“Homeopatia é remédio”

Recentemente, uma leitora (ou espectadora, mais especificamente) do 42. me convenceu, via email, de que homeopatia funciona.

Vou reproduzir aqui (sic, sempre lembrando) os argumentos dela para que vocês também sejam convertidos.

[nota: eu estava de férias e, mesmo com um assunto tão chamativo que claramente (conhecendo os apologistas que se dão ao trabalho de me alcançar por correspondência eletrônica) haveria de ter sido tão bem pesquisado e argumentado, aguentei bravamente e deixei para ler o email quando voltasse ao ritmo normal de vida.]

16/05

De: Suzane [suzane.******@hotmail.com]

Assunto: Homeopatia é remédio

Achei você bobão de tudo com aqueles vídeos da homeopatia.
Pra você ver que a homeopatia funciona, quando estiver com caganeira beba o Arsenicun Albun pra ver que cura, a não que ser que esteja com algo grave no intestino.
Minha filha que bebia antibiótico todos os meses pra dor de garganta, passou 13 anos sem tomar, pois quando tinha dor de garganta usava essa fórmula; Beladona, Mercurio solb.e Barita Carb.
A homeopatia não é milagrosa, é remédio e tem que tomar com perseverança.

Os vídeos aos quais ela se refere são os da minha overdose homeopática e meu vídeo-diário de sintomas.

Abaixo, minha resposta, no início de junho:

Pois é, remédio não precisa de perseverança. Homeopatia precisa porque, no fim das contas, dor de garganta se cura sozinha enquanto você está se enganando e pondo sua filha em risco de algo mais sério acreditando em bruxaria.

E, finalmente, agora há pouco, chega em minha caixa de mensagens sua réplica inescrupulosamente impenetrável impressionantemente inteligente, idioticamente inescusável instigantemente inescrutável, intragavelmente insípida incrivelmente inspirada, imbativelmente incompreensível intrinsecamente inédita, indescritívelmente impenetrável intrigantemente imaculada e inescrupulosamente ideológica impositivamente imparcial da correspondente imberbe?:

16/06

De: Suzane [suzane.******@hotmail.com]

Assunto: Homeopatia é remédio

Igor
Tenho pena de ti!
Esses dias ainda li, um cara achando um absurdo que a homeopatia tem remédio feito de veneno de cobra.
Eu disse pra ele: Boboca que não sabe de nada, o capotril que tu bebes que não é homeopático, pra pressão alta também é feito de veneno de cobra.
Mas num país que o médicos não dão valor na alimentação, o povo tem que ser doentão da cabeça e não confiar na homeopatia.

E pronto! Bastou isso para me converter à religião prática charlatã curativa da homeopatia.
Viu? É assim que a ciência funciona. Bons argumentos, apresentados de forma clara, preferencialmente por email, provando que homeopatia funcio.., opa, o que é isso?

Mil e oitocentos estudos mais tarde, cientistas concluem (mais uma vez) que homeopatia não funciona.

De acordo com a Revista do Smithsonian:

“Talvez você lembre de quando os cientistas desbancaram a homeopatia em 2002. Ou 2010. Ou 2014. Porém, agora um grande estudo australiano, analisando mais de 1800 trabalhos mostrou que homeopatia (…) é completamente ineficaz.

“Após avaliar mais de 1800 estudos sobre homeopatia, o Conselho Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde Australiano (NHMRC) conseguiu achar apenas 225 que eram bons o suficiente para analisar. E uma revisão sistemática desses estudos revelou “nenhuma evidência de qualidade que apóie as alegações de que homeopatia é eficaz para tratamentos de problemas de saúde”.”

Aqui o link (PDF) diretamente para o estudo do NHMRC: Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions.

Hum. E agora? Em quem eu confio? Numa análise sistemática de quase dois mil trabalhos feitos por uma instituição de boa reputação envolvendo centenas de profissionais qualificados que comprova que algo física, química, farmacológica e biologicamente impossível não funciona ou na opinião semi-inteligível de uma anônima da Internet que mal sabe usar pontuação, que me acha um “bobão de tudo” e que tem pena de mim?

Hum...

Hum…

Homeopatia, evangelhoterapia, teoria da harmonia energética e eu.

Ontem eu recebi dois emails. Recebi vários, na verdade (a maioria deles sendo de pessoas que acham que meu endereço é algum tipo de âncora ou registro oficial para todo e qualquer Igor Santos), mas com algum tipo de importância foram só dois.

E quando qualifico importância como “algum tipo”, quero dizer “sem a menor importância para qualquer ser vivo”. Porque o primeiro dos aludidos veio com o assunto “Colaboração” e com o título (sim, título, pois é como se fosse uma cópia de um panfleto qualquer) “Teoria da Harmonia Energética“.

Agora vocês vão ver porque estou perdendo meu tempo com isso. O email começa (sic):

A energia é essencialmente harmônica e as formas organizadas de energia, como é o caso da matéria, que é uma organização de energia percebida por nossos sentidos, tendem a voltar a ser energia.

Em primeiro lugar, o que significa “essencialmente harmônica”? Porque são necessárias pelo menos duas coisas para existir harmonia entre elas. Da mesma forma como não pode existir nado sincronizado individual não posso afirmar que A energia é harmônica. Falta um outro agente aí. Mas vamos ignorar esse erro conceitual básico e passar para outro; “matéria é uma forma organizada de energia”.

É? E a energia é, ao mesmo tempo, harmônica e desorganizada? Mas calma! Olhem o que vem a seguir:

Esta volta à energia é estimulada por ações desarmônicas, ou seja, que contrariam a harmonia energética. Assim sendo, ações poluidoras, por exemplo, desencadeiam processos destrutivos da matéria.

Eu vou organizar as afirmações em uma só linha para facilitar a visualização. “A energia é essencialmente harmônica, a matéria é uma organização de energia e tende a voltar a ser energia estimulada por ações desarmônicas”. Ou seja, o ^jênio^ que não consegue escrever duas linhas coerentes entre si acha que a matéria volta a ser harmônica por um processo de desarmonia. É como dizer que passar com o carro por cima de um violão bem afinado faz com que ele volte a ser afinado pelo fato de ter sido destruído. Ou algo assim, esse email me deixou confuso.

No nosso organismo, ações perturbadoras da harmonia desencadeiam reações, agravadas por novas intervenções perturbadoras da harmonia inicial.

Eu adoro frases como “desencadeiam reações”. Me lembra uma pichação que vi numa mesa da faculdade onde alguém escreveu com corretivo “a molécula do átomo”. A frase acima parece dizer muita coisa mas não sobrevive à mais superficial análise, como outra frase já discutida aqui. Sério, leia lá de novo e pense a respeito.

stephen%20fry

Na sociedade humana, decisões desarmônicas como, por exemplo, concentração de recursos financeiros em determinadas pessoas, contrariam a harmonia social, que é um aspecto da harmonia energética.

Harmonia social é um aspecto da harmonia energética? Então essas ações socialmente desarmônicas são desejáveis, já que foi estabelecido que a desarmonia traz harmonia. E é harmonia que queremos, não?

Portanto, sigam o conselho do email e concentrem seus recursos financeiros em mim! Vamos atingir o máximo de harmonia possível!

A Teoria da Harmonia Energética permite o entendimento da individualidade harmônica, mesmo sem substrato físico…” Opa, peraí! Preciso interromper aqui. Qual dos dois é: energia sendo harmônica em si mesma ou indivíduos (necessariamente materiais) são harmônicos mesmo não tendo forma física? Essa deve ser mesmo uma teoria de lascar porque só seus preceitos já estão em outro plano de existência.

Continuando:

…pois ela se aplica a um conjunto organizado de princípios harmônicos, orientados para pintura, arquitetura, artesanato, invenções úteis, música, magistério, verso, prosa, e tantas outras formas de ações harmônicas que encantam nossos sentidos e melhoram a qualidade de vida. Quem age segundo a harmonia energética preservará a individualidade, não importa sob que forma esteja atuando.

Pintura, arquitetura, artesanato, música, magistério, verso e prosa, essas invenções inúteis… Sem falar do magistério, esse grande encantador dos sentidos. Não passa um só dia sem que minha propriocepção e minha percepção temporal não sejam estimuladas pelo magistério.

