Exploradores de zonas árticas já observaram reações histéricas de membros da população nativa daquelas regiões inóspitas. Coisa parecida tem sido relatada em nações asiáticas. Seria uma doença psiquiátrica influenciada pela cultura?

Por Romeo Vitelli, em Providentia. Tradução de Renato Pincelli.

Robert Peary e suas explorações do Ártico no começo do século XX continuam lendários. Embora sua chegada ao Pólo Norte seja discutível, os relatos das expedições de Peary nos trouxeram um fascinante vislumbre dos habitantes que passam a vida toda nas vastidões geladas do norte. Em uma descrição dos “Esquimós” (hoje se diz Inuítes) feita em 1910, Peary escreveu:

Exceto pelo reumatismo e problemas bronquiais, os Esquimós são bastante saudáveis. Mas os adultos são sujeitos a uma aflição peculiar, que eles chamam de pibloktoq, uma espécie de histeria. O paciente, geralmente uma mulher, começa a gritar e rasgar suas roupas. Se estiver num barco, pode andar pra lá e pra cá a gritar e gesticular, geralmente num estado de nudez mesmo que a temperatura esteja na casa dos 40 negativos. Conforme a intensidade do ataque aumenta, ela pode se jogar da amurada para o gelo e correr por uma meia milha [cerca de 800 m]. O ataque pode durar de poucos minutos a uma hora ou até mais. Alguns afetados tornam-se tão descontrolados que continuariam a correr pelo gelo perfeitamente pelados e congelariam até a morte se não fossem trazidos de volta à força.

Embora seja classificado como um transtorno psiquiátrico ligado à cultura, o pibloktoq (ou piblokto) é uma reação dissociativa aguda que não é exclusividade dos inuítes, tendo sido ocasionalmente observada em outras culturas. Num dos primeiros papers clínicos escritos sobre o assunto [publicado em 1913], A. A. Brill descreveu o pibloktoq como uma “histeria primitiva” desencadeada por um trauma emocional ou sexual. Diz-se que virtualmente todos os casos ocorrem em mulheres, duram no máximo duas horas e terminam com a vítima caindo numa crise de choro ou de sono profundo. Após o episódio de pibloktoq, a vítima geralmente se recupera por completo.

Como o pibloktoq é mais comum durante as longas noites do [inverno do] Ártico, a tradição inuíte ensina que ele é causado pela possessão por espíritos malignos. Xamanismo e animismo são os temas dominantes nas crenças tradicionais dos inuítes e o angakkuk (curandeiro) atua como mediador entre as forças sobrenaturais. Considerando que o angakkuk usa estados de transe para se comunicar com os espíritos e realizar uma cura, os inuítes creem que os indivíduos que entram em transe devem ser tratados com o devido respeito, dada a possibilidade de que uma nova “revelação” pode aparecer. Por esse motivo, o tratamento do pibloktoq simplesmente consistia em permitir a ocorrência do episódio sem qualquer interferência. Embora o pibloktoq seja frequentemente confundido com outras condições (como epilepsia) nas quais a ausência de intervenção pode levar a vítima a se machucar, a maioria dos casos tende a ser mais inofensiva.

Mesmo sendo visto como um estado tipicamente benigno, existem dois exemplos vívidos de casos mais patológicos na literatura clínica. O artigo de Brill descreveu um episódio incomum de pibloktoq no qual a vítima espumava pela boca, ficou violenta e com olhos injetados — sintomas que parecem sugerir um quadro de epilepsia. Em outro relato publicado em 1965, Peter Freuchen descreveu o suicídio de um homem que aparentemente estaria ligado a um caso de pibloktoq. Segundo o relato de Freuchen:

Miuk teve a sensação de que estava sendo tomado pelo pibloktoq. Ele começou a cantar cada vez mais alto e ninguém ousou se aproximar dele, [pois] seria perigoso tocar Miuk porque os espíritos que desejam vingança não escolhem quem punem. Em pouco tempo, ele ficou bastante violento e começou a agitar os ombros. Depois, ele cortou seu pulso com [uma] faca, de modo que o sangue jorrou. Miuk ria enquanto puxava a faca braço acima, rasgando sua pele até o ombro e através do peito. Logo ele recobrou os sentidos [e] disse que não sabia o que havia motivado ele a usar a faca. Após dizer isso, perdeu sua voz e em poucos momentos estava morto.

