Entrada no diário do jornalista britânico Sydney Moseley, datada de 1º. de agosto de 1928:

[…] Encontrei um jovem pálido de nome Bartlett que é secretário da nova Baird Television Company. Televisão! Ansioso para ver o que é que é […] Ele me convidou para acompanhá-lo até Long Acre onde a nova invenção está instalada. Agora isso é alguma coisa! Televisão!

Conheci John Logie Baird [1888-1946], um homem charmoso — um tímido escocês come-quieto. Ele poderia passar por modelo da imagem que um colegial tem de um inventor: cabelos desarrumados, modesto, sonhador, distraído. Não obstante, sagaz. Sentamo-nos e proseamos. Ele contou-me que está passando maus bocados com os zombeteiros e os céticos — incluindo os da BBC e de parte da imprensa — que tentam ridicularizar e matar a invenção da televisão em seu berço. Perguntei-lhe se ele me permitiria ver o que ele realmente havia conseguido. Bem, ele teria que se arriscar à minha censura — ou ao meu louvor! Se eu fosse convencido, batalharia por ele. Passamos um tempo juntos e consegui testar sua notável alegação.

[Mais tarde] Vi televisão! O parceiro de Baird — irlandês alto, de boa aparência, mas bastante temperamental, o Capitão Oliver George Hutchinson — foi agradável, mas estava bastante nervoso em arriscar-se comigo. Ele estava terrivelmente ansioso e eu devia ser impressionado. Gostei desse par, especialmente do Baird e decidi dar o meu apoio […] Acredito que realmente temos o que é chamado de televisão. E assim, [sou] mais um na briga!

Baird já vinha trabalhando em seu televisor desde 1924. De certa forma, Moseley conseguiu ganhar a briga: foi graças à influência de seus artigos bastante otimistas sobre a nova tecnologia (aliado a uma boa dose de pressão política) que a hesitante BBC entrou no desenvolvimento da TV em 1929. Mas então, o que deu errado? Porque não tivemos TV em massa antes dos anos 1950 (ou até mais tarde, em muitos países)?

O principal motivo é técnico: a TV de Baird era mecânica (ou melhor, eletromecânica). Embora fosse uma maravilha tecnológica, a transmissão de imagens sem fio não empolgou. A qualidade da imagem era baixíssima, comparada aos padrões atuais: eram apenas 30 linhas de resolução. TVs de tubo, eletrônicas, tiveram entre 405 e 625 linhas (dependendo do sistema). As tevês de tela plana de hoje tem entre 720 e 1080 linhas (ou até mais).

Outro motivo é econômico: como toda nova tecnologia, os aparelhos, inclusive os transmissores, eram bastante caros. Esse foi um dos motivos da hesitação inicial da BBC. A emissora estatal britânica não considerava a TV economicamente viável. Pra piorar, as câmeras de Baird eram praticamente imóveis, o que praticamente impediu  seu uso fora de estúdio.

Além disso, Baird manteve o maior segredo possível sobre os aspectos técnicos do seu sistema, pois pretendia patentear a TV. Mais que o tosco sistema mecânico, foi o desenvolvimento “fechado” e pouco cooperativo que atrasou em uma década (ou mais) as pesquisas televisivas.

E a TV de Baird, de fato, não foi viável. Mesmo chegando a desenvolver aparelhos de “alta definição”, com 240 linhas e até televisores mecânicos coloridos (com um disco para cada cor primária), o sistema Baird foi abandonado em 1937. Era o começo da era da TV eletrônica. Mas essa é outra história…

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