E, novamente, por que devemos preservar a individualidade? Ela existe? Como “a energia” pode ser harmônica sendo desarmonizada pela matéria descondensada enquanto indivíduos sem substrato físico poluentes e músicos? Hein?

No parágrafo a seguir há um destaque por minha conta. Vamos ver quem consegue perceber o motivo.

Corruptos, corruptores, maus administradores, criminosos, assassinos, mistificadores, ladrões, demagogos, parasitas e tantos outros que agridem a harmonia social, simplesmente desaparecerão com a desencarnação, pois estavam em desacordo com a harmonia energética.

Todos desaparecerão. Seja por desencarnação, inumação, falecimento, vencimento do prazo de validade ou qualquer outro eufemismo ridículo que se queira usar. Mas deixando o galopante e relinchante óbvio de lado, volto a perguntar: se estamos procurando harmonia, por que devemos nos preocupar em manter a “harmonia social, que é um aspecto da harmonia energética” se a “volta à energia é estimulada por ações desarmônicas” e a “energia é essencialmente harmônica“? Eu quero harmonia! E, para isso, segundo as diretrizes da teoria, preciso ser desarmônico.

Esta singela, e despretensiosa, teoria permite que se entenda o que somos e o que seremos na eternidade., inexistindo qualquer julgamento, mas sim harmonia ou desarmonia energética.

E sabem por que não existe julgamento? Porque é impossível entender uma coisa que não faz sentido por ser apenas uma série de contradições. E o sujeito ainda quer entender a eternidade? #comôfas?

Vou suprimir o nome do remetente para preservar… não sei o que. Ia dizer “preservar seu bom nome” mas não fui eu que enviou o email. Email que, aliás, veio com o assunto “colaboração” apesar de nenhuma outra palavra a esse respeito ter surgido. Talvez ele queira que eu colabore com a desarmonia.

Tamos aí.

———

O segundo email, recebido nos últimos minutos do dia (certamente para algum outro Igor Santos que ainda não aprendeu como emails funcionam) é de um médico. *suspiro*

Infelizmente, como eu já disse aqui, homeopatia é uma especialização em medicina no nosso querido território político federativo brasileiro. Por mais imoral que isso seja, continua sendo verdade. Falando em imoralidades, eu sempre tremo um pouco quando ouço que o mesmo indivíduo se qualifica como pediatra e homeopata. Como é o caso desse próximo remetente que, apesar de se qualificar também como escritor, refere-se a si mesmo na terceira pessoa e acha que campo de assunto de email não precisa de pontuação, acentuação ou ortografia em geral, já que esse veio como “saude homeopatia e evangelho“. Sic, sempre lembrando.

"Eu sei o que estou fazendo, não se preocupe!"

“Eu sei o que estou fazendo, não se preocupe!”

Desta vez eu vou deixar o nome porque, apesar de tudo, nada do que ele escreveu para mim é considerado errado no querido território supracitado e infrapodal (mais sobre pés daqui a pouco).

Gilberto Ribeiro Vieira é médico pediatra e homeopata e escritor. Além disso, é professor do curso de medicina da Universidade Federal do Acre – UFAC e possui diversos livros publicados que abordam saúde, homeopatia e Evangelho. A conciliação desses dois temas rendeu diversas publicações.

Er, quais dois? Você citou três assuntos que, se tentassem, não poderiam ser mais opostos. Mantendo sempre em mente que homeopatia não é saúde, mas bruxaria e xamanismo, coisa que o evangelho rejeita fortemente (ver 2 Crônicas 33, por exemplo).

O objetivo principal é mostrar a possibilidade de obter benefícios ao se reunir conhecimento e espiritualidade, mesmo quando se caminha com relativa independência entre as religiões organizadas do cristianismo. Seu trabalho tem múltiplas faces.

Eu juro que li aquela última palavra como “faeces” mas talvez seja culpa de um viés involuntário meu. Falando em involuntário, viram ali como ele separou claramente “conhecimento” de “espiritualidade”?

E, para um escritor, ele até é meio ruinzinho em evitar ambiguidades. O que significa “relativa independência”? Minha interpretação é que ele é dependente de algumas religiões cristãs mas não tanto quanto alguém que pratique somente uma.

Discorrendo sobre as múltiplas fæces do seu trabalho, ele continua:

Na primeira predomina a ciência e o raciocínio. A jornada começa pela análise detalhada de alguns casos de cura do Cristo no Evangelhoterapia – a Ciência de Amar, juntamente com a descrição sucinta das virtudes divinas na criação – em Deus Radiografia Simples.

Faltou só incluir ciência e raciocínio ali. Especialmente no lugar de “virtudes divinas na criação“.

Em seguida, é conduzido um estudo rigoroso das palavras e contradições de Jesus em O Evangelho Dialético. Por fim, o autor tem o privilégio de apresentar a abordagem homeopática num enfoque inédito e contemporâneo em Homeopatia e Saúde: do reducionismo ao sistêmico, publicado por coedição pelo Conselho Regional de Medicina do Acre e a Editora da UFAC.

Novamente, cadê a ciência e o raciocínio? O que o estudo das palavras do Hércules judaico tem a ver com ciência? Porque já sabemos que homeopatia tem exatamente zero ciência e/ou raciocínio atrelados.

E, se o Conselho de Medicina do Acre for igual ao daqui, qualquer médico tem apoio editorial para lançar qualquer livro. Ou gravar um disco, pintar um quadro, expor fotografias, etc. O CRM gosta de incentivar médicos em suas perseguições artísticas. Então citar o CRM/AC como parceiro não é medalha de mérito.

Na segunda etapa prevalecem o sentimento e a fé.” <= Na primeira também, amigão.

Com esse enfoque, surgem crônicas repletas de ternura e criatividade em Os Filhos de Deus. Ao mesmo tempo, nasce um novo entendimento da relação íntima e profunda entre o Eu e o Pai em DeuS, graças à análise meticulosa dos versículos do Novo Testamento.

É sempre interessante quando um escritor se refere a si mesmo como criativo. Especialmente quando isso leva à frase “graças à análise meticulosa dos versículos do Novo Testamento”. Eu só queria dizer, já que estamos firmemente no mundo das pseudociências, que Freud mandou lembranças.

Por fim, o autor descortina o significado original dos chacras desde os pés – cidadania – ao mais elevado do homem – intuição – no instigante Poema das Moradas.

Isso está escrito desse jeito. Ele descortinou o significado original dos chacras. E, melhor ainda, o chacra da cidadania reside nos pés. Por isso que eu fiz aquele trocadilho lá em cima, sacaram? Não? Nem eu. Especialmente porque o chacra “mais elevado do homem” é a intuição.

E A P°яя4 DA CIÊNCIA, CADÊ!?

"chacras"

Uma terceira vertente é exposta em um livro que aborda dois temas: Adole*sente, publicado pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre, une-se ao Adole*santo e mistura informação científica e reflexões cristãs, em linguagem direcionada aos adolescentes e às pessoas que se relacionam com eles.

Queria muito saber o teor e a qualidade dessa informação científica que o autor cita. Principalmente ajustando a linguagem para adolescentes.

(Vocês viram os títulos? Eu consigo até imaginar o quão estufado ficou o peito do autor ao pensar nesses excelentes jogos de palavras.)

E, encerrando os trabalhos, A Fraternidade em Movimento, obra que contém as experiências e opiniões do autor sobre um dos amores de sua vida, o Movimento da Fraternidade, iniciativa espiritualista de amor ao próximo, gerada em Belo Horizonte em meados do século XX. Alguns livros estão em edição e serão publicados em breve e, portanto, ainda não se encontram disponíveis. O preço de lançamento é promocional juntamente com o frete grátis por tempo limitado.

Eu gostaria de reiterar que quem escreveu isso tudo aí em itálico foi o próprio autor, através de seu email pessoal.

Lembram das profundas análises dos evangelho pelo autor? E lembram do 2 Crônicas, capítulo 33 lá em cima? A página pública do perfil do Facebook do autor mostra que, entre seus favoritos, está o Pai Toninho de Xango.

———

Pensamento fantástico, delírios místicos, dissonância cognitiva, dificuldade de autoanálise, negação do óbvio, teorias conspiratórias. Pseudociências vêm em várias embalagens diferentes. E boa parte delas custa dinheiro.

Boa noite.

Homeopatia, coitadinha, não tem vez porque a “Indústria Farmacêutica”, que se preocupa apenas com dinheiro, não deixa!

Por que homeopatia é gratuita, né? Todos os homeopatas são filantropos e fazem eles mesmos as preparações, sem qualquer custo para os clientes pacientes, não é verdade?

A pobrezinha homeopatia não tem do quê viver, apenas sobrevive de doações daqueles que por ela foram salvos, e… Opa, peraí! Que manchete é essa?

Multinacional homeopática processa blogueiro acerca de afirmações de que seu curativo mitológico “não tem ingrediente ativo”.

Samuele Riva, um blogueiro italiano, está sendo processado pela Boiron, multinacional francesa de “remédios” homeopáticos. Riva ousou fazer uma piada com a alegação de que Ooscillococcinum teria “ingrediente ativo”. A companhia alega que o produto é feito diluindo-se “oscillococcinum” (uma substância mitológica que dizem estar presente em fígados de patos, apesar de nenhuma evidência apoiar aquele fato) em 200 diluições de 1 para 100, o que “equivale a diluir 1ml do ingrediente original num volume de água do tamanho do Universo conhecido”.

Multinacional? Sim, a Boiron é, segundo eles mesmos, “grupo farmacêutico pioneiro e líder da Homeopatia no mundo”.

E uma multinacional está processando um blogueiro que teve o disparate de dizer que seus supostos remédios não contêm um ingrediente ativo que sequer existe.
Mas a homeopatia não tinha como único intuito curar todas as pessoas de todas as doenças do mundo de forma completamente grátis?

Não.

Homeopatia é uma indústria. Não é “farmacêutica” porque não existem fármacos associados aos seus produtos, porém é uma indústria assim mesmo.

E a Boiron está processando Samuele Riva porque ele disse que um remédio não pode ser feito com um ingrediente que não existe.

Explicitando, a Boiron diz que o Ooscillococcinum é feito diluindo raspa de chifre de unicórnio até que ele deixe de existir. Sem jamais ter existido em primeiro lugar.

Faz sentido para algum de vocês? Por que para mim não faz.

Samuele diz que a empresa não só ameaçou o provedor com um processo para apagar o post como exigiu “bloqueio de acesso ao meu website“.

E agora, fez sentido? Não, né? Que bom. Sinal de que não estou tão desconectado da realidade assim.

Homeopatia continua não funcionando mesmo quando você faz a diluição impossível de uma coisa que não existe.

Provas? Eu ainda estou vivo.

Via Kentaro, pelo GReader.

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue

Em Natal, a prefeita Micarla de Sousa (eleita pelo PV) sancionou a Lei nº 6.252, de 25 de maio de 2011 (link em PDF) que diz:

A PREFEITA DO MUNICÍPIO DE NATAL,

Faço saber que a Câmara Municipal aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º – Autoriza o Poder Executivo a realizar estudos e pesquisas no sentido de adotar medicação homeopática, no combate e prevenção de dengue em Natal.

I – A medicação a que se refere o artigo 1º poderá ser ministrada nos bairros que apresentem os maiores índices de infestação da doença ou nas áreas onde a equipe técnica da Secretaria Municipal de Saúde definir como prioritárias ou de risco iminente para proliferação de casos;

II – A aplicação do medicamento será executada pelas unidades de saúde, na dosagem prescrita por profissional competente;

III – A Secretaria de Saúde do Município de Natal, através de uma equipe multidisciplinar, fará o acompanhamento e monitoramento, com as notificações necessárias, dos usuários atendidos pela medicação a que se refere o artigo 1ª desta Lei.

Art. 2º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Um grande problema não é o texto acima, mas a maneira como a coisa foi levada à frente. Esses “estudos e pesquisas” não ocorreram. Especialista não foram consultados e, especialmente, o Conselho Regional de Medicina não foi ouvido.

Entrando em vigor, essa lei certamente beneficiaria, e muito, algumas pessoas, tendo em vista que homeopatia é feita de nada.

O pior, no entanto, é o fato de existirem pessoas em cargos altos (como prefeita e vereadores) que não só acreditam nessa macumba disfarçada de medicina que é a homeopatia como não têm o mínimo interesse na saúde da população (se tivessem, teriam consultado infectologistas ou teriam procurado o CRM, o que não ocorreu).

Jeancarlo Cavalcante, presidente do Conselho, falando ao jornal Tribuna do Norte disse que, tanto a sanção quanto a aplicação dessa lei são “uma temeridade”. Mas ele disse isso porque é o presidente.

Como eu não devo contas políticas a ninguém, posso dizer com mais letras: dar homeopatia a pessoas doentes ou tentar usar homeopatia para prevenir doenças potencialmente fatais é uma irresponsabilidade e demonstra, mais uma vez, o descaso do poder administrativo da minha cidade para com a população, cujo interesse deveria ser prioridade.

Por mais que esse “passe de mágica” (como disse ao mesmo jornal o presidente da Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia, Hênio Lacerda) estivesse sendo aceito por ingenuidade de Micarla de Sousa, seria dever da primeira servidora pública da cidade procurar pessoas que, ao contrário dela, realmente soubessem do que se trata medicina, doenças, tratamento, etc. Confiar na própria suposta inteligência é, demonstrativamente, um erro para pessoas assim, em cargos tão importantes.

Em entrevista ao Novo Jornal, Munir Massud, Professor da UFRN e especialista em Bioética Médica, aponta que homeopatia “não serve para nada. Na Medicina, o que não é científico não é ético”. E, para o Conselho Nacional de Saúde, antes de ser usado em humanos, um medicamento precisa ser fundamentado com experimentações prévias, cientificamente. Coisa que a homeopatia falhou em fazer 100% das vezes que tentou.

Em vista disso, a Secretaria Municipal de Saúde informou ao Novo Jornal que: “em razão da polêmica levantada pela lei, irá solicitar um parecer técnico à Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia”.

Sim, vocês já devem ter notado. A Secretaria de Saúde só irá se informar a respeito com especialistas no assunto porque o CRM e a própria Sociedade de Infectologia foram atrás.

Então, ao invés de combater o mosquito (não há uma propaganda de prevenção, um só folheto pregado em poste, nada), a prefeita achou por bem beneficiar financeiramente os feiticeiros medievais que venderiam água a preço de remédio. Porque, já que a população não gosta dela, porque ela haveria de gostar da população, não é?
Já que ela nem se trata aqui, por que então cuidar do sistema de saúde do município?

Recapitulando: matérias circularam pela Tribuna, Novo Jornal (já citados), Diário de Natal e nominuto.com após uma coletiva de imprensa organizada pelo Conselho Regional de Medicina e pela Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia, pois nenhum dos dois órgãos foram consultados antes da prefeita passar uma lei dando água e açúcar para a população como forma de combater a dengue.

Mas eu vou esperar até Micarla divulgar o resultados dos estudos e testes que realizou, segundo prevê a lei que ela promulgou semana passada.

Enquanto isso, pessoas de fora, estejam avisadas: não venham a Natal em hipótese alguma. Gastem seu dinheiro turistando na Paraíba ou no Ceará. Aqui vocês podem morrer de Dengue a qualquer minuto.

Não há mais salvação para nós, natalenses, mas estamos resignados quanto à falta de estrutura da prefeitura para combater um mosquito.

Como consolação, fiquem com Amanda Gurgel, uma das poucas coisas boas que aconteceram na minha cidade nos últimos anos.

E que venha a Copa!

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23

Bob Marley, músico, nascido em 1945, diagnosticado com câncer metástico em 1980.

Preferiu se tratar com homeopatia.
Se homeopatia funcionasse, Bob Marley teria chegado aos 66 semana passada.

Morreu oito meses depois.

While touring in America, Marley went jogging in Central Park and collapsed on Sept. 21, 1980. Doctors discovered his cancer had moved into his brains, stomach and lungs. Though he tried many homeopathic remedies, Marley died in Miami on May 11, 1981.

José Alencar, empresário e político, nascido em 1931, diagnosticado com câncer abdominal em 1998.

Preferiu se tratar com Medicina.
José Alencar, não tão firme nem tão forte, mas ainda vivo.

Completará 80 anos em outubro.

O ex-vice-presidente da República José Alencar está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e seu quadro de saúde é estável, de acordo com o boletim médico divulgado nesta quinta-feira [10.02.2011]. O político está consciente e tomando antibióticos.

