol <= Um dos melhores comentários até hoje no meu blogue. O que me faz lembrar de uma décima segunda categoria, em homenagem a 2012:

Os melhores comentários do ano.

11 – mew axo q eh 6 o numiro do crabuno pq 20 eh numiro d calsio e 5 eh do boro .. ta td na orde alfabeteca mais vrado .. vc coloco os numiro ao crontrario p comprica vey .. mais eu tava prestanu atensao na aula la pq a bateria d meu ifone cabo ea tia num deixo enxe ela .. sacanage ne ? <= É. Tia má. (LINK)

10 – caro colega! vejo que vc conhece bem de homeopatia,mas por que tanta raiva, ela-le encomada? oque não “existe” não deveria preocupa-lo? #certo#!,então use seu tempo para fazer ciência ética e não ficar com possionamento cético irrelutável e sensacionalista,além de tudo glosseiro,há tava me esquecendo eu concordo com o felipe, e vc foi muito mal educado com ele#feio#!para um culto? <= Tem como não amar? (LINK)

9 – Calnes de cerdo o porco saõ rexeitadas por ignorância relixiosa. Como existem muixos médicos Xudeus… <= Não sabia que Xuxa era judia. (LINK)

8 – Vocês sabem que, nos Estados Unidos onde o cuidado com medicamentos é muito maior que no Brasil, mais de 100.000 pessoas por ano morrem apenas devido à IATROGENIA? (…) Que vocês sabem para falar mal da homeopatia? Sabem o que é cancer metastático? <= Portanto, homeopatia é real. Adoro gente assim. (LINK)

7 – Assim como você, muita gente incentiva o preconceito sobre a Homeopatia, e por isso as revistas científicas não saem publicando muito sobre os avanços na área homeopática. Dessa forma, quando publicam, escolhem pesquisas que não incluem a palavra HOMEOPATIA em seu título. <= Porque a melhor forma de publicar um artigo é escondendo as palavras-chave. Homeopatia mexe em alguma coisa no centro da ingenuidade do cérebro das pessoas, eu acho. (LINK)

6 – A homeopatia possui um princípio ativo que não é enxergável. (…) Para a homeopatia fazer efeito, o paciente deve ter sua sintonia alinhada com as energias que a homeopatia oferece. (…) Se vc não crê em homeopatia, ela não fará efeito em você. Se você crê na homeopatia, MUITO PROVAVELMENTE ela fará efeito em você, isto não significa que você deva abandonar outros métodos medicinais. A evolução da humanidade depende de pessoas como você, com seu blog, para que avancemos. Caso contrário, aprenderemos por dor e não por Amor. <= Uma das provas da minha hipótese de que homeopatia é só mais uma forma de religião. (LINK)

5 – homeopatia pode ser usada na eliminaçao de pragas numa plantaçao. utiliza-se o inseto da praga para para criar uma soluçao venenosa para o proprio inseto <= Já pensou se alguém morre no mar? A tragédia que isso causaria para todas as populações costeiras ao redor do globo? (LINK)

4 – a homeopatia em si não tem como provar e tão cedo irá, pois a homeopatia é energia do elemento condensado <= Sem comentários. Vou deixar vocês se deliciarem com a frase. (LINK)

3 – O que acontece é que a homeopatia é uma releitura da industria farmacêutica à luz do pragmatismo. <= É como se essas palavras tivessem sido contempladas em algum sorteio e colocadas nessa ordem por cara-ou-coroa. (LINK)

2 – Muuiittoo!consagro o Daime a dois anos e declaro que nunca senti meu raciocínio tão lúcido e esclarecido como sinto hoje!Compreendi grande segnificado da palavra amor e me livrei de um vício de 20 anos(maconha) (…) Prefiro dizer que esse chá sagrado ,que para nós é a manifestação do ser divino ,é “iluminógeno” <= Reiterando: "nunca senti meu raciocínio tão lúcido e esclarecido como sinto hoje" (LINK);

E, o melhor de todos, do meu colega João Carlos, quando eu disse que homeopatia era "macumba disfarçada de medicina":

1 – Ei!… Mais respeito com a macumba, pô! (LINK)

A maior quantidade de abuso recebido em 2011, ironicamente, empatou entre homeopatas e os médicos (dos que gostam de desfilar de jaleco pelas ruas).

