Um memorial ao Cesar Ades

Prof. Cesar Ades e duas de minhas alunas no XXV Encontro de Etologia em Rio Preto

Joice Farias, Prof. Cesar Ades e Fernanda Reis, minhas alunas, no Encontro de Etologia em Rio Preto

Um dia descobri um curso de comportamento animal na Psicologia da USP. Me inscrevi e na primeira aula fui recebido por um professor sorridente e entusiasmado chamado Cesar Ades. E ele me mostrou que existe uma ciência no comportamento animal.
Um dia defini minha iniciação científica na USP com comportamento de peixes de caverna. Fui até a Psicologia e aquele professor parou tudo o que estava fazendo, que parecia bem importante, para discutir comigo meu projeto. E ele me convenceu de que receber críticas é bom.
Um dia estava no congresso de Uberlândia e me impressionei com o mesmo Cesar Ades deixando de lado as rodinhas de colegas experientes e renomados para se sentar com os estudantes e conversar. E ele me ajudou a ver que todos nós éramos importantes.
Um dia, enquanto contava animado sobre o que tinha aprendido no transcorrer do meu mestrado ao Cesar, ele me perguntou se eu não gostaria de apresentar aquilo tudo na forma de um mini-curso no encontro de etologia seguinte, em Brasília. Tremi de cima a baixo e argumentei que não tinha titulação ainda. E ele me convenceu de que ideias eram mais importantes do que títulos.
Um dia levei meus próprios alunos ao encontro de etologia e lá estava o Cesar para recebê-los com uma simplicidade tamanha que meus meninos nem acreditavam que ele era a autoridade que era. E ele me convenceu de que arrogância não combina com competência.
Um dia, outro dia, fiquei feliz de ver meu nome na mesma matéria que o dele dando palpites sobre comportamento animal, um estudo sobre cognição em primatas e cães noticiado no Correio Braziliense. E ele me fez ver que desde aquele aluno entrando na primeira aula de comportamento animal até hoje já caminhei um bocado e que ele, de uma forma ou de outra, sempre esteve por perto.
O Prof. Cesar Ades teve morte cerebral declarada ontem. Ele fará muita falta para todos nós da etologia.

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Discussão - 17 comentários

  1. Mario Favero disse:

    Conheci o Doutor Cesar e a sua família. Fica um vazio, porém a certeza da missão cumprida pelo ótimo professor.

  2. Javier disse:

    Tive o prazer de conhecer ele numa de suas palestras na Psicobiologia no campus da USP em Ribeirao Preto. Uma pessoa extraordinaria que amava a docência. Ainda que meu português não era muito bom (pois sou argentino), ele esteve falando com a gente um tempão. Esse dia todos ficamos surpresso por seus conhecimentos, seu humor e sua humildade. Todo um exemplo!

    Uma grande perda não só para o Brasil, senão para a Ciência toda.

  3. Ricardo disse:

    Professores divulgam conhecimentos e informações. Já César Ades é um modelo de como deve ser um verdadeiro MESTRE: ensinava coisas importantes mesmo através dos mais rotineiros gestos.
    .
    Qualquer um que teve a sorte de conhecê-lo e um mínimo de humildade (ou mesmo de inteligência!) para admirá-lo, encontraria com ele (e nele próprio!) ótimas dicas para tornar-se um professor E um psicólogo E um ser humano melhores.
    .
    César Ades, o mundo fica um tanto mais triste sem seu sorriso contagiante e seu caráter incrivelmente despretensioso e cativante.
    .
    Meus pêsames aos parentes e amigos mais próximos.
    .
    Adeus, MESTRE!
    Ricardo Matsumoto

    (e um grande abraço ao colega Eduardo Bessa: belas palavras!)

  4. […] Um memorial ao Cesar Ades (Ciência à Bessa) […]

  5. Sibele disse:

    Uma tocante homenagem, Bessa!

    É de vultos assim que a ciência brazuca precisa, e urgentemente!

    Que o exemplo de Cesar Ades continue inspirando!

  6. Larissa Troitino disse:

    Com certeza fará muita falta. Você o descreveu de forma exata, o tamanho da simpatia era proporcional ao tamanho da humildade. As duas vezes que tive o prazer de encontrar com ele só me deram mais vontade ainda de estudar a etologia, uma pena que agora sem os valiosos conselhos dele. Uma perda inestimável, sem dúvida.

  7. Érika Hotz A. Stein (Cakes) disse:

    OI, Bessa!

    Acabei de saber da morte do Prof. César Ades. Procurando notícias para entender o que aconteceu, achei seu blog. Adorei o que vc escreveu. Linda homenagem.

  8. Cristina disse:

    Eduardo,
    Seu texto tem a simplicidade para traduzir complexidades como o César Ades sabia fazer tão bem. A cada exemplo descrito, rapidamente visualizamos a situação, tamanha a presença do jeito de ser dele no seu relato.
    Foi muito bom ler esse texto!

  9. Sylvia Matsuda disse:

    Lindas e merecidas palavras!

  10. Tati Nahas disse:

    Bela homenagem, Bessa!
    Compartilho a admiração, o carinho e o respeito por esse professor cativante, esse cientista inspirador e esse ser humano lindamente sorridente.
    Poderia relatar um percurso parecido, desde o primeiro ano de faculdade, passando pela pós graduação e também na vida após pós. Desde que fui apresentada ao seu paraíso das teias de aranhas até a plateia de palestras organizadas pelo IEA.
    Nunca vou esquecer desse ilmo-prof-dr agachado comigo e uma colega de graduação no gramado do IP-USP a caçar grilos para depositar nas teias das Argiopes que ele tanto admirava.
    Que delícia de pessoa! E que perda para a ciência brasileira!

  11. Belíssima homenagem, Bessa

  12. Marilia disse:

    Fará muita falta pra todos nós, da Psicologia.

    Fará muita falta para o Brasil.

    E uma imensa falta para a humanidade.

  13. “E ele me convenceu de que ideias eram mais importantes do que títulos”
    O cara era mesmo brilhante!!!! Certamente, uma perda grande para a academia e a ciência brasileira! 🙁

  14. Mauricio Arantes de Oliveira disse:

    Prezado Eduardo:

    Fico extremamente feliz ao ler seu texto pois nos dois anos que convivi com o Prof. Cesar Ades, sendo que o último foi na elaboração da minha monografia de conclusão de curso de biologia, aprendi muito mais do que eu próprio imaginava.
    Me lembro que no dia da minha apresentação eu fui buscá-lo com meu carro para irmos à minha faculdade onde ele como orientador assitiria juntamente com a banca examinadora. Eu tremia de medo e, durante o percurso de ida, ele foi contando piadas o tempo todo e eu pensando que ele iria me inquirir sobre a minha apresentação.
    Ao final desta, depois de tudo e de eu ter tirado um dez com louvor, eu perguntei pra ele o por quê dele não repassar a matéria comigo antes da apresentaçao. Ele me falou que: ” -Quando a gente percebe que alguém deu o máximo de si durante um trabalho, que fez o melhor que pôde, ninguém, mas ninguém no mundo, tem a autoridade ou o direito de questionar a qualidade deste trabalho.”
    Ele foi um livre docente nos ensinamentos da vida.
    Um abraço,
    do colega,
    Mauricio Arantes de Oliveira

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