Homeopatia e rastafarianismo mataram Bob Marley.

Cirurgias e quimioterapia salvaram José Alencar. Várias vezes.

Então, antes de vir me dizer “eu sei que homeopatia funciona porque eu e minha família usamos”, pense em Bob, mon.

Homeopatia não funciona.

E isso não é só meu ponto de vista. É a realidade.

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades

Antes de qualquer outra coisa, eu gostaria de deixar claro que homeopatia não é medicina fitoterápica ou herbácea.

Homeopatia, tradicionalmente, é apenas solvente (água ou álcool) e um espessante (farinha ou açúcar).

Homeopatia é baseada em três conceitos demonstrativamente falsos:

1º – uma doença pode ser curada pela sua própria causa (envenenamento por mercúrio pode ser curado tomando-se ainda mais mercúrio);

2º – quanto mais diluída uma substância, mais potente ela se torna (além de serem situações totalmente contraditórias, como que por mágica, a potencialização ocorre apenas para a substância que o homeopata quer, desconsiderando milhares de outras coisas que possam estar diluídas na mesma água), e;

3º – para essa potencialização ocorrer, a diluição precisa ser agitada um certo número de vezes (esse número é fixo para cada tipo de diluição e o frasco agitador deve se chocar com uma superfície firme porém macia. Como uma Bíblia encadernada em couro, por exemplo).

Por ter sido idealizada no século 18, é de se desculpar preceitos tão absurdamente ingênuos (pelo menos para nós, do cientificamente avançado século 21) e sem sentido.

Tenho certeza de que o criador da homeopatia tinha a melhor das intenções (leia mais sobre isso neste link), mas também as tinham os xamãs que achavam que cuspe e fumaça curavam febre.

A Ciência evolui. Coisas como homeopatia e florais que se mantêm imutáveis à luz de evidências de ineficácia não são Ciência. Longe disso.

A página da Associação Médica Homeopática Brasileira, na seção risivelmente intitulada “A ética da ciência“, demonstra claramente o desdém que a homeopatia em geral tem com a ciência médica.

Notem que no quarto parágrafo é dito abertamente que evidências não importam tanto(sic): “Não é o mérito terapêutico em si, que estamos analisando neste momento, pois isto, fundamentalmente, o tempo e as experiências nos darão melhores respostas“.

O que importa mesmo é o argumento de autoridade: “Queremos mesmo é destacar a importância de tal declaração [do presidente do Conselho Regional de Medicina do estado de Mato Grosso do Sul]”.

E o trecho acima diz respeito a uma declaração sobre o uso de “medicamentos” (aspas irônicas do mesmo tipo que são usadas no texto da AMHB quando falam de cientistas) homeopáticos para o tratamento e prevenção de gripe.

(Outro detalhe bastante perceptível é a necessidade que o autor do texto sente em notar há quanto tempo a homeopatia é praticada e reconhecida no Brasil. É até ligeiramente constrangedor.)

O resto do texto tenta ridicularizar cientistas da Organização Mundial da Saúde que se opõem ao criminoso (aos meus olhos) método de receitar água e açúcar para curar AIDS na África, levantando pontos como “nós sabemos o que é terceiro mundo” e “homeopatia não faz parte da ciência imperialista que contaminou os países africanos com aquelas doenças” (apesar de Malária ser uma doença endêmica da região… mas vamos ignorar esse pequeno fato, já que outros tão maiores também o estão sendo).

O que me leva adequadamente ao tema que pretendo expor aqui: imoralidades.

Eu, enquanto varria o chão do meu lar e exercitava minha capacidade cognitiva lógico-numérica, consegui enumerar quatro tipos de imoralidade acerca da homeopatia como especialidade médica.

São elas: pessoal, profissional, científica e institucional.

Imoralidade pessoal

O ser humano é, intrinsecamente, moral.

Simplificando: temos uma capacidade de reconhecer os outros como seres independentes e uma disposição inata para evitar causar-lhes dano.

Se um de nós vê outro em dificuldade (pense nas vítimas das enchentes recentes que tivemos) e sabe que possui a capacidade de ajudar (neste cenário, podemos ajudar doando roupas, comida e remédios), esse um é tomado por um desconforto emocional, fruto do reconhecimento da dor alheia, que faz a maioria dos seres humanos querer dar suporte aos outros que dele necessitam.

Logo, negar conscientemente esse apoio é, do ponto de vista deste argumento, imoral.

Uma pessoa com um grau de conhecimento suficiente para ser aprovado num vestibular genérico e se formar num dos cursos mais puxados do nosso sistema de ensino sabe, ou deveria saber, que expor outrem a riscos desnecessários é, para a maioria dos fins, errado.

Portanto, se você vê uma pessoa usando um tratamento completamente ineficaz (além do efeito de placebo, que pode ser conseguido gratuitamente por outros métodos) e que, ao desviar recursos monetários (homeopatia é um negócio caro, muito caro) e desperdiçar tempo (quem está se tratando com homeopatia geralmente não procura medicina real e pode ter sua condição piorada pelo tempo perdido), está comprometendo a própria saúde (e em muitos casos a saúde de seus filhos) e permite que isso ocorra sem, no mínimo, explicar o outro lado, você está sendo pessoalmente imoral.

Imoralidade profissional

Se você é médico, me arrisco a dizer que entrou nessa vida sabendo mais ou menos do que se tratava.

É certo que existem aqueles que querem virar médicos por status ou por salário, mas a faculdade cuida da maioria desses casos. A maioria entra (e, mais importante, sai) sabendo que o papel da Medicina na sociedade é ajudar os outros.

O foco maior da Medicina é a vida. Seja para salvá-la ou para fazê-la o mais suportável possível em outros casos. O médico é o agente que faz daquele objetivo uma ação; o Profissional da Saúde.

Ao exercer essa profissão, lhe cabe usar de todos os meios possíveis e razoáveis para que seus pacientes, se valendo da ciência médica, adquiram, recuperem ou mantenham sua saúde.

Os princípios homeopáticos (mostrados acima) são, ao mesmo tempo, impossíveis e desarrazoados, cabendo apenas ao mundo da ficção ideológica ou do pensamento mágico, onde tudo é possível.

Receitar pílulas de açúcar para tratar Tuberculose não é prestar um serviço de saúde mas apenas adequar-se a uma corrente de pensamento ultrapassada e desacreditada com quase dois séculos de imutabilidade dogmática.

O mesmo estilo mental que não enxerga cientificamente o quão implausível homeopatia é pode confortavelmente considerar olho-gordo como doença e receitar uma simpatia como tratamento.

Se você é médico e não se importa em manter-se atualizado com tratamentos modernos comprovadamente cada vez mais efetivos e prefere render-se ao curandeirismo de um século pré-científico receitando mágica para seus pacientes, você está sendo profissionalmente imoral.

Imoralidade científica

Estendendo o tema acima: se você é um agente de uma modalidade que deve se moldar aos achados contemporâneos dos avanços científicos, sejam eles quais forem (interrupção do uso de eletrochoque em doentes mentais; uso de medicamentos como alternativa para drenagem de líquido sinovial do joelho; redução de casos de extração previamente indiscriminada de amídalas; substituição de leprosários por antibióticos, entre outros) e não cumpre o que tal modalidade exige preferindo se manter fiel a ideias, por favor, cancele seu CRM e rasgue seu diploma. Você não merece a denominação de “Médico” e todo o peso associado ao termo.

Pinte a cara, compre um cachimbo, se mude para uma tenda no meio do mato e vire curandeiro.

A Ciência (ou o Método Científico, mais especificamente) tem um mecanismo embutido de auto-correção. Eu dei quatro exemplos no parágrafo acima de maneiras comuns de se tratar (pelo menos) quatro problemas de saúde que foram, se não completamente abandonados, pelo menos melhor pensados.

Isso não caiu do céu. Muita gente estudou por muito tempo para que avanços fossem possíveis e negar todo esse esforço isso em favor de uma ideologia é, em primeiro lugar, extrema arrogância (de achar que sua opinião vale mais que todas as evidências coletadas por tantas pessoas ao longo de tantos anos) e, em segundo, pseudociência.

Se você é médico, profissional da Saúde, e prefere negar todo o corpo científico-literário da sua profissão em prol de uma crença, você está sendo cientificamente imoral.

