Berbiguier_Farfadets

Essas criaturinhas de outro mundo vão aprontar altas confusões!

Alexis-Vincent-Charles Berbiguier de Terre-Neuve du Thym vivia sendo aterrorizado por farfadets, uma espécie de equivalente francês dos goblins. Filho de uma família pequeno-nobreza, Berbiguier nasceu em Carpentras, no sul da França, em 1765. Ele entraria para a história da literatura francesa por sua bizarra autobiografia demonológica. Intitulada Les farfadets ou Tous les démons ne sont pas de l’autre monde [Os farfadets, ou Todos os demônios não são do outro mundo], a autobiografia de Berbiguier foi publicada em três volumes entre 1818 e 1820. A obra é magnificamente ilustrada com litografias desenhadas pelo próprio autor.

Em suas memórias, Berbiguier relata sua luta vitalícia contra os farfadets. Ele diz que começou a ser perseguido pelos diabretes desde que teve um desafortunado encontro com duas sibilas durante um momento de ócio em sua juventude. Por esse pecado, Berbiguier diz ter sido lançado nas mãos de terríveis tormentadores vindos do inferno. O diabinho-chefe que atormentaria o pobre francês seria um tal de Rhotomago e seu superior imediato seria ninguém menos que o Belzebu (e você aí, achando que seu chefe é um demônio…). Alexis-Vincent-Charles alegava manter correspondência com dignitários do inferno e estava convencido de que era preciso lançar uma guerra mundial contra os espíritos malignos. Isso fica bem claro na modesta dedicatória de Les Farfadets:

A TODOS OS IMPERADORES, REIS, PRÍNCIPES E SOBERANOS DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

Sires,

Pais dos povos, que representais na Terra o Deus de Paz e consolação, unificai vossos esforços com os meus próprios para deter a influência dos Demônios, Feiticeiros e Farfadets, que desolam os infelizes habitantes de vossos Estados. Vós tendes a vossos pés o mais desafortunado dos homens; os tormentos contra os quais lutei por mais de vinte e três anos são os mais belos títulos que eu poderia apresentar diante de vossa atenção paternal.
Ah! As perseguições diabólicas dos Farfadets teriam há muito se exaurido na Terra se qualquer um de vossos súditos tivesse a coragem de vos revelá-los. É para desmascará-los que eu vos dedico a minha obra; vós não podeis mais ser insensíveis aos meus tormentos, vós que cessá-los-ão agora que eles vos são conhecidos.

Apesar do tom narcisista, Berbeguier tenta ser científico em Les farfadets… Segundo seus relatos, ele seria capaz de capturar e confinar alguns farfadets em garrafas e testar repelentes sobre eles. Um tanto contrárias aos senso comum demonológico, suas conclusões são de que a melhor forma de afastar essas criaturinhas diabólicas seria usar enxofre (!?), preferencialmente em forma de cruz, ou um maço de tomilho (!!). É deste último — que em francês é chamado Thym — que ele tira o título autoproclamado — de Terre-Neuve du Thym — que vai alongar-lhe ainda mais o nome.

Infelizmente (ou não), o Monsieur du Thym nasceu no século errado. Poucos acreditaram em seus relatos e, antes mesmo de escrever seu livro, seu comportamento esquisito acabou valendo-lhe uma temporada no Hospice de la Salpêtrière. Tratado com pouco sucesso pelo Dr. Philippe Pinel, um dos pioneiros da psicoterapia, Berbeguier foi liberado algum tempo depois. Em Les farfadets, o Dr. Pinel aparece como um servo dos diabinhos.

O tormento de Berbeguier, que seria uma psicose, deve ter se atenuado durante sua velhice. Talvez desiludido e arrependido, ele tentou readquirir e destruir todas as cópias de sua autobiografia. O pobre alvo dos farfadets faleceu em 1851, aos 86 anos.

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