Agricultura Urbana – Parte I

Hoje vou escrever sobre Agricultura Urbana para dar um rápido histórico, mas com a intenção de falar mais sobre o assunto em futuros textos aqui no Geófagos. Vocês já ouviram alguma coisa sobre este tipo de agricultura? Quem respondeu sim, por favor deixe comentários… Eu gostaria muito de saber o alcance que o assunto já tem (agradeço de antemão!).
Adianto que alguns podem confundi-la com a produção de hortaliças, frutas, ervas aromáticas e medicinais nos quintais das casas, como nossas avós faziam no passado (ainda fazem, principalmente no interior) e como alguns fazem hoje nas varandas de seus apartamentos. Inclusive, há hoje uma grande curiosidade por parte da população de grandes centros sobre como produzir alimentos em pequenos espaços dentro das casas ou apartamentos. No entanto, isto se refere a uma camada da população com maior escolaridade e boa qualidade de vida (leia-se: boas condições de saúde, educação etc.), enquanto a Agricultura Urbana carrega em si um caráter sócio-econômico muito forte e está associada à precariedade do atendimento de uma necessidade básica (leia-se: acesso ao alimento).
Muitos já a definiram usando critérios como o destino que se dá aos produtos ou o sistema de produção adotado. No entanto, de maneira bem simples, podemos defini-la como a produção agrícola dentro da cidades. Há, ainda, a agricultura peri-urbana, praticada no entorno das cidades, mas não vou fazer diferença entre as duas porque essa diferença (espacial) não quer dizer muito no que diz respeito às vantagens e desvantagens desse tipo de produção. Assim, considero aqui tanto a produção dentro das cidades quanto em sua periferia como urbanas.
Em vários países do chamado mundo em desenvolvimento, a Agricultura Urbana é hoje uma realidade. Pode-se dizer que esta atividade apareceu sempre em momentos de crise (causados por guerras civis ou problemas econômicos), quando a população carente ou pessoas que se viam desempregadas começaram a produzir alimentos não só em seus quintais, mas também em áreas abandonadas da cidade ou cedidas por particulares ou entidades públicas. Com ou sem regulamentação governamental, esta atividade cresceu em países africanos como Uganda, Nigéria e Zimbabwe nas últimas décadas do século passado e, apesar de problemas técnicos, econômicos e ambientais, tornou-se uma importante alternativa de acesso ao alimento para as famílias envolvidas. Também na Ásia e na América Latina, iniciativas foram surgindo de acordo com necessidades específicas. Cuba é um país onde a Agricultura Urbana ganhou contornos muito peculiares. Lá, por motivos econômicos, passou a ser mais viável produzir alimentos (hortaliças, principalmente) no perímetro urbano das cidades do que a longas distâncias. Daí surgiram projetos de agricultura urbana comunitária, com apoio governamental e resultados compartilhados pelos produtores (abro literalmente parênteses para dizer que o caso cubano é bastante complexo e muito rico em informações importantíssimas, mas é um caso ímpar por várias razões sócio-políticas e, por isso mesmo, é difícil compará-lo com outras realidades).
No Brasil, os primeiros relatos sobre Agricultura Urbana, como meio de acesso ao alimento, vêm da década de 1990. Uma das iniciativas mais conhecidas é a de Teresina (PI), mas outras em Fortaleza (CE), Rio de Janeiro (RJ) e Sete Lagoas (MG) também são desta época. Em Goiás e no Distrito Federal as iniciativas são um pouco mais recentes e acredito que elas existam também em outros estados. De toda forma, um aspecto comum a todas elas é seu caráter comunitário. Atualmente, existem várias ações incentivadas por políticas públicas e, em sua maioria, subsidiadas por recursos dos governos municipais, estaduais ou nacional. Áreas públicas ou privadas são cedidas para as famílias interessadas ou selecionadas, assim como insumos para a produção (sementes, adubos etc.). Em alguns casos há assistência técnica, em outros não. A grande maioria das famílias envolvidas possui rendimentos mensais que as colocam abaixo da linha da pobreza ou da linha da miséria. As hortaliças são preferidas para o cultivo porque apresentam ciclo rápido e demandam pouca área. Os produtos são utilizados como complemento da alimentação e o excedente é comercializado na própria cidade (a comercialização é feita das formas mais variadas). Muitas pessoas se integram à atividade porque não têm emprego formal e a abandonam quando encontram um – às vezes não um emprego formal, mas um “bico” que garanta uma fonte de renda temporária.
É uma atividade que deve ser avaliada com cautela e que (me parece óbvio) não deve ser encarada como uma solução com S maiúsculo para falta de acesso ao alimento e muito menos para a pobreza – falaremos disso na Parte II. Há muitas dificuldades para a implementação e para a manutenção dos projetos e, além disso, custos sociais e ambientais envolvidos. Em termos científicos (estudos sociológicos, econômicos e agronômicos/ambientais), a Agricultura Urbana é algo recente, pouco relatado e estudado.
Nota: Quem tiver interesse em saber mais sobre o histórico da Agricultura Urbana é só dizer e eu envio, com todo prazer, literatura específica.

