P. minor

Parus minor ou chapim-japonês: um páçaro que não sofre de dislexia? Creio que sim.

Cá vem esse ler artigo. Artigo esse cá ler vem. Esse ler cá artigo vem. Vem cá ler esse artigo. Pronto, agora sim, podemos começar. Se você estranhou a estrutura das três primeiras orações, teu senso de análise sintática está funcionando muito bem. Agora, falando (ou melhor, escrevendo) sério: você, humano, não é o único a estranhar a colocação diferente de determinadas combinações fonéticas.

Utilizada por diversos animais, a comunicação por meio de sinais sonoros é bastante eficaz. Entretanto, esse tipo de comunicação tem suas limitações: falantes (ou piantes) e ouvintes precisam ter um repertório em comum. Mas não adianta conhecer só o vocabulário. Como qualquer turista munido apenas de um dicionário de bolso já percebeu, a ordem das palavras (ou piados) é muito importante para entender e ser entendido.

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Parte da gramática, a sintaxe diz respeito à ordem das palavras dentro de uma frase. É a sintaxe que nos permite gerar infinitas expressões com significados distintos a partir de um número finito de elementos vocais (fonemas). Línguas nascem quando sons ganham sentido ao ser articulados em palavras e as palavras, em frases.

Pesquisas em comunicação de primatas não-humanos e pássaros indicam que estes animais têm a capacidade de juntar elementos vocais de maneira simples, formando palavras mas nada além disso. Juntar palavras numa frase parecia ser exclusividade humana. Parecia ser, mas não é. Segundo estudo em 08/03 na Nature Communications, o chapim-japonês (Parus minor) é capaz de usar regras de colocação e combinar vocalizações para compor mensagens. A emergência da sintaxe, portanto, pode ser uma adaptação geral para sistemas de comunicação complexos entre seres sociais.

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O chapim-japonês é bastante conhecido por seu grande repertório de vocalizações. Esse passarinho tem vários predadores e pode ser ameaçado de diversas maneiras. Assim, suas diversas vocalizações podem ser usadas individualmente ou de modo combinado. Por isso, o P. minor foi escolhido por Toshitaka Suzuki (Rikkyo University, Japão), David Wheatcroft (Universidade de Uppsala, Suécia) e Michael Griesser (University of Zurich, Suíça) para verificar se utilizava sintaxe.

Coordenados pelo Dr. Suzuki, os cientistas usaram gravações para estudar os sentidos dos pios do chapim-japonês e suas reações. Esse arranjo também permitiu testar se a ordem das vocalizações fazia diferença para os passarinhos.

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Frases do chapim-japonês estudadas: (a) três notas do sinal ABC; (b) notas do sinal D; em (c) e (d), as frases compostas em ordem direta e reversa.

Quando encontra um predador pousado nas redondezas, por exemplo, a avezinha emite uma combinação de três sinais descrita como ABC, que significa algo como “olha o perigo”. Uma vocalização mais simples, com sete a dez notas do tipo D, por outro lado, significa apenas “vem cá”, sinal usado quando descobre-se uma nova fonte de alimento ou para recrutar um parceiro (“Vem cá” com esses sentidos? isso soa familiar, não?).

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Os chapins-japoneses comumente juntam essas duas “palavras” numa estrutura ABC-D, usadas quando predadores se aproximam. Em bom português seria algo como: “Olha o perigo! vem cá!” Quando tocada em playback, essa frase faz com que os pássaros se juntem e façam uma varredura em busca de uma ameaça. Mas quando a ordem é artificialmente modificada, trocando-se a ordem das palavras — D-ABC, ou seja, “Vem cá! Olha o perigo!” —, os pássaros não respondem. Para eles, a ordem de se aproximar primeiro e vigiar depois não faz sentido.

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Mais pesquisas com outros pássaros do gênero Parus, como o chapim-real (P. major) devem esclarecer se esse comportamento se repete em outras espécies e se elas falam línguas diferentes (o que é bastante provável). Se replicado, o estudo de Suzuki et. al. vai confirmar que a sintaxe não é exclusividade nossa. Para Wheatcroft, “entender porque a sintaxe evoluiu nos chapins pode nos dar pistas sobre sua evolução em humanos”. Se essa pesquisa pode levar à compreensão da linguagem dos pássaros? Ainda é muito cedo pra dar qualquer pio sobre isso, mas talvez um dia seja possível.

Referência

rb2_large_gray25Toshitaka Suzuki, David Wheatcroft, and Michael Griesser (2016) Experimental evidence for compositional syntax in bird calls [Evidência experimental de sintaxe composicional em vocalização de ave], Nature Communications, doi:10.1038/ncomms10986

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