E que venham mais 2012 abusos!

Minha cara de preocupação.

———

[1]Os auto-hemoterapeutas quase não entraram na lista.

Mas calma, amiguinhos! Considerando que aquele é um texto escrito em 2009, vocês ainda chamam minha atenção! Não chorem!

[2]Parabéns ao Twitter pela sua luta constante contra o engodo da indústria da homeopatia, ou Big Homeo, através da campanha #ten23 (aguardem novidades nesta frente).

[3]Pessoal que ainda usa o Yahoo é meio, digamos assim, excitado, né? Mas eu acho bom que a maioria das buscas seja por “carnaval proibido” e que os visitantes se deparem com um exercício em raciocínio crítico.

[4]Já os que acham por bem usar o Ask, ao meu ver, formam a parcela mais aleatória da sociedade. Banda cheiro verde? Sério que isso existe?

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar)

AHT - quadrado auto-hemoterapia
AHT - retangulo auto-hemoterapia
AHT - losango auto-hemoterapia
AHT - trapezio auto-hemoterapia
AHT - controle placebo randomizado auto-hemoterapia
AHT - estudo sem controle auto-hemoterapia
AHT - estudo sem placebo auto-hemoterapia
AHT - evidencia anedotica auto-hemoterapia
AHT ilustrada auto-hemoterapia

“Bebida amarga torna as pessoas mais críticas, mostra estudo” <= Não, não mostra.

Numa “matéria” (aspas irônicas) sobre um “estudo” (elas aqui novamente), a Folha.com dá uma aula de como jornalismo é feito atualmente: ctrl+c -> Google Translate -> ctrl+v.

Sem sequer a menor das críticas, o tradutor da Folha fez exatamente o que sua função exige, que é traduzir coisas. Pronto.

Com a diferença de que não se deu ao trabalho de incluir nem o nome do chefe do trabalho (Kendall Eskine) nem o nome da universidade que produziu tal primor de pesquisa (visto que “City University of New York” não é o mesmo que “Universidade da Cidade de Nova York”, a não ser que o jornal também traduza Cambridge e Oxford como “as universidades da Ponte de Came e Vau do Boi“).

A matéria foi capa do caderno Ciência e, como tal, deveria ter sido tratado com pelo menos uma nesguinha de ceticismo. Mas não, é bem mais fácil traduzir o que a New Scientist (adeus, qualidade) diz e deixar por isso mesmo.
Capa do caderno de ciência da Folha.com

A primeira linha já reforça o título, com: “O gosto amargo de uma bebida pode alterar o julgamento moral, fazendo com que as pessoas se tornem mais críticas.

É? E quem disse?

Aí vem a primeira bomba: “Esse é o resultado de uma pesquisa realizada com 57 voluntários (…)”

Cinquenta e sete voluntários? Que amostra imensa!

AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

Já pode morrer?

Minha frase favorita do artigo: “(…) o grupo teve que analisar cenas como a de um homem comendo um cachorro morto (…)”. <= WTF!?

Mas não, não era necrozoofilia. Era apenas um lanche mesmo.

Só não sei se isso melhora ou piora o ocorrido.

A tradução continua peba e a necessidade de destruição não se mostra instantânea, até que chegamos no “curioso” dado que “surgiu” e que “mostrou que os partidários conservadores são mais afetados pelo gosto amargo, e consequentemente suas críticas, do que os liberais.

É. Foi. Porque conservadores são naturalmente menos críticos que os liberais, não é?

NÃO! NÃO É!

E morrer agora, já pode?

Confundir causa e efeito é coisa de auto-hemoterapeuta. Esse tipo de falácia não deveria ter vez numa publicação que se propõe a divulgar Ciências.

Agora, meus amigos (porque em momentos de desespero, todos se tornam amigos), preparem-se para a maior conjectura já presumida numa matéria (notem a presença das Aspas Triplas do Repúdio) “””científica“””: “Embora o mecanismo entre paladar e comportamento não seja totalmente claro (…)”.

Não seja totalmente claro? Não seja totalmente claro?? E essa ████ existe??

Acho mais produtivo primeiro demonstrar que o mecanismo existe antes de insinuar a suposição de que já é um fenômeno bem estabelecido. É como dizer “embora o mecanismo entre florais de Bach e peidos de unicórnios não seja totalmente claro…”

Mas calma, ainda tem um restinho pegajoso no fundo desse copo marrom de Danone azedo das trevas. Vamos raspar com a colher (sic, sic, mil vezes sic).

[O]s pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova York (EUA) que desenvolveram o estudo se perguntam se um júri deveria evitar o consumo de líquidos amargos antes de um julgamento ou se a preferência de determinados alimentos influenciam nos ideias políticos dos indivíduos.

Não tenho resquício homeopático de dúvida de que pesquisadores desse calibre realmente se perguntem coisas desse tipo.

Me lembra Homer Simpson, em referência a donuts, se perguntando se há algo que elas não consigam fazer.

Folha, por favor, melhore.

A veia da minha testa agradece.
veia da testa

Parem o mundo que eu quero vomitar! Nele, preferencialmente.

Eu desisto.

Foi complicado no começo mas agora parece bastante simples. É impossível competir com ignorância gerada por desinformação gerada por pânico gerada por ignorância, todas de mãos dadas numa cadeia infinita de estupidez quadrática.

“Pérolas aos porcos” não é uma analogia apropriada. Os porcos podem até fazer alguma coisa com elas, nem que seja fuçá-las para o lado de modo que não se misturem com sua comida.

A sensação que eu tenho é de jogar pérolas embaixo da máquina de lavar roupa onde permanecerão para sempre num limbo inalcançável.

Quantos de vocês leram o que Carlos escreveu e passaram a mensagem adiante?

Agora, quantas das pessoas que receberam a mensagem fizeram o mesmo?

Porque eu mandei para todo mundo que costuma trocar email comigo e tenho certeza de que meu esforço morreu neles.

Levei até esculhambação por usar dados e evidências em meus esforços e por ter “mudado de opinião”, indo de “defensor de que a doença não era lá essas coisas todas” para “defensor da vacinação”. Porque essas duas afirmações são mutuamente excludentes, né?

Logo em seguida, no entanto, recebo já de terceira ou quarta mão um email com tantas cores e mudanças tão bruscas de tipo e tamanho de fontes que foi difícil ler até o fim sem ficar com dor de cabeça.

Esse email ridículo é tão mal escrito e cheio de erros que fica difícil corrigí-lo da mesma forma que é difícil contar todos os grãos de arroz num saco. É possível, mas é uma tarefa tão monstruosa que se torna previamente opressiva.

Um dos pontos levantados na mensagem é que mercúrio é tóxico e vacina tem mercúrio.

Botulismo também é tóxico e nem por isso milhões de pessoas ao redor do mundo deixam de injetá-lo frequentemente no rosto. Basta vir sob a alcunha de “Botox”.

Ferro é atraído por campos magnéticos e temos ferro no sangue. Por que operadores de eletroímãs não têm seu sangue esguichado de seus corpos durante a realização de seus serviços?

Porque substâncias existem em formas variadas na natureza. Ferro pode ser férrico ou ferroso. Um ajuda a transportar oxigênio para o cérebro de algumas pessoas enquanto o outro serve para fazer agulhas que são atraídas pelo campo magnético terrestre.

O mercúrio da vacina não o mesmo mercúrio dos termômetros de outrora, mas uma forma orgânica do negócio.

Tão segura para consumo humano que era usado em mertiolate. Disso ninguém lembra, né?

O email continua dizendo que a vacinação é uma forma do governo matar milhares de pessoas para tomar o controle.

Porque o governo já não tem o controle, né?

E menos pessoas é bem melhor para o governo, né?

Diz lá também que a doença foi criada em laboratório e que “a gripe “apareceu” no México” (sic).

Porque esta é a primeira vez que temos H1N1 no mundo, né?

Eu poderia fazer uma análise detalhada, ponto a ponto, do spam que recebi, mas eu não me importo mais.

Não sou mais adolescente, já percebi que não vou conseguir mudar o mundo.

Se estiver sendo injusto com alguém, peço desculpas.

