Rio+20: fracasso?

Não postei nada aqui no blog sobre a Rio+20, mas quem me acompanha pelo twitter deve ter visto que minha opinião sobre a conferência não foi negativa. Ao longo dos dias do evento acompanhei atentamente a cobertura da mídia e blogs sobre o assunto e vi que a opinião da maioria das pessoas é que a conferência foi um fracasso. Mas será que realmente podemos dizer isso?

Na minha opinião, não. Diferente da Conferência das partes das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas (COPs), o objetivo principal da Rio+20 nunca foi o de ter um documento com metas claras assinado por todos os países. O que é até difícil de acreditar, vendo todos os temas que foram discutidos. Claro que isso seria um passo importante e que temos que chegar em um futuro próximo, mas não em uma conferência como esta. Para mim o principal saldo positivo foi a mobilização de milhares de pessoas presencialmente e milhões pela internet em torno de assuntos ligados a proteção ambiental. Estive presente virtualmente no Fórum sobre ciência, tecnologia e inovação para desenvolvimento sustentável realizado na PUC-RJ onde tivemos várias palestras interessantes sobre a inserção da ciência na discussão sobre desenvolvimento sustentável. Além disso em diversos lugares do Rio de Janeiro ocorreram exposições, mostras cinematográficas e palestras sobre temáticas ambientais que tiveram uma presença popular surpreendente. Será que a mobilização de 220 mil pessoas em 11 dias que chegaram a enfrentar 5 horas de fila para ter uma experiência com a temática ambiental é irrelevante? E isso foi apenas no forte de Copacabana.

Conscientização popular irá resolver os nossos problemas ambientais? Claro que não, mas não podemos ser inocentes ao ponto de achar que apenas políticos reunidos em uma sala poderão cumprir esta tarefa. Desenvolvimento sustentável envolve maiores gastos e ninguém em um momento de crise econômica quer se comprometer. Por isso, a pressão social feita através de meios como a internet pode ser o fator diferencial que não tivemos após a Eco-92. Além da pressão social, outro caminho para a mudança pode ser deixar de focar em negociações em nível de nações e pensar em uma ação com um enfoque mais regional. Um grande ponto positivo da Rio+20 foi o evento parelelo com prefeitos de grandes cidades do mundo (C40 cidades). Neste nível de governo é muito mais fácil haver pressão social por mudanças, além da velocidade em que elas podem acontecer ser muito mais alta. Neste evento tivemos metas concretas propostas por prefeitos de diferentes cidades. Para elas ocorrerem de fato, sem serem atrapalhadas por mudanças no poder, voltamos novamente o papel da pressão social. Engraçado que durante a Rio+20 tivemos depoimentos de pessoas que reclamaram de passeatas, que as pessoas que estavam nas ruas eram “vagabundos” e que estariam atrapalhando ainda mais o trânsito da cidade. Tenho certeza que essas são as mesmas pessoas que dizem que o povo brasileiro não se mobiliza por nada, que somos apolíticos e que a rio+20 foi um fracasso.

E parece que não estou sozinho nesta visão menos negativa da Rio+20. Hoje foi publicado um editorial no periódico Nature intitulado “Um primeiro passo”. Abaixo traduzi alguns trechos interessantes:

“(…) Rio nunca foi concebido como um local para a assinatura de novos importantes tratados ambientais, por isso não deve ser surpresa que os governos não o fizeram.”

“Os governos anunciaram iniciativas para reduzir as emissões, proteger as florestas, ampliar o acesso à energia e, geralmente, fazer do mundo um lugar mais limpo e mais verde para todos. (…) Milhões de brasileiros, pelo menos, foram bombardeados com a cobertura de notícias detalhando o conjunto completo de temas em debate. Isto não é o suficiente, mas não é nada também. Ao concentrar-se muito sobre o texto final e que o ele contém, os críticos estão ignorando o que estava lá.”

“(…) Embora o acordo que saiu do Rio na semana passada não tenha definido metas de desenvolvimento sustentável, ele criou um processo para fazê-lo.”