Imoralidade institucional
(Agora, a parte onde eu posso de verdade me dar mal.)

O Conselho Federal de Medicina aprovou e reconheceu o uso da homeopatia em 1980, quando o “presidente” da nossa querida nação era o General João Figueiredo. Não sou muito bom de política mas, durante uma ditadura militar, que poderes reais uma autarquia “(…) fiscalizada e tutelada pelo Estado” [Dicionário Houaiss Eletrônico 3.0] como o CFM tem de fato?

Se, na época, o primo de algum governador apontado pela presidência quisesse mudar a definição de “unicórnio”, ele conseguiria facilmente fazê-lo. Independente do bicho existir ou não.

O que é um pedaço de papel? E o que é um pedaço de papel com algo escrito que não vai afetar você diretamente?

Antes corrigir o que o pedaço de papel diz do que ter sua carreira apagada pela mão autoritária de algum ideólogo poderoso.

Deixando claro o que eu tentei esconder no parágrafo sem sentido acima: não tenho dúvida alguma de que a homeopatia virou especialidade médica porque algum poderoso quis que fosse assim e pronto. Em 1980, vivíamos num mundo onde isso era completamente possível (não que não seja também hoje em dia, que o diga Tiririca e seus recém-adquiridos 61,8%).

O que não cabe na minha cabeça (por maior que ela seja, e ela é enorme – vide foto) é que hoje, 2011, continuemos com esse joguinho. Eu entendo que o CFM é uma organização política, mas a vontade de agradar a todos (ou, mais certamente, não desagradar a ninguém) não pode ser colocada acima da responsabilidade institucional de criar um ambiente saudável para a população em geral.

O Conselho é uma organização reguladora, além de administrativa, e essa aparente carta-branca para pseudociência (que inclui acupuntura) pesa sobremaneira. É uma declaração aberta de apoio a práticas que não têm como comprovar seu valor e, sinceramente, um tapa na cara da Ciência Médica.

Não é possível manter esse tipo de atitude; tradição não é resposta. Manter homeopatia em seus quadros porque ela “sempre esteve lá” não é correto. Ao deixar que homeopatia permaneça como especialidade médica, o CFM está ignorando tudo que a ciência mostra ser correto para o benefício de nada. Porque homeopatia é exatamente isso; nada.

Os conselheiros que formam a instituição precisam escapar da politicagem que os mantêm calados (conheço pessoalmente vários deles e estou supondo que todos são excelentes praticantes da medicina baseada em evidência e só não se pronunciam contra esse abuso por força política), caso contrário o CFM acabará sendo só mais uma agência política. E desse tipo já temos suficiente.

Se você é conselheiro federal e deixa que a política fale mais alto que a ciência num órgão que deveria ser regida por esta com a finalidade de proteger a sociedade, eu sinto muito, mas você está sendo institucionalmente imoral.

E apenas mais um nisso.
10:23 - Homeopatia: é feita de nada

E como eu sei que vão pedir que eu prove a negativa, vou logo adiantando: a alegação extraordinária que requer provas extraordinárias é dos homeopatas, que precisam que todas as leis conhecidas da Física, Química e Biologia sejam inválidas para que a homeopatia funcione como eles dizem.

Fora isso, eu sei que homeopatia não funciona porque meu dragão invisível indetectável que flutua silenciosamente e cospe fogo sem temperatura que mora na minha garagem me disse. Sintam-se à vontade para provar que ele não existe e não é onisciente.

Homeopatia é feita de nada. Tanto que dia 5 agora eu tomarei uma “overdose” homeopática num local público. Se “remédios” homeopáticos funcionam, devem seguir a função dose-resposta que diz que a magnitude da resposta está relacionada com a dose (quanto mais eu tomo, mais eu sinto), até que se chegue num nível tóxico.

Mas a não ser que eu seja alérgico a açúcar (não sou, a não ser que ele esteja muito quente), nada acontecerá comigo.

Se você mora em Natal e quer testemunhar (já que não posso convidar ninguém a participar), entre em contato comigo para saber onde estarei.

Saiba mais sobre os outros corajosos (homeopatia é inofensiva, mas não posso garantir que não tenha um homeopata doido por aí querendo nos pegar) ao redor do mundo que farão o mesmo como parte da campanha mundial 10:23 acessando http://1023.haaan.com/.

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam não necessariamente por email. Achar posts, imagens, tuítes, vídeos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso não é difícil. O difícil é confirmar a veracidade das informações antes de sair por aí espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alegações são, via de regra, as seguintes: as moedas falsas são mais leves, não brilham como as verdadeiras, não são atraídas por ímãs, os detalhes são grosseiros, a falsa é “mais oval”, o tamanho dos detalhes “são um pouco maior, pouca coisa, mas são!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que não significa que não estejam todos certos, visto que não existiria só um falsário fazendo moedas sempre no mesmo padrão. O problema aqui é, como muitos outros problemas na vida, ignorância dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, você me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo é uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

É como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois é, ambas são joaninhas). Se você supõe previamente que uma delas é falsa, você vai concluir que uma delas não é uma joaninha. Não porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contrário da primeira, é sim uma aranha disfarçada) ou outra espécie de inseto, mas porque você chegou a essa conclusão antes de obter dados suficiente para qualquer conclusão, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso é comum em apologistas de pseudociências como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles já começam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X é geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles não entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contrário). Os que são um pouquinho mais dispostos da cabeça (e não pegam toda informação acerca de sua religião prática exclusivamente através de um blog escrito todo em maiúsculas e negrito) até se dão ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas já tendo certeza de que, digamos, exercício e dieta balanceada não funcionam, pois o que funciona é só sua religião prática e só pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religião prática. No artigo tem algo como “mas certas pessoas têm problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARRÁ! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL ESTÁ ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabeça de Rorschach. No caso da pseudociência ela precisa não ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detectável por qualquer instrumento que não minha própria fé e precisa ser algo que não me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que é certo é a moeda que eu “sei” que é verdadeira. Como a outra não se enquadra nas categorias arbitrárias pré-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circulação moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modificações em suas características físicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na prática, as modificações na moeda de R$0,50 – de disco prateado – e na de R$1,00 – de núcleo prateado e anel dourado – são pouco significativas. Além de apresentarem pequenas alterações de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. Já os desenhos de ambas não sofreram nenhuma modificação.

E, saca só!, nem cuproníquel e nem alpaca (liga de cobre, níquel e zinco) são ferromagnéticos e, como tal, não são atraídos por ímãs. São também ligas mais maleáveis que aço, ficando mais propensas a riscos e pequenas deformações. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, são ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na República ou pé-de-galinha no Barão de Rio Branco é prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil é um país vagabundo e vira-lata, que acha que é primeiro mundo e cunha moedas de cuproníquel/alpaca mas não tem sequer condições de recolher moedas que já circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cuproníquel/alpaca depois de apenas três anos porque eles são caros demais e o custo não é compensado pelo valor irrisório da face. [3]

Mas o Brasil é um país rico! E auto-hemoterapia cura câncer! E shiatsu tem comprovação científica! E homeopatia não é só água e açúcar! E o PT é diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” são apenas aço-inox pintado. Cobre (matéria-prima do bronze, do cuproníquel e da alpaca) é caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes públicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher capôs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso – talvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensação de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da população que nunca leu uma só linha de Sir Doyle e não sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por aí acusando alguém de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mistérios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

1 Macaco e Meio, um filme com Luisa Mell sobre a invasão do Instituto Royal que ninguém quer ver

O portal G1 fez uma matéria entrevistando Mayana Zatz, geneticista de renome (termo relativo, mas…) e sua meio-prima Marina Zatz, ativista ambiental que invadiu (nada de relativo aqui, invasão é crime, vide artigo 202 do Código Penal) o Instituto Royal e que prefere o codinome “Luisa Mell” ao seu nome real.

A “ativista” (que não será chamada de terrorista aqui porque ainda não definimos legalmente o termo) aparenta ser também malabarista de ideias, se utilizando do expediente já tão conhecido dos pseudocientistas (homeopatas, auto-hemoterapeutas e outros xamãs) de contar apenas a verdade que lhe convém completando os buracos com informações falsas e mentiras esteticamente bonitinhas.