Mas minha experiência justifica minhas palavras. O botão de foward rapidamente se torna difícil de apertar nesses casos…

Próxima vez eu coloco cores mais variadas e pontuação e gramática incorretas.

No começo da semana eu recebi um outro email de um rapaz que, se o ditado “clareza na escrita denota clareza de pensamento” for válido, é bem inteligente e capaz. Infelizmente ele está muito mal (possivelmente tendo sido erroneamente diagnosticado com uma doença fictícia) e a sensação de impotência pode ter feito com ele acreditasse em algo que não acreditaria em condições normais.

Ele me disse que pratica auto-hemoterapia e citou em favor da técnica alguns argumentos quebradiços dos crentes mais inflamados como “a Indústria Farmacêutica impede que a eficácia do tratamento seja testada” ou “é mais barato comprar agulha que comprar remédio”.

Mas eu digo mais nada. Se funcionar para ele, viva! Se não, o destino do sujeito não é da minha conta mesmo, então por que eu me importaria?

Não cabe a mim julgar (como me foi posto claramente em uma discussão recente) pois eu realmente sei muito pouco das coisas, mas, vendo daqui, o mundo não merece ser salvo.

E, se não fosse esse o caso, não seria salvo por mim de todo jeito. Então meu argumento morre logo na premissa.

Agora, eu vou ficar ali, estudando maneiras inovadoras de fazer coisas antiquadas, como usar o YouTube para assistir a vídeos filmados de uma TV ligada a um vídeo cassete reproduzindo uma fita produzida pela Editora Bloch em 1976.

Até.

P.S. Muito provavelmente este artigo está recheado de informações imprecisas e erros gramaticais, mas não se importem em corrigir. Eu não me importo mais.

