Muitos pacientes vão ao consultório e dizem “Dr. gostaria de fazer um check-up!”. Em geral, dizem isso acompanhado de um “já tenho 30 e tantos anos e nunca fui a um médico, preciso me cuidar, né?”, esperando aprovação e reforço positivo. Vou avisando, “sou contra check-up”. Em especial, nos moldes como ele foi introduzido numa prática de cuidado de si, no início da década de 70. Me explico.

Entenda-se aqui por check-up o procedimento no qual um cidadão ou uma cidadã submetem-se aos mais variados exames e consultas com especialistas em, digamos, uma tarde. A coisa varia de lugar para lugar, mas em geral, consiste em endoscopia, colonoscopia, otoscopia, teste ergométrico, ultrassom de abdome, ecocardiograma, radiografia de tórax, toque retal, exame oftalmológico e os mais variados exames laboratoriais incluindo marcadores tumorais, perfil hormonal e, mais alguma coisa que, com certeza, esqueci. O detalhe que faz toda a diferença é que, apesar de serem checadas possíveis queixas dos avaliados, NÃO É POR ESSA RAZÃO QUE ELES ESTÃO LÁ!

As razões que levam essas criaturas a um centro de check-up, na grande maioria das vezes, são corporativas. Estimativas feitas por uma revista semanal de grande circulação em 2003 com os 3 maiores centros de check-up de São Paulo (ver quadro ao lado, clique para ver a origem) mostram que 80% deles são financiados por empresas. Em que pese o interesse individual das pessoas em cuidar da própria saúde, há outros interesses sobre o bem-estar de um executivo e esse tipo de prática acaba caindo no que Foucault chamou de biopoder que tem no corpo o palco de uma política onde exerce sua força.

O check-up se insere em um tipo específico de procedimento médico chamado de rastreamento (rastreio, em Portugal, screening, em inglês) que é o fato de alguém que não tem queixa nenhuma (repare que não digo que não tem doença nenhuma) submeter-se a procedimentos médicos com o intuito de diagnosticar algum mal oculto. Baseia-se no fato de que existem doenças silentes, que não provocam sintomas quaisquer, mas que, mesmo assim, podem causar dano futuro. Se pudermos diagnosticá-las precocemente poderemos evitar muitas complicações e até evitar a morte.

As críticas feitas ao check-up podem ser divididas em dois grande grupos. O primeiro grupo diz respeito a um tipo de “subversão da ordem médica clássica”. A medicina, desde os seus primórdios, foi construída como uma relação entre dois seres humanos e se inicia com as queixas de um deles ao outro. Na ausência desse passo fundamental, o que se segue pode ser classificado como tecnologia médica ou picaretagem, mas não propriamente como medicina. Nesse caso, não há o encontro do paciente com o profissional da saúde. Há exames frios que produzem números frios. É uma relação centrada nos exames. Hoje, a possibilidade de investigação laboratorial é gigantesca. Acho engraçado quando um paciente diz “doutor, fiz TODOS os exames e ninguém achou nada”. Não digo impossível, mas é economicamente inviável e biologicamente muito agressivo, alguém fazer todos os exames possíveis na medicina hoje. É possível “virarmos alguém do avesso”, diz um médico amigo. O que fazer com todos os dados gerados em um check-up é algo que nem sempre é muito bem estabelecido.

Outro grupo de críticas remete ao processo heurístico do investigar. Isso é bem exemplificado pela diferença entre o “procurador” e o “achador”. Um procurador tem uma meta que deve ser encontrada, um objetivo. Um achador, acha, encontra coisas que nem sempre sabe se têm valor ou não. O check-up é um processo “achador”. Uma consulta médica, “procurador”. O check-up é centrado no exame. A consulta, centrada no médico. Há vantagens e desvantagens em ambos. Em determinados momentos, na consulta, preciso me vestir de “achador” por total falta de opções. Em centros de check-up bem organizados, os médicos conversam com os clientes e tentam dirigir mais os exames.

Além disso, exames de rastreamento também têm efeitos colaterais! Muita gente pensa sobre isso como pensa em medicação homeopática: “mal não faz!” Faz mal, sim; e muito. Erros comuns: 1) “Meu convênio paga”. Errado! Quem paga é sempre você (ou sua empresa). Quando seu convênio subir a mensalidade por sinistralidade, você não vai ficar feliz; 2) “Fazer exames preventivos é sempre bom”. Desde que esses exames sejam interpretados de forma correta. Interpretar um exame não é olhar o intervalo normal e dizer “está dentro” ou “está fora”. Interpretar um exame é saber, primeiro, se ele é válido ou não. Para um médico um exame é válido quando corrobora (ou ajuda a descartar) uma hipótese diagnóstica. Mas, os clientes do check-up são a null hypothesis, pois os médicos não têm nenhuma “teoria” a respeito deles, já que eles não têm, em geral, nenhuma queixa. Além disso, o médico tem que valorizar ou não determinados exames; tentar detectar se aquela alteração é um simples achado sem significado clínico ou se temos que ir atrás daquilo com exames mais específicos. Dentre as várias formas de se fazer isso, uma é a que encaixa os pacientes em determinados grupos de risco. Encaixar um paciente em um grupo de risco significa que determinado exame, caso resulte positivo, tem um valor maior neste paciente específico que em outros, que não fazem parte desse grupo de risco. Dizemos que o valor preditivo (no caso, o positivo) do exame é grande e isso ajuda a discriminar os pacientes. Para encaixá-los em determinado grupo de risco, eu preciso conversar muito com o paciente. Preciso saber de sua família, de seus hábitos, de seus antecedentes todos. Um exame não ajuda outro exame, eles são variáveis independentes. Precisamos “calibrar” a pontaria de um exame estimando a probabilidade pré-teste. Só depois disso, posso valorizar ou não, descartar ou não, determinado exame.

Com todas essas críticas, fui questionado pelo meu irmão que trabalha no mundo corporativo.: “Então tá, se o check-up não é a melhor maneira de estimar esse risco, o que é que você sugere colocar em seu lugar?” Uma política centrada em um médico da empresa, que conheça seus funcionários na saúde e não na doença. Um tipo de médico de família corporativo que possa dosar a política do “achador” e do “procurador” e tirar o melhor de cada uma delas. Vai economizar verba, sangue, encheção, tubos, biópsias e procedimentos invasivos desnecessários.

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