Sempre temos fumaça conosco. Se num belo dia de verão procurarmos através das persianas do topo da Crystal Palace, em Sydeham, por uma vista da metrópole, naturalmente exclamamos — “Eu vejo — há fumaça!”. Esta pesada nuvem negra é sustentada pelas 500.000 ou 600.000 colunas de fumo que elevam-se das 400.000 casas de Londres. Ali contemplamos o grande campo de carvão aéreo, que anualmente contém nada menos que 200.000 toneladas de combustível que escapam de nós por nossas chaminés. Cinco séculos atrás, a mesma moléstia da fumaça que conhecemos foi predita e se tentou evitá-la. Até os tempos de Edward II [1284-1327], Londres usava apenas lenha, extraída das florestas vizinhas, como combustível. Naquele reinado [1307-1327], porém, o carvão começou a ser importado de Newcastle e em 1316 o Parlamento peticionou ao rei para proibir seu uso em Londres, por ser de irritação pública; com isso, ele ordenou que todos os que queimassem carvão fossem multados e após segunda autuação tivessem suas fornalhas demolidas. Entretanto, como parecessem ordens desnecessariamente severas, estas caíram rapidamente no esquecimento, dando tempo para que o mal do carvão crescesse velozmente. Na Restauração [i.e., em 1660], foram importados apenas 200.000 caldeirões [de carvão]; em 1775, vieram 500.000, quantia que subiu para 900.000 no princípio do presente século e, em 1854, mais de 4.000.000 de toneladas foram recebidas pela metrópole por mar e terra. — John Timbs, Things not Generally Known, Familiarly Explained. A book for old and young [Coisas pouco conhecidas ordinariamente, com explicações familiares. Um livro para jovens e velhos], 1866.

Engana-se quem pensa que a situação seria melhor no interior da Inglaterra. Em 1830 o engenheiro escocês James Nasmyth (1808-1890) visitou o chamado Black Country [País Preto], uma das primeiras zonas de conurbação modernas, formada pela extração de carvão e fundição de ferro ao longo da estrada entre Birmingham e Wolverhampton. Recém-chegado de Londres, Nasmyth descreveu o que encontrou:

A Terra parece ter sido virada do avesso. Suas entranhas estão espalhadas por aí e sua superfície cobre-se, quase que inteiramente, com montinhos de cinzas e escórias. O carvão, que tem sido extraído do subsolo, queima na superfície. O distrito está repleto de fornalhas de ferro, fornalhas de pudelação e fornalhas das minas carvoeiras. Dia e noite o campo arde em chamas e a fumaça das fundições paira sobre ele. Ouve-se o troar e o tinitar das forjas de ferro e das laminadoras. Veem-se operários cobertos de fuligem, com agudos olhos brancos, movendo-se entre o ferro incandescente e o baque surdo dos malhos.
Em meio a essas oficinas flamejantes, fumacentas e ressonantes, observei os restos do que outrora foram quintas felizes, ora arruinadas e desertas. O solo sob elas afundou com a extração do carvão e elas caem aos pedaços. Nos tempos d’antanho elas eram cercadas por arvoredos; mas agora restam apenas esqueletos dilapidados, enegrecidos e sem vida. A relva foi ressequida e morta pelos vapores do ácido sulfúrico que as chaminés jogam fora e todos objetos herbáceos eram de um cinza lúrido — o emblema da morte vegetal em seu aspecto mais triste. Vulcano expulsou Ceres. Em alguns locais ouço como que um chilrear de um pássaro fantasmagórico sobre as ruínas das velhas fazendas. Mas não! O chilrear é uma vã ilusão! Ele provém do ranger estridente das correntes de carvão sinuosas, que foram colocados em pequenos túneis por baixo da estrada ilimitada.
Sentei-me numa parte elevada das ruínas e olhando para baixo, vi o extenso distrito, com suas fornalhas a rugir e rutilar e a fumaça a enegrecer o campo até onde a vista alcança. E, enquanto observava as árvores moribundas, pensei no preço que temos que pagar por nossa inglória supremacia na fabricação do ferro. Nós enchemos nossos bolsos, mas pagamos um pesado preço com a perda de belezas pitorescas.

Nasmyth não seria assim tão inocente ou ambientalmente correto por muito tempo. Por ser engenheiro, o escocês acabaria contribuindo muito para aquela paisagem que tanto deplorava — especialmente depois que inventou o martelo a vapor na década de 1840.

Quanto ao Black Country, diz-se que inspirou a sombria Mordor de J.R.R. Tolkien. Hoje a região de Birmingham está em franco declínio industrial, mas isso não é boa notícia. A China ainda tem dezenas (senão centenas) de Black Countries, que geram mais de 2/3 da eletricidade do país.

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