Minhas previsões para 2010

Eu sofro de apneia do sono tão intensa que tenho episódios até quando estou acordado. Sempre que isso acontece enquanto estou na rua, eu desmaio um pouquinho, ainda em pé, e tenho visões do futuro.
Hoje eu resolvi transcrever minhas previsões alucinatórias movidas a roncos e engasgos separando-as por assuntos.
Sem mais delongas, aqui estão as coisas que eu sei que vão acontecer em 2010 EC:
Mortes
Começando pelo tópico favorito de todos (não se enganem, todo mundo sabe o quão mórbidos vocês são), as pessoas que vão morrer em 2010 são:
Hugh Hefner (em setembro), Stephen Hawking (até maio), Stephen King (no dia seguinte), James Randi (dia 31 de dezembro, 23:56 GMT), Faustão (meu álibi já está sendo preparado, não se preocupem) e um atleta internacionalmente famoso (o único esportista que eu conheço por nome é Pelé, mas como ele só vai morrer em 2013 vou ficar devendo, mas quando a pessoa em questão bater as botas vocês vão lembrar da minha previsão e preencher essa lacuna).
Milhares de pessoas vão matar outras milhares em uma ou mais guerras motivadas por assuntos de suma importância, como qual entidade fictícia deve ser temida com mais força.
Ou ordens. Porque seguir ordens cegamente é a base da democracia.
Um blogueiro famoso (na blogosfera, não na vida real) vai sofrer um acidente grave e correr risco de morte. Após um tempo de recuperação, passará a correr risco de vida.
Eric Drexler vai morrer num bizarro acidente envolvendo gosma cinzenta (enquanto preparava uma massa para empanar e fritar camarões, misturando, displicentemente, farinha com fermento vencida, bicarbonato de sódio e cerveja ao lado de uma auto-clave) e Charles de Windsor vai dizer “não disse?”.
Falando nisso, em 2010, na categoria Tecnologia:
Células-solares e microprocessadores vão ficar mais eficientes, mas não muito. Uns mais, outros menos.
Um novo tipo de malha vai surgir da mescla de duas tecnologias têxteis com a promessa de manter o usuário seco e limpo por mais tempo. Trolls de Internet vão aplaudir a vinda das novas fraldas geriátricas com capacidade extra.
Um inventor no hemisfério norte criará um método para se fazer papel com fuligem e cinzas de cigarro, mas não terá como patentear sua invenção devido à falta de dinheiro causada pelo caríssimo tratamento contra câncer de garganta que já o acomete mas do qual ele ainda é ignorante.
Sua esposa eventualmente irá casar com um especulador da bolsa que achará os planos e os venderá para a Faber Castell, que os perderá num treinamento de evacuação de emergência.
Um cachorro de duas cabeças será clonado. Só não se sabe a partir de que outro bicho.
Já na categoria Ciências:
A Nature vai publicar um artigo (que será capa) controverso que será contestado e desprovado ainda em 2010.
Sobre células-tronco.
A Science vai evitar dar a capa e depois da refutação vai dizer que “já sabia”.
Uma nova espécia de inseto vai ser descoberta e vinte e sete vão desaparecer para sempre, incluindo aquela que acabou de se descoberta.
O mesmo acontecerá com aves, mas não tenho os números aqui comigo.
Venenos mais eficientes serão produzidos para exterminar coelhos, esquilos, toupeiras, cobras, corvos, ratos e outras pragas em plantações, antes que eles tenham chance de entrar nos campos, acabando de uma vez por todas com aquele gosto de sangue que acompanha a colheita de hortaliças vendidas como “orgânicas” da qual vegetarianos têm tanto orgulho pois não estão matando animais para servir de alimento quando comem suas cenouras caríssimas.
O termo “orgânico” vai perder todo e qualquer sentido por simples mal uso.
Uma nova constante física será proposta ainda no primeiro bimestre, mas será refutada até o fim do ano, tendo em vista que “zero” já é um nome razoavelmente bem estabelecido e vastamente conhecido internacionalmente e mudar seu nome para Constante de Keppe somente confundiria as coisas.
Falando em Keppe, entramos na última categoria deste texto, Misticismo:
Alguém vai lembrar de você no dia do seu aniversário e isso fará toda a diferença na vida de outrem.
Uma tia sua vai dizer que estava pensando em Faustão na hora em que ele morreu e que isso nada mais pode significar senão que ela prevê o futuro, o que apenas confirmará meus próprios poderes de clarividência, aqui expostos.
Eu vou continuar recebendo emails de pessoas inocentes que foram enganadas e acreditam que auto-hemoterapia serve para algo mais que causar dor ao furar dois pontos do corpo com apenas uma agulha (e cujo melhor argumento de eficácia que me foi apresentado até agora é a frase “também usam nos EUA“).
E emails de crentes anticiências demonstrando como eu sou ingênuo por não acreditar que meu próprio sangue é a cura para todas as doenças que eu virei a ter, porque eu vou precisar desse tratamento milagroso depois que eles me pegarem, porque além de defender uma terapia inútil essas pessoas também gostam de ameaçar a minha saúde.
Um conhecido seu vai contar uma estória comovente sobre como um sujeito qualquer que ele conhece é sensitivo e, do nada, ligou para uma amiga (cujo pai tinha acabado de morrer, cujo filho ia mal na escola, cuja mãe estava doente, cujo carro havia sido roubado na manhã anterior) exatamente no momento em que ela estava triste e como isso prova o quão sensitivo ele é.
Charlatões sem escrúpulos continuarão se aproveitando de pessoas sem instrução e processando por calúnia qualquer um que ouse apresentá-los como os enganadores que eles são, pois apesar de certas coisas serem claras e aparentes, a lei exige documentos por escrito. Menos quando estes são emails me ameaçando.
Algum imbecil que apareceu na TV dizendo mais ou menos as mesmas coisas que eu disse aqui vai voltar para mostrar como estava certo quanto ao atleta morto.
E esquecer que esteve errado por toda sua vida até então.
Cartomantes e adivinhos continuarão cobrando caríssimo por “leituras” com resultados bastante específicos como “eu vejo um rapaz moreno na sua vida” ou “uma chave tem importância para você“.
E eu continuarei esbravejando de graça enquanto tento dispersar um pouco de conhecimento pelos tubos internéticos.
O que eu queria mesmo que acontecesse era o fim do mundo. Mas acho que vamos ter que sofrer mais um tempinho (pelo menos mais um ano).
Essas são minhas previsões para o ciclo que inicia arbitrariamente daqui a nove dias.
Nove, eu digo!

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