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Com apenas 503 palavras (em inglês e 469 nesta tradução que eu fiz), o conto a seguir é a mais curta história de Sherlock Holmes escrita por Arthur Conan Doyle (1859-1930). O miniconto foi feito para ser publicado em um minilivro de 1,5 polegada [3,81 cm] de altura e que seria parte da biblioteca de uma casa de bonecas da Rainha Mary (1867-1953), esposa de George V (1865-1936, regnabat 1910-1936):

Como Watson aprendeu o truque
Watson estava observando intensamente seu companheiro desde que ele havia se sentado à mesa do café-da-manhã. Casualmente, Holmes levantou seus olhos e viu-o:
— Bem, Watson, você está pensando no quê?
— Em você.
— Em mim?
— Sim, Holmes. Pensava em quão superficiais são esses seus truques e como é incrível que o público continue a mostrar interesse neles.
— Eu concordo deveras. De fato, me lembro de uma vez em que fiz uma observação similar.
— Seus métodos  disse Watson secamente  se adquirem com muita facilidade.
— Sem dúvida 
 Holmes respondeu com um sorriso . Talvez você mesmo queira dar um exemplo desse método de raciocínio.
— Com prazer. Eu sou capaz de dizer que você estava bastante preocupado quando acordou hoje cedo.
— Excelente!  exclamou Holmes  E como pôde saber disso?
— Porque você geralmente é um homem muito organizado, mas até agora se esqueceu de fazer a barba.
— Meu caro! Quanta sagacidade! Eu não tinha ideia, Watson, de que você seria tão bom aluno. Seus olhos de águia detectaram algo mais?
— Sim, Holmes. Você tem um cliente chamado Barlow e não tem sido bem-sucedido nesse caso.
— Meu caro, como você percebeu isso?
— Eu vi o nome fora do envelope. Quando você o abriu, soltou um gemido e guardou-o no bolso com o cenho franzido.
— Admirável! Você é mesmo um bom observador. Tem mais algum ponto?
— Eu receio, Holmes, que você esteja envolvido em alguma especulação financeira.
— Como pode afirmar isso, Watson?
— Você abriu o jornal, pulou para a página de finanças e soltou uma exclamação de interesse em voz alta.
— Bem, isso é muito sagaz de sua parte, Watson. Algo mais?
— Sim, Holmes. Você vestiu seu casaco preto e não o seu robe, o que significa que você está esperando alguma visita importante.
— Nada mais?
— Eu não tenho dúvida de que poderia apresentar outros pontos, Holmes. Mas só lhe dou esses poucos para mostrar-lhe que há outras pessoas no mundo que são tão espertas quanto você.
— E algumas nem tanto. Eu admito que são poucas, mas receio, meu caro Watson, que eu não devo contar você entre elas.
— O que quer dizer, Holmes?
— Bem, meu caro colega, receio que suas deduções não sejam tão felizes quanto eu gostaria.
— Quer dizer que estou enganado?
— É mais ou menos isso, eu acho. Vamos por as coisas em ordem: eu não fiz a barba porque mandei a lâmina para ser afiada; vesti meu casaco em lugar do robe porque, por azar, tenho um encontro matutino com o dentista. O nome dele é Barlow e a carta veio para confirmar o compromisso. A página de críquete fica bem ao lado da financeira e eu procurava saber se Surrey ainda está à frente de Kent. Mas vá em frente, Watson, vá em frente! É um truque bastante superficial e sem dúvida você irá adquiri-lo logo.

J.M. Barrie (1860-1937; autor de Peter Pan), Thomas Hardy (1840-1928; “o último dos grandes vitorianos”), Rudyard Kipling (1865-1936; Nobel de Literatura em 1907) e Somerset Maugham (1874-1965) também contribuíram com minivolumes para a minibiblioteca real, que ainda está em exposição no Castelo de Windsor. Socialista e irlandês, George Bernard Shaw (1856-1950) recusou o convite para participar dessa brincadeira lítero-real.
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