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Discussão - 23 comentários

  1. Débora camatti disse:

    Olá…cai sem querer neste site, mas é sobre esse assunto que procuro materiais, vc pode me mandar a literatura sobre a agri. urbana e seu histórico?
    Desde já agradeço, debora Camatti

  2. Nobre doutora Flávia, sou acadêmico do curso de Tecnologia em Agroecologia da Universidade do Estado do Amazonas, Centro de Estudos Superiores de Parintins Amazoans, concludente de curso e o meu TCC enfatiza a agricultura periurbana, pois desenvolvo trabalhos com familias nas áreas periurbana do municipio, se for possivel gostaria de sua compreensão em me enviar literaturas que enfoque tais atividades agricola. muito obrigado pela publicação, é de grande valia para quem tem interressse no desenvolvimento comunitário social, ambiental e economico de uma região.

  3. Débora Camatti disse:

    Olá…
    gostei deste teu material.
    Eu sou estudande de agropecuaria com habilitação em Agroecologia, e meu trabalho de conclusão será sobre a agricultura urbana, se tiver como mander o material completo do histórico e outras referencias eu agradeço!
    Veleu, abraço.Débora Camatti

  4. Flávia Mara disse:

    Flávia,
    parabéns pelo “post”. Sou estudante de geografia e há pouco tempo “descobri” o tema e estou muito interessada. Se pudesse compartilhar o material que mencionou, agradeceria mto.
    Abraço

  5. Rubio disse:

    É a teoria do Von Thuner válida depois de tantos anos.

  6. bruno motta disse:

    basicamente a intenção deste tipo de cultivo é reduzir o gasto com o tranporte dos alimentos do campo para as grandes metrópolis, através de galpões ou prédios destribuidos logisticamente afim de abastecer os mercados proximos, procurando sempre integrar novas tecnologias afim de aumentar a produtividade, sempre e ambientes controlados

  7. Rubio disse:

    Cara Flávia, tenho estudado a agricultura urbana há 5 anos e não consegui entender bem o que você quis dizer quando se referiu ao cultivo de hortaliças como não agricultura urbana. Os mais atuais conceitos de agricultura urbana a definem como uma atividade plural, ou seja, que abrange diversos tipos de cultivo, processamento etc. na cidade ou no entorno (periurbano) Luc Mougeot é um pesquisador que se debruça sobre esse assunto há algum tempo, ele divulgou um texto, pela FAO que esclarece bastante as questões relacionadas a conceituação da referida temática.
    Fiquei muito feliz de saber que outros pesquisadores brasileiros estão se debruçando sobre o estudo da agricultura urbana. Aproveito o ensejo para dizer que terei um grande prazer em dialogar com outros estudiosos do tema. Quando fiz minha dissertação de mestrado (geografia) tive o maior trabalho em encontrar pesquisadores do assunto mas agora vejo que a temática tem sido bastante pertinente em diversas áreas. Para quem quiser entrar em contato meu e-mail é: [email protected].
    PS.: Fico no aguardo de contato.

  8. Dayane Vidal disse:

    Boa noite!!!!
    Se não for lhe incomodar mt… tb gostaria de receber as referências desse texto e o que mais vc poder me repassar.
    Me formo este ano em geografia e essa é a temática de minha pesquisa.
    Grata!!

  9. P.S: esqueci-me de referir que ficaria muito agradecido se me pode-se fornecer bibliografia sