Ou o que não fazemos por uma mulher.

Dura batalha

ResearchBlogging.orgChifres de besouros são uma característica especial. Não só são estruturas únicas dos machos, como não têm paralelo direto* (valeu, Takata) em outros insetos. Não são partes da boca, antenas ou patas modificadas. São chifres. Que inclusive chamaram a atenção do heróico velhinho, Charles Darwin, que nutria uma paixão por besouros desde a infância e usou os chifrudos para explicar a seleção sexual. (* há outras estruturas, embora não sejam chifres)

Os besouros machos usam esses chifres para batalhar pelas fêmeas. Em ambientes restritos, como túneis escavados por eles onde elas depositam ovos,
machos se degladiam pela corte da companheira. E quase sempre, quanto mais
longo o chifre, maior o número de vitórias, mais fêmeas fertilizadas e
mais descendentes.

Como qualquer estrutura sujeita à seleção sexual (apesar de não
ser a fêmea quem escolhe, a conquista da batalha implica em reprodução), eles são uma força diversificadora
impressionante. Besouros com chifres são extremamente numerosos e variados. Responsável por um dos maiores eventos de surgimento de
espécies, a diversidade de formas que os
chifres podem
adquirir são um exemplo do poder de uma disputa evolutiva – alguém aí falou Rainha Vermelha?


Criando a diversidade

E antes que criacionistas coloquem as
asinhas de fora, com sua complexidade irredutível, a capacidade de
produzir (ou deixar de produzir) chifres parece ser bem elástica nos
besouros. Depois que surgiu, apareceu e desapareceu em várias espécies. Parece
ser possível apenas uma mutação inativar ou reativar a característica, de
forma que em uma geração essa mudança
pode ocorrer. [1]

A formação do chifre é bem estudada. Ainda na fase
de larva (algumas são
enormes
), pouco antes de começar a metamorfose, a região
da cabeça sofre uma proliferação de células, que vão se se expandir
durante a fase de pupa
. Alguns besouros desenvolvem chifre durante a fase
de pupa e reabsorvem o tecido depois, tanto o macho quanto a fêmea em certos casos, mostrando a variação da característica entre
espécies. [2]

Novos truques para velhos genes

Mais
ainda, tal variação depende de genes bem conhecidos e com funções
importantes na formação de apêndices como as patas. Ao invés dos
besouros “inventarem” novos reguladores para o crescimento de chifres,
deram novas funções para genes já presentes, contrariando a idéia de
que genes importantes estão “congelados” em suas funções e não têm mais
plasticidade.

E os genes utilizados não só variam entre
espécies como também dentro de uma mesma espécie, de acordo com
o tamanho do macho. Mais uma evidência para a facilidade de perda e ganho dos
benditos.

Em algumas espécies como o Onthophagus taurus (do mesmo gênero do Onthophagus lanista aí de cima),
apenas machos maiores do que um certo tamanho desenvolvem todos chifres
da cabeça, machos que foram larvas menores desenvolvem apenas
chifres
toráxicos e alguns chifres da cabeça – o besouro logo abaixo ilutra a diferença, o chifre único na frente dos olhos é o da cabeça e os duplos são do tórax.

Ao inativar um dos genes
responsáveis pelo desenvolvimentos deles, o gene DII, apenas os
machos grandes foram afetados e não conseguiram produzir todos os
chifres de cabeça, enquanto machos os pequenos e médios produziram
normalmente. O que indica que a via que os machos grandes utilizam é diferente.

Já em outra espécie próxima, o O. binodis, a inativação do
gene DII sumiu com os chifres de machos e fêmeas, de todos os tamanhos, outro tipo de regulação.
[3]

Mais algumas fotos para você poder apreciar como a evolução gera diversidade (afinal, este blog não tem o nome que tem à toa):

Oxysternon conspicillatum.jpg

Onthophagus (Proagoderus) tersidorsis.jpg

Phanaeus sp.jpg

Golofa porteri.jpg

Odontolabis cuvera.jpg

Onthophagus nigriventris.jpg

Onthophagus nigriventris 2.jpg
Todas imagens acima © olga_helmy

Theodosia magnifica.jpg

© Beetle Diversity

Dynastes_hercules_hercules.jpg

Lamprima_latreillii.jpg

Allomyrina_septentrionalis.jpg

Eupatorus_gracilicornis.jpg

As quatro acima ©beetlespace

Fontes:

[1] Emlen, D., Corley Lavine, L., & Ewen-Campen, B. (2007). Colloquium Papers: On the origin and evolutionary diversification of beetle horns Proceedings of the National Academy of Sciences, 104 (suppl_1), 8661-8668 DOI: 10.1073/pnas.0701209104 (pdf)

[2] 
Moczek, Armin P, Tami E Cruickshank, e Andrew Shelby. “When ontogeny reveals what phylogeny hides: gain and loss of horns during development and evolution of horned beetles.” Evolution; International Journal of Organic Evolution 60, no. 11 (Novembro 2006): 2329-2341. (pdf)

[3] Moczek, A., & Rose, D. (2009). From the Cover: Differential recruitment of limb patterning genes during development and diversification of beetle horns Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (22), 8992-8997 DOI: 10.1073/pnas.0809668106

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