Brill havia classificado o pibloktoq como uma forma de histeria (baseado no fato de que as mulheres são as vítimas mais comuns), mas autores mais recentes argumentam que essa é uma forma primitiva de dissociação ou, talvez, uma reação psicótica aguda, cujas causas são múltiplas e podem ir de epilepsia a depressão. Um estudo mais recente sugeriu que o pibloktoq pode estar ligado a uma overdose de vitamina A, já que humanos e animais que sofrem de hipervitaminose A podem apresentar muitos dos sintomas de um episódio de pibloktoq.


Pibloktoq
não é a única condição extraordinária observada em comunidades circumpolares. Além da psicose windigo (que permanece extremamente rara), muitos dos povos nativos da Sibéria relatam experiências de latah. Tipicamente ligada ao reflexo de tremer, os portadores de latah podem reagir a fatores de estresse inesperados caindo num transe que os deixa com movimentos ou verbalizações meio automáticos. Além dos nativos siberianos, casos de latah tem sido registrados no Japão (especialmente entre os Ainu), Lapônia, Filipinas, Malásia e Indonésia. A própria palavra latah vem do malaio e significa algo como “cócega” e “loucura de amor”. Enquanto o termo oficial em russo para latah é miryachit, encontram-se outros nomes vistosos em diferentes línguas da Sibéria, como aurakh, olan, irkunii e ikoto. Outro termo clínico para latah é olonismo, derivado de uma palavra do idioma tungus [falado na região de Tunguska, Sibéria] que significa “assustar-se de repente”.

Entre os sintomas em comum notados na latah e em outras formas de histeria ártica estão os seguintes [descritos neste artigo de 1924]: 1. convulsões; 2. perda de consciência; 3. estado impressionável; 4. sugestões visuais não-intencionais; 5. mania de imitação, com tendência a repetir todas as impressões visuais e auditivas, além de gestos e palavras; 6. sugestões hipnóticas; 8. tendência a se envolver em brigas; 9. sensação de susto ou timidez; 10. improvisação monótona; 11. cantar enquanto dorme; 12. espasmos; 13. depressão; 14. comportamento suicida e, excepcionalmente, 15. coprolalia e linguagem sexualmente sugestiva. As mais acometidas são as mulheres mais velhas e houve até casos de latah em massa, com diversos indivíduos sofrendo crises ao mesmo tempo.

Por ser popularmente vista como forma de possessão, a latah raramente é considerada uma doença mental e os familiares dos afetados nem sempre buscam atendimento médico quando ela ocorre. A classificação da latah é um desafio para os acadêmicos ocidentais, que tendem a considerá-la uma psicose culturalmente restrita como o pibloktoq. Ao mesmo tempo, as muitas similaridades levam ambas a serem classificadas como “histeria ártica”. Outra semelhança notável é o fato de que tanto a latah quanto o pibloktoq estão se tornando cada vez mais raras. A maioria das referências a essas síndromes datam de várias décadas e os novos casos ocorrem com uma frequência muito menor que no passado. Não está claro se isso se deve à popularização da psiquiatria ocidental ao redor do mundo ou apenas a uma noção mais precisa do papel que a cultura tem nas doenças mentais, mas os poucos casos que restam podem acabar sendo as últimas evidências da existência dessas estranhas síndromes.

[Crédito da imagem: Edward S. Curtis/Library of Congress/Wikimedia Commons]

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