(Recomendo que leiam a matéria já linkada lá em cima. Assim minhas citações do que Marina diz, entre aspas e italizadas, farão mais sentido.)

A primeira parte da pergunta sobre a possibilidade da extinção de testes em animais é respondida com “[é] possível e é necessário” enquanto a segunda parte, sobre quais seriam as alternativas, jamais é sequer lembrada. Marina não quer alternativas, apenas o fim do status quo. Desde que os avanços científicos que permitem que ela faça luzes nos cabelos e use batom e base matificante não sumam, obviamente.

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Marina Zatz (você deve preferir “Luisa Mell” mas, em não concordar com o uso de animais para o benefício da humanidade, não acho justo usar o “mel” do seu nome), se você sabe com tanta propriedade como é possível, por que não mostra a alternativa? Se é tão necessário, por que o maior poder do universo (a Economia) continua tolerando e preferindo tais métodos? Talvez você não saiba ou prefira esquecer que um dia soube, mas testes em animais são a etapa mais cara de uma pesquisa antes de chegar nos humanos. Se “testes científicos em animais não são um sistema de teste robusto” e existe alternativa (e “vasta literatura a respeito” – mais sobre isso daqui a pouco), por que a Big Pharma, que adora sarrabuiar em dinheiro, continua desperdiçando notas altíssimas fazendo testes em animais?

Você afirma que a “indústria farmacêutica tem mais fracassos (…) do que sucessos” e que “nove em dez drogas experimentais falham em estudos clínicos (…) com base em estudos laboratoriais e animais“. Se testes em animais erram a previsão 90% das vezes como você diz, qual outro método tem um grau de acerto melhor? Você inclui estudos laboratoriais. Você quer que deixemos de usar animais E deixemos de usar laboratórios também? Como vamos testar eficácia e segurança então? Em pedras ao ar livre? Porque pela sua própria admissão os animais que “[p]ossuem características relacionadas evolutivamente” a nós já não servem e, mais para frente, diz que humanos também não podem ser envolvidos, como vamos criar compostos para salvar mais vidas? Vidas até desses mesmos animais que você quer ver saudáveis e saltitantes fora dos laboratórios.

Você diz ainda que esses erros “não são revelados por motivo óbvio: mercado“. Se eles não são revelados… como você sabe deles? E o que o mercado tem a ganhar com uma taxa absurda de erros dessa?

Voltando ao seu uso de “vasta literatura a respeito“. Onde você encontrou essa vasta literatura? Na Vogue ou na Marie Claire? Porque se você descobriu essa mina de informação em periódicos científicos, no momento em que você diz que “Cientistas partem do pressuposto errôneo” você está criando um paradoxo onde você, ao mesmo tempo, acredita no que os cientistas escrevem na literatura E sabe, com uma propriedade ímpar que seu curso de direito a conferiu, que eles estão errados.

Mas não, o que está acontecendo aqui é que você prefere acreditar na informação que mais lhe seja confortável. Isso tem vários nomes; viés de confirmação, seleção discriminatória, falácia do atirador e etc, mas todos se resumem apenas a desonestidade intelectual. Você desacredita completamente na ciência e faz questão de tentar sujar o nome dos cientistas mas usa tanto dados científicos quanto o bom nome de qualquer cientista que você acha que concordam com seu ponto de vista enviesado. Só isso.

Ou você sabe que está errada e está sendo vilmente desonesta, ou não sabe que está esfericamente errada e está sendo hiperesfericamente ignorante.

Vários médicos e cientistas americanos já são contrários a experimentos com animais, não pela ética, mas sim por isso atrapalhar a ciência!“. E por que você acredita logo nessa minoria? Porque cita apenas um “ex-secretário de Serviços Humanos e de Saúde dos EUA” e não as dezenas de outros? O que esses poucos equivocados (não sei porque você incluiu médicos ali, sinceramente) têm de tão especial para você, fora o fato de seu equívoco ser o mesmo deles?

A segunda pergunta é meio mal feita e supõe várias coisas baseadas em achismos, mas sua resposta, Marina, é ainda pior. Você diz que não é ético usar animais para beneficiar humanos. Você só não definiu o que entende por “ética”, porque a alternativa, baseada na pergunta, pode ser resumida como “é ético não beneficiar humanos”. Você misturou humanos e demais animais no mesmo bolo e tentou sambar com palavras fortes como “instrumentalizar”, “mero meio”, “ser dotado de inteligência, consciência, projetos” (características humanas que você trouxe para o picadeiro por conta própria e está misturando cretinamente numa discussão sobre animais). E sinto informar, mas com essa linha de argumento é você que está convertendo “seres vivos complexos em mero instrumento para nossos desejos e necessidades“. Quando o “desejo” é o de melhorar a vida humana (e animal, graças a remédios e tratamentos, nunca esqueça disso) e o “instrumento” é uma prática controlada e constantemente refinada para justamente se aproximar cada vez mais desses “direitos mais básicos” pelos quais você clama, suas palavras não parecem mais tão apocalípticas assim, né?

Você finaliza sua resposta com “além de injusto, é imoral“. Muito mais imoral é deixar alguém morrer de tuberculose, muito mais injusto é alguém perder uma perna por falta de insulina. Mas isso é apenas uma opinião minha. Talvez você não concorde com a minha definição de moralidade e justiça.

A terceira pergunta (algo como “é melhor assumirmos o bem-estar animal como prioridade, em detrimento à nossa saúde”, mais ou menos) é até um tanto pior que a segunda em grau de direcionamento da resposta, mas você consegue enfiar os dois pés na boca mesmo assim.

Você, Marina, afirma que testes animais são uma metodologia equivocada (evidências?) que visam “atender uma necessidade exclusivamente humana“. Sério? Você conhece a história da ararinha-azul (que, aliás, muito ironicamente perdeu habitat para abelhas melíferas, Luisa Mell)? Especialmente o pedaço sobre a luta para a restauração da espécie? Recomendo uma leitura a respeito, textos estando disponíveis em periódicos científicos. Ah, e você sabia que seu bichinho favorito no momento, o beagle, pode sofrer uma morte horrível por causa de uma entidade conhecida por “doença do carrapato”? Você acha que o cachorro prefere o bem-estar de uma doença sanguínea natural, provocada por outro animal, ou outro estilo de bem-estar que envolve uma coleira vermelha e atóxica? Novamente, minhas definições conflituam com as suas.

Você cita “Dr. John Pippin (diretor acadêmico do Comitê de Médicos pela Medicina Responsável, nos EUA)” e completa com “[i]sso não é ciência, é bruxaria“.

Esse comitê do qual Pippin é diretor é o mesmo Physician’s Committee For Responsible Medicine (PCRM) que o Conselho Nacional Contra Fraudes na Saúde diz ser “uma associação sem fins lucrativos que alega promover uma ‘dieta ideal para a prevenção de doenças’, que diz não haver evidências de que os seres humanos tenham um requisito dietético específico para proteínas e ensina que ‘muita proteína de origem animal na dieta é prejudicial à saúde’ e que “seu líder, Neal Barnard, médico, foi identificado como consultor médico da organização radical pelos direitos dos animais, PETA, que também substancialmente financia o PCRM.”

O Conselho completa a introdução da análise com: “Na nossa visão, o PCRM é uma máquina de propaganda cujas coletivas de imprensa são teatros para disfarçar de notícia sua ideologia.” Mas tem mais nessa análise. Muito mais.

Você confia absolutamente na palavra desse comitê pelo simples fato de que sua ideologia é compartilhada com a dele. Nada além disso. Com a mesma veemência, você acusa o FDA de cometer fraude “por causa de dinheiro” enquanto suas evidências são somente as palavras que saem das bocas de pessoas de rabo preso ideológica e financeiramente com organizações radicais como a sua. Você faz parecer que o FDA financia testes em animais, o que não é verdade.

A quarta pergunta tenta comparar animais usados em pesquisa com animais criados para consumo.

Marina, sua resposta é pouco mais que um desabafo que visa deixar claro o quanto você sofre, por procuração, pelos animais, tipificado por “uma das inúmeras e terríveis formas de exploração animal“. Mais uma vez você escolhe certas definições que na sua boca parecem muito mais graves do que realmente são. Nem toda “exploração” é “terrível”, vide a produção de mel, que deixa bilhões de abelhas felizes (você atropomorfiza, então também posso) e permite a você, vegetariana, se deliciar com tomates e amêndoas. Ou você acha que tomateiros e castanhas se polinizam sozinhos? Ou acha que outros animais que não abelhas conseguem polinizar tomates e amêndoas?

