chuva

Que cheiro uma imagem desta evoca? ©Dr. RawheaD

 

Uma das coisas que mais gostava ao visitar minha avó no interior de São Paulo nas férias de janeiro era o cheiro da chuva no fim da tarde. Parecia mais intenso lá. E uma coisa que sempre me intrigou era como eu sentia o cheiro antes mesmo de começar a chover. Se o cheiro era de chuva, por que aparecia antes? Apenas na graduação fui entender que era o cheiro de uma guerra microbiana.

Assim como o DMSP dá o cheiro de mar, existe um composto químico que dá o cheiro característico de terra úmida que reconhecemos facilmente. Seu nome é geosmina, literalmente cheiro de terra. Uma série de bactérias, algas e fungos a produzem, e um dos propósitos que se imagina que ela tenha é o de controle de inimigos, matando concorrentes que atrasam o crescimento destes microrganismos. Por isso mesmo seria liberada pouco antes de chover, de maneira que a água a espalhe junto de outras substâncias com a mesma finalidade.

Esta mesma geosmina produzida por algas marinhas pode se acumular nos tecidos de vários peixes, dando aquele gosto de terra na carne. Como ela não é levada facilmente pela água, não adianta lavar a carne que não sai. Produzida por bactérias de solo, pode se acumular em beterrabas e no vinho, onde também dá o mesmo gosto. Uma das maneiras de eliminar o sabor de terra de vegetais e carnes é usar vinagre, já que o pH ácido degrada rapidamente a geosmina.

Curiosamente, por mais que o cheiro de chuva seja atraente para nós, pode ser muito mais essencial para os camelos. Como Keith Charter especulou (já que não achei publicação que sustentasse sua idéia), camelos devem saber localizar água a quilômetros de distância pela geosmina liberada por bactérias que crescem no solo úmido de oásis, e ao beberem a água ajudam a dispersar seus esporos para outros locais, perpetuando uma simbiose.

Mais certa do que a atração dos camelos pelo cheiro da geosmina é o apelo que ela tem para insetos. Se nós já associamos umidade e chuva a esse cheiro, imagine o efeito que ele tem em regiões desérticas. Tão grande que alguns cactos que têm flores diurnas – as noturnas geralmente são polinizadas por morcegos – produzem geosmina para atrair insetos polinizadores, usando o cheiro de umidade para enganá-los.

Se, como disse Dawkins, entender fenômenos naturais através da ciência só os torna mais belos e complexos, da próxima vez em que alguém mencionar que gosta do cheiro de chuva ou terra molhada, você já sabe muito mais sobre o que está envolvido em uma situação tão comum. De camelos a besouros, todo mundo gosta do cheiro de chuva. Menos na comida.

 

Obrigado ao pessoal do This Week in Microbiology por mandar o nome do composto. Para mais, recomendo o texto do Swissprot, o perfume da terra.

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