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Frustração. Raiva. Revolta. Apatia. Tédio. Desespero. Os sentimentos são diferentes, mas podem acontecer quando você fica sem conexão com a internet durante algumas horas ou dias. Normalmente, o problema não dura mais que isso e não atinge o mundo inteiro ao mesmo tempo, mas e se a Internet — com letra maiúscula — inteira deixasse de funcionar? Algo parecido com esse apagão informático é o cenário do conto A Máquina Pára, única incursão do romancista inglês E.M. Forster no campo da ficção científica.

Publicada em 1909, a história se passa num futuro distante e indefinido, no qual a humanidade se refugia da poluição do planeta em cidades subterrâneas mantidas por um imenso mecanismo inteligente conhecido simplesmente como A Máquina. Após séculos de comodidades criadas e mantidas pela Máquina, a humanidade passa a idolatrá-la e temê-la como uma divindade. Talvez por isso, a manutenção da coisa fica cada vez pior e a qualidade de seus serviços entra em declínio. Até que um dia, a Máquina — e tudo que ela mantém, de banheiras e camas a teleaulas e teleconferências — pára. Definitiva e irremediavelmente. Em meio a isso, Kuno, um jovem audaz e fisicamente forte — algo incomum naquela sociedade sedentaríssima — desafia a mãe supersticiosa, Vashti, e os tabus de sua cultura ao buscar uma saída ao mundo da superfície. Será mesmo que o mundo lá fora é assim tão tóxico? Por que ninguém mais gosta de viajar? O que está acontecendo com a Máquina?

Distópico, o conto de Forster ressalta a necessidade humana de contato com a natureza e de calor humano — as duas únicas coisas que faltam no mundo aparentemente perfeito da Máquina. Escrito bem antes de qualquer noção de internet (e muito antes de haver gente fazendo textão sobre o impacto da tecnologia no dia-a-dia), A Máquina Pára lembra bastante os nossos dias: basta substituir A Máquina pela internet e seu conjunto de redes sociais, assistentes virtuais e inteligências artificiais para perceber que o futuro distante imaginado por Forster é muito parecido com o nosso presente. Não vivemos dentro de colmeias subterrâneas mas cada vez mais nos enterramos dentro das bolhas criadas pela nossa dependência da web e seus recursos.

Nossa tradução de A Máquina Pára (enriquecida com notas e perfis biográficos) pode ser lida e baixada aqui [em pdf].

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