Por outro lado, você também mostra como pensa por procuração através dos explorados quando diz “tão errado quanto criá-los para abate por questões tão frívolas como hábito, tradição ou conveniência“. Quem é o criador de gado que você conhece que tem um rebanho de milhares de cabeças por hábito? Onde é essa avícola que insemina milhões de perus por tradição? Qual é o agricultor que usa um boi para puxar um arado para plantar feijão por conveniência? Marina, ou você é completamente desconectada da realidade e delirante ou refinou e sintonizou seu discurso precisamente para pintar uma humanidade muito mais macabra e sombria do realmente é (logo eu tentando defender os humanos, quem diria) nos fazendo parecer monstros que matam, mutilam e torturam animais por prazer. Ou, pior, porque sim.

Você prega que animais são “criaturas biográficas que percebem o mundo à sua volta e interagem com ele” e, guess what? Nós também somos! E parte dessa interação, parte dessa biografia que nos permitiu “parar de pensar como humanos da era paleolítica” foi justamente a interação do nosso sistema digestivo com proteína de origem animal e a interação das nossas necessidades (fome e abrigo) e desejos (parar de sentir fome e frio) com a inteligência inferior de bestas maiores, mais fortes e mais peludas que nós. Nosso cérebro só serve para dar entrevistas porque nossos ancestrais paleolíticos o cultivaram com mais e melhor nutrição e mais tempo para usá-lo. Não se iluda, absolutamente nenhum item que você consome é animal free; das minhocas que limpam as raízes do alface aos jegues atropelados que viram a cola que segura as pedras dos seus anéis e brincos. E se você, através de seus atos (vide foto abaixo), aceita esse uso “natural” de animais, por que não o igualmente natural ato de consumí-los?

Imagem retirada da Wikipedia

Imagem retirada da Wikipedia

É justamente por não pensarmos paleoliticamente que usamos animais da forma como usamos, ao invés de correr atrás de rebanhos em direção a penhascos.

A última pergunta da matéria é sobre um suposto acordo para acabar com o uso de animais em pesquisas e seu prazo de cumprimento.

Quase sensatamente, Marina diz que mudanças precisam de prazos e discussões e que “[e]ssa discussão (…) deve existir“. E existe. Desde décadas atrás, especialmente entre os cientistas, que são os mais habilitados/atingidos/interessados a ter essa discussão.

Eu disse “quase” porque ela completa dizendo que a discussão deve envolver “especialistas em ética e ciência, junto à opinião imprescindível do público leigo“. Por que a opinião do “público leigo” (diferente de qual outro público?) é tão necessária e imprescindível? O que um público que, pela sua própria admissão, não sabe do que está falando teria tanto a contribuir que não desinformação, equívocos e noções destoantes da realidade, como as suas, Marina?

Motivo do título:
twitter-luisa-mell

Uma elegia a um dinossauro

Para os que talvez ainda não saibam, sinto informar que Carlos Hotta, do Brontossauros em meu Jardim se foi.

Não sei exatamente por onde começar, então começarei do começo e deixarei o fluxo de consciência tomar conta (e se parecer que estou fazendo piada, estou mesmo. É assim que lido com as coisas no dia a dia).

Até abril de 2008, parte da minha rotina consistia em responder/corrigir (com informações, na medida do possível, corretas) a correntes de email e, aproveitando a imensa quantidade de endereços que vinham atrelados a tais mensagens, espalhar algumas gotinhas de conhecimento da Natureza e apreciação da Ciência.

Quando vi uma imensa quantidade de emails retornando, percebi que estava sendo, na maior parte, mandado para a caixa de spam dos outros a quem tentava convencer de que o mundo é fascinante e que tomate não dá nem cura câncer.

Então, um dia após o meu aniversário, aproveitei alguns textos que já havia escrito (e mandado por email para pessoas mal agradecidas) e resolvi iniciar um blog (ou “blogue”, como eu pedantemente chamava, até perceber que não faz diferença) que, à época, se chamava “Não Acredite no que Eu Digo, Pois Minto Tanto Quanto Você” e que, por motivos óbvios, rapidamente foi mudado para “42”, ainda sem o ponto final que adorna o cabeçalho deste.

Pouco mais de um mês e meio depois, um mundo completamente novo apareceu diante dos meus olhos: blogs especializados em ciência (o meu era do que quer que estivesse na minha cabeça no momento em que sentava para escrever) e, principalmente, em português (pois já conhecia alguns em inglês). Por ocasião de um comentário, conheci em poucos minutos Atila Iamarino, Rafael Soares e Carlos Hotta.

Mais ou menos um mês depois, sozinho e carente, escrevo um texto especificando nos mínimos detalhes o tipo de mulher com quem desejo passar meus dias (e que demoraria ainda dois anos e meio para finalmente conseguir), finalizando com “se você se identificou com o texto, me procure”.

O primeiro comentário, poucos minutos após a publicação do post foi esse aí:

Carlos Hotta

Sem saber muito bem como reagir nem para que lado a interação penderia, mandei um email para Carlos da forma mais neutra possível. Algo como “que foi?”.

Ao responder, ele me tranquilizou e disse que me queria para um projeto que ele e Atila estariam montando e que seria um “condomínio” de blogs de ciência, chamado Lablogatórios.

Logo original do Lablogatórios

Logo original do Lablogatórios

Cinquenta dias após aquela primeira notícia, entrava no ar o portal com o melhor nome de todos os tempos até hoje e que, apenas sete meses depois, viraria o Scienceblogs Brasil.

Toda essa celeridade que não me deixa lembrar de como era ser blogueiro sem ser scienceblogueiro foi, em grande parte, por causa de Hotta.

Foi por causa dele que eu estou aqui hoje, falando para as milhares de pessoas que leem diariamente as insanidades que eu escrevo vez por outra.

Se uma mulher passou batom despreocupada por causa de um texto meu, agradeçam a Carlos.

Se alguém pesquisou por auto-hemoterapia, viu o comportamento animalesco de seus defensores e pensou duas vezes antes de abandonar um tratamento sério em busca de alternativas potencialmente arriscadas, os louros são de Carlos.

Se um médico deixou de usar seu jaleco na rua e uma infecção não piorou por causa disso, esse não-evento é devido, em parte, a Carlos.

Quando alguém conseguiu entender o motivo de espirrar sob luz forte; soube pela primeira vez que homeopatia é só água, açúcar e pensamento mágico; descobriu que a chamada “medicina ortomolecular” só cura a falta de pedras nos rins; se divertiu com meus enigmas ou aprendeu o conceito de “napalm caseiro”, parte de tudo isso foi graças à falta de tato de Carlos Hotta em me abordar num momento constrangedor.

Foi também por causa de sua influência que conheci outros seres, com os quais interajo quase diariamente, que foram e são muito importantes em minha formação intelectual e identidade pessoal, como Karl, que me ensinou que eu posso, ao mesmo tempo, estar correto mas ainda errado; Fafá, que se tornou meu amigo, ocasional hospedeiro e acessório em crimes companheiro em projetos extra-blogs; Fernanda e Bessa, que me mostraram, de pontos de vista diferentes, que um passeio pela universidade pode ser a mais fascinante jornada de conhecimento (certamente as duas pessoas que serviram de estopim para a minha saída do armário não-religioso); até mesmo Meire, a minha confidente e companheira esposa a quem eu provavelmente não teria conhecido caso não tivesse ainda a auto-bibliografia atrelada e on-line do 42. e que se encaixou como uma luva feita sob medida e com talco no texto tão rudemente epilogado por Hotta.

(Atila também é responsável por muito disso, mas como ele ainda está aqui não preciso falar bem dele. E Kentaro também é um que pertence à lista acima, mas eu já o conhecia antes, então não conta. Outros também deveriam aparecer, mas FOCO!)

Também ainda por causa dele, em uma reunião onde decidimos os rumos do condomínio, realizei um sonho e criei meu próprio podcast (que não durou o suficiente, mas isso é culpa minha).

Até um restaurante japonês excelente em São Paulo (quem diria que eles existissem…) me foi apresentado por ele.

Um jeito tranquilo de falar (com um leve problema nos fonemas PR e FR) mas sempre com algo relevante a dizer, com uma genialidade do tipo que sabe o que importa e sabe que chamar atenção para o fato é uma das que não importam e com uma maturidade psicológica muito além dos seus 45 anos (eu acho que nascemos no mesmo ano, mas ele adquiriu tantas realizações ao longo da vida que trinta e poucos anos não seria tempo suficiente para um ser que vive na mesma velocidade dos outros).

Semana passada eu gravei uma entrevista com ele – talvez sua última. Quarta-feira que vem ela sairá na página do Dispersando e por lá deverá ficar até que as circunstâncias permitam, nos fazendo lembrar como ele foi um dia; tranquilo e sábio.

Este texto é dedicado (caso não tenha ficado extremamente óbvio ainda) a Carlos Hotta.

Sentirei, além de imensa e eterna gratidão, enormes saudades.

———

Antes que alguém se confunda com alguma coisa, Carlos Hotta não morreu. Apenas seu blog deixou o Scienceblogs.

Previsões cientificamente estáveis para 2013

Alguns anos atrás eu previ várias coisas e conseguir errar 100% delas. Isso só prova como meu poder é forte, já que estatisticamente eu deveria ter acertado pelo menos uma ou duas (ou seja, eu sou mais poderoso que a Estatística (ou algo assim – não consigo construir uma frase positiva com dados negativos envolvendo flutuações numéricas) ou então preciso ser mais conciso e direto (o que não é difícil para mim, acreditem. Eu sei ser bastante direto e focado (como semana passada, por exemplo, quando fui resolver um negócio com meu plano de saúde e precisei passar em seis locais diferentes e falar com, literalmente, oito pessoas distintas (imagine só quem não tem plano de saúde e/ou um carro. O que me remete ao meu desejo de vender o meu (o que seria uma imensa economia, tanto de combustível quanto de manutenção (e até mesmo uma economia emocional, já que está cada vez mais difícil dirigir sem se aborrecer nesta cidade (e, pior ainda, está estacionar. Na rua já é impossível (apesar de eu achar que deve haver algum momento em que existam vagas, já que não creio que todos aqueles carros passem semanas estacionados (eu sei que eles não passam, a verdade é essa, vez por outra eu consigo uma vaga (algumas vezes (mas não sempre) até perto de algum estabelecimento que eu pretendo visitar) mas ou estaciono imediatamente ou perco a vez) ocupando os mesmos lugares, entra dia, sai dia) e os estacionamentos pagos estão ficando cada vez mais ridiculamente caros, o que aumenta ainda mais meu gasto com o carro) porque o motorista atual é só um pouco menos selvagem que um demônio-da-Tasmânia (especialmente os motoqueiros, que parecem ter algum fetiche com espaços apertados (e até mesmo quando não existem carros na frente eles andam costurando um trânsito virtual (o que só aumenta o desgaste do veículo (ou, como é mais costumeiro, ficam mirando a moto nas faixas pintadas no chão (o que me lembra uma criança tentando andar na ponta da calçada, se equilibrando) mesmo tendo toda uma rua livre para transitar) e os custos de manutenção de algo que deveria ser bem barato) que só existe na parte de seus cérebros que cria a expectativa e a recompensa (acho que às vezes até sexual (se bem que talvez “emocional” fosse uma palavra mais adequada para o contexto), se bem que não posso ter certeza do que se passa na cabeça de alguém assim), realizando a proeza de atrapalhar o trânsito preventivamente), talvez até causado pelo enclausuramento dos capacetes que usam (será que existe alguma correlação com isso? Pode ser que sim, vou pesquisar a respeito (nota mental: pesquisar o efeito do aumento da temperatura do capacete num cérebro já debilitado (ou seria o contrário, esse tipo de mente já seria predisposto?) pelo desejo de andar no meio de transporte mais arriscado já produzido) e talvez renda um post interessante) ou pela adrenalina constante que recebem na circulação) raivoso e acuado) e ainda eu deixaria de me preocupar em tê-lo roubado (a violência só piora, só piora), arranhado, etc) e investir o dinheiro em alguma coisa mais rentável), não contando as que confrontei por engano (porque, obviamente, os endereços nas guias estavam errados e desatualizados) e que não sabiam do que eu estava falando (não que as outras partes diretamente envolvidas também soubessem) nem como me direcionar ao lugar correto, mesmo assim não me tirando a concentração) em praticamente todos os momentos, jamais perdendo o fio da meada) para não confundir tanto os meus leitores com divagações aleatórias) ao invés do meu placar perfeitamente zerado.

Então, sem mais delongas, vamos às previsões para 2013!

Ao longo deste ano, terremotos inesperados ocorrerão na Europa e na Ásia, surpreendendo os moradores da região E virando notícia em vários locais ao redor do globo. Pessoas predispostas a esse tipo de comportamento se compadecerão e demonstrarão apoio (nunca se saberá ao quê exatamente).

Lá pelo meio do ano – prevejo que entre julho e agosto -, uma chuva de meteoros aparecerá no céu do norte, anunciando mudanças. A este fenômeno será dado o nome genérico referente aos filhos do primeiro grande herói. Visiono ainda que está herói teria cortado a cabeça de um terrível monstro com cabelos de serpente e que seu nome rima com a frase “ter seu“, que pode ser completada com coisas bonitas como “coração”, “número de telefone” ou “cachorro na minha casa nunca mais! Da próxima vez que você viajar, deixo-o num hotel”.

Um artista famoso vai fazer algo que chocará o mundo, enquanto alguns o defenderão, chamando de “arte” qualquer que seja a bizarrice que aquele venha a fazer. Trocadilhos com seu nome surgirão e seu nome virará um meme nas redes sociais. O termo “celebridade” será inadequadamente utilizado.

Em 2013, o planeta ficará em trevas. Pelo menos parte dele. E no dia 3 de novembro.

As noites de 25 de abril, 25 de maio (COINCIDÊNCIA???) e 18 de outubro também ficarão ligeiramente mais escuras. Isto é, nos locais com pouca iluminação artificial e dentro da região afetada pelos eclipses lunares.

Você que está lendo isto agora também está sendo pré-lido. Você (ou algum familiar ou alguém próximo) terá algum sintoma em pelo menos uma das regiões especificadas no diagrama abaixo:

Se você é mulher, as chances aumentam significativamente naquela parte mais abaixo. Aquela bem vermelha que parece está escorrendo. Viu qual é?

Um centenário morrerá. Seja literalmente ou apenas semanticamente, completando 101 anos e ultrapassando o título de “centenário”. De toda forma, prevejo que um centenário morrerá.

Em previsões relacionadas, antevejo o nascimento de um(a) futuro(a) centenário(a) e ainda acrescento que este(a) viverá até depois do fim deste século(a).

Vejo ainda futuramente que os homeopatas continuarão dizendo que o conceito científico de vacina confirma seus conceitos mágicos de ultradiluições de água com água² enquanto denunciam que toda a ciência médica está errada e mata milhões de pessoas. É também certeza que eles dirão que homeopatia é boa porque não muda há 200 anos (errado, mas já que estamos ignorando uma realidade, vamos ignorar todas as outras – menos as que nos beneficiam) e citarão, sempre que possível, a Talidomida.

O Sol mostrará toda a sua indiferença pela raça humana aumentando a incidência de casos de cânceres de pele e, mesmo com todo o calor que vem fazendo, continuará a brilhar normalmente, jamais diminuindo a temperatura terrestre.

Ele também vai mostrar sua indiferença a tudo, continuando a ser uma estrela inanimada e desprovida de consciência.

Para o meu prazer, continuarei a ser xingado pelos pseudocientistas que passam tanto tempo insistindo em me mandar estudar que ficam sem tempo de estudar eles mesmos. Qualquer coisa, não só o assunto sobre o qual eles dominam exatamente zero.

Este ano será o primeiro em vinte e seis cujos dígitos não se repetem.

Antecipo ainda que os calendários de outras culturas continuarão a ser um mistério para a maioria eurocêntrica que não entende porque os judeus dizem que estamos em 5773 ou qual motivo levaria os chineses a contar os anos em animais. Sério, como eles esperam obter alguma vantagem com isso?

E que Alá nos proteja!

E, finalmente, em 2013, alguns post ficarão inacabados, possivelmente causando tensã

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