ET de MIB I "aprisionado" em seu corpo

A característica principal de quem dirige um veículo com prática é a automaticidade dos procedimentos. Mudam-se marchas e acionam-se dispositivos de maneira quase inconsciente. O todo das ações forma então, um conjunto harmônico de atitudes que fazem com que a condução do carro se torne parte de um ambiente “normal”. Dessa forma, é possível ouvirmos músicas e até conversarmos dentro de um veículo, esquecendo-nos que ele está em movimento, por vezes, em alta velocidade. Assim é o funcionamento do nosso organismo. Quantos processos automáticos não coexistem sem que sequer saibamos de suas causas ou de seus efeitos? Reações, pulsações, contrações, explosão de -ações em um concerto mudo. Já se disse que a saúde é a vida no silêncio dos orgãos. Mas algumas parcas notas dessa sinfonia nos são dadas a ouvir. Imagine-se, por exemplo, como seria se tivéssemos de nos “lembrar” de nossas “funções fisiológicas”, como evacuar ou esvaziar a bexiga de tempos em tempos, se o corpo não nos “avisasse” de suas necessidades. Suponhamos que não sentíssemos fome, sono, sede, libido, amor (?)…

A continuarmos por esse caminho, podemos começar a supor que muitas de nossas escolhas “conscientes” podem ser originárias de uma outra fonte que não a própria vontade do nosso Eu. Um caminho que levado às últimas consequências pode conduzir à armadilha – semântica e vazia – do fisicalismo, por um lado, e, por outro, a um determinismo biológico muito próximo de um materialismo cientificista, também incapaz de satisfazer as condições de possibilidade desse Eu, alma, Self, Selbst, sujeito, ou o que quer que seja. Mas como negar a existência desse Eu, sujeito ou Self, proprietário de um corpo que o carrega para lá e para cá e o insere no mundo da vida? Existiria algo como o ET do filme “Homens de Preto“, que, autopsiado, revela seu verdadeiro Eu como o proprietário de uma carcaça mecânica (figura) que fingia ser um ser humano? Será essa a metáfora de uma existência bipartida?

A criação de um Eu todo poderoso excluso do corpo que lhe dá abrigo, é sacramentada em Descartes. Nietzsche chama esse tipo de pensamento de descuidado.

Sejamos mais cuidadosos que Descartes, que se manteve preso à armadilha das palavras. Cogito é decididamente apenas uma palavra, mas ela significa algo múltiplo: algo é múltiplo e nós, grosseiramente, o deixamos escapar, na boa-fé de que seja uno. Naquele célebre cogito se encontram: 1) pensa-se; 2) eu creio que sou eu quem pensa; 3) mesmo admitindo-se que o segundo ponto permanecesse implicado, como artigo de fé, ainda assim o primeiro “pensa-se” contém ainda uma crença, a saber: que “pensar” seja uma atividade para a qual um sujeito, no mínimo um “isso”, deva ser pensado – além disso, o ergo sum nada significa! Mas isso é fé na gramática; já são aqui instituídas “coisas” e suas “atividades”, e nós nos afastamos da certeza imediata.[1]

Para Nietzsche, a extração de um Eu do processo do pensamento é um efeito das funções lógicas e gramaticais que atuam inconscientemente. Um efeito colateral do processo do pensar. É como se o motorista, para abusar da analogia acima, ao automatizar todos os movimentos da direção, passasse a sentir o “corpo” do carro como seu. No parágrafo 16 de “Além do Bem e do Mal”, Nietzsche desconstrói a célebre formulação cartesiana.

uma série de afirmações ousadas, cuja fundamentação é difícil, talvez impossível; – por exemplo, que sou eu que pensa, que, em geral, tem que haver um ‘algo’ que pensa, que pensar é uma atividade e um efeito de parte de um ser, que é pensado como causa, que existe um ‘eu’, finalmente que já está estabelecido o que deve ser designado com pensar, – que eu sei o que é pensar.[3]

Para então, escrever

Pois se eu já não tivesse me decidido comigo a respeito, por qual medida julgaria que o que está acontecendo não é talvez sentir, ou querer? Em resumo, aquele eu penso pressupõe que eu compare meu estado momentâneo com outros estados que em mim conheço, para determinar o que ele é: devido a essa referência retrospectiva a um saber de outra parte, ele não tem para mim, de todo modo, nenhuma certeza imediata.[3]

Há como diferenciar sentir ou querer de pensar? Em caso negativo, é possível, então, abolir a alma ou o tal Eu – res cogitans de Descartes-; em caso positivo, estaríamos comparando configurações mentais diferentes e a conclusão seria sempre relacionada – comparada – à outra coisa, impedindo-me assim, de chegar à certeza nuclear, fundacional de todo o conhecimento humano. Nietzsche inverte, portanto, a lógica herdada da tradição: “existo, logo o conjunto de meus pensamentos produz um Eu”. Chega-se à conclusão então, que “esse Eu, esse si-mesmo, é infinitamente mais complexo do que a unidade aparentemente simples da autoconsciência”.[2] Está enraizado muito mais profundamente na existência do indivíduo: funda-se na própria animalidade de suas origens e ocupa um espaço do qual a autoconsciência é apenas a ponta do iceberg. E aí, entra o Zaratustra: “Por detrás de teus pensamentos e dos teus sentimentos, irmão, há um rei poderoso e um sábio desconhecido – que tem por nome Si. Vive no teu corpo, é o teu corpo. Há mais razão em teu corpo do que em tua melhor sabedoria.”[4]

“(O corpo) não é apenas ‘a carne’ e a sede das paixões, desejos e desgarramentos, nem mesmo a res extensa, de que cogitara Descartes; ao contrário do que pensara o platonismo e o cristianismo, o corpo não é a prisão do espírito, o oposto da razão. Para Nietzsche, o corpo é a Grande Razão.”[2, grifos meus]. A pequena razão é o Eu. Um brinquedo na mão da Grande Razão. Um subproduto, um epifenômeno. O que faz perguntar, mas, então, para que uma pequena razão tão desenvolvida a ponto de nos enganar como fim em-si, sede do Eu e de mim, por tantos séculos?

(continua…)

1. Nietzsche, F. Fragmento Póstumo 40 [23], agosto-setembro de 1885, apud Giacóia Jr, O. Metafísica e Subjetividade in as Ilusões do Eu – Spinoza e Nietzsche. pg 425-444. Org. André Martins, Homero Santiago, Luís César Oliva. Civilização Brasileira, 2011.

2. Giacóia Jr, OMetafísica e Subjetividade in as Ilusões do Eu – Spinoza e Nietzsche. pg 425-444. Org. André Martins, Homero Santiago, Luís César Oliva. Civilização Brasileira, 2011.

3. Nietzsche, F. Além do Bem e do Mal. ¶16, pg 21-22. Trad Paulo César de Souza. Companhia das Letras. 1992.

4. Nietzsche, F. Assim Falou Zaratustra. Dos desprezadores de corpo. Trad M de Campos. Publicações Europa-América. pg 29-31. Portugal. 1988.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...