Críticas são importantes, mas desde que construtivas e que também contemplem os pontos positivos de uma reunião sobre meio ambiente deste porte. Como disse um diplomata europeu em uma entrevista durante o evento “Melhor estarmos aqui discutindo estes temas de grande importância para o futuro da humaninade do que não estarmos aqui”.

 

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Discussão - 14 comentários

  1. [...] exemplo claro disso foi a Rio+20, a qual eu achei um fracasso e o Luiz não concordou (viva a liberdade de expressão, mesmo dentro do mesmo Blog!). Porém, eu (Breno) reintero: [...]

  2. Sandro Moraes disse:

    Prezados,

    Segue um dos textos mais sóbrios sobre a rio+20 que li até agora:

    http://www.worldwatch.org/future-we-need-reflections-rio20

    Att, Sandro

  3. lais disse:

    oque vc estava discutindo

  4. Rafael_RNAm disse:

    Só faltou falar da expo do Darwin ;)

  5. [...] da Rio+20 em termos de políticas ambientais globais, com muitos afirmando que não houve avanço e outros sendo mais mais otimistas. Porém, segundo Tatiana Nahas, um dos legados mais importantes foram os eventos [...]

  6. Sandro Moraes disse:

    Parabéns pelo Blog,

    Vou resumir a opinião de vocês e incluir a minha sobre a Rio+20.

    As reuniões da ONU a portas fechadas de madrugada que ocorreram no RioCentro para que fosse elaborado um documento final sobre Desenvolvimento Sustentável, o Rascunho Zero, foram sim um “FRACASSO”!

    O documento que deveria ter se tornado lei a ser imposta a todos os países virou um amontoado de declarações e agora só servirá como marketing eleitoral para a nossa presidência, aliás segundo alguns analistas o objetivo real do Rascunho Zero possivelmente era este mesmo, o de isentar o governo de culpa pelas alterações no código florestal e pela obra em Belo Monte, iniciativas que tem como objetivo implementar um pólo de mineração no meio da Amazônia.

    Já as muitas outras iniciativas que ocorreram em “paralelo” a Conferência da ONU, propositalmente muito, muito longe de onde o documento oficial era concluído estas foram um “SUCESSO”.

    Lembremos porém que o que faria uma diferença imediata a nível global era o documento final da conferência e não as demais iniciativas, claro que as demais reuniões e movimentos tem sua importância mas os resultados destes não estão sendo apoiados pela ONU, e nem se tornariam uma lei.

    É por lembrar ainda que ao fim da ECO92, ocorreu exatamente a mesma coisa e os países continuaram degradando o meio ambiente de forma desordenada.

    • Luiz Bento disse:

      Olá Sandro, obrigado pelo comentário.

      Infelizmente nunca haverá uma lei global que fale sobre a resolução de todos os nossos problemas ambientais. Minha opinião é a mesma do editorial da Nature. O primeiro passo foi dado e nós temos que fazer pressão para que ele realmente seja dado. Como eu disse no post, diferente da ECO 92 agora temos a força da internet. Só falta sabermos direcionar para que ela seja efetiva.

      Abraços.

  7. [...] com o Luiz Bento quando diz que a Rio+20 não foi um fracasso porque nem fazia sentido esperar mais do que uma carta de intenções como documento final, já que [...]

  8. Claudia Chow disse:

    Ótimo post! Excelente análise!

  9. Emerson disse:

    Eu tenho a mesma opinião que você sobre a Rio+20. Não chamaria todo o evento de fracasso. Talvez os líderes deixaram a desejar, usando a crise financeira como desculpa. Mas o evento em si foi muito bom.

  10. Vanessa disse:

    Luiz,

    Concordo com você em tudo. Também ouvi muitos comentários negativos de pessoas que, com certeza, não se mobilizam por nada. É um assunto importante e tem que ser discutido. Achei super positivo o evento.

    Bj, Vanessa.

  11. Gabriele disse:

    Grande comentário Luiz Bento. Agora com internet, parece também que pessoas finalmente resolveram falar o que pensam.
    Infelizmente temos que aturar comentários negativos, totalmente desnecessários. Mas pelo menos as pessoas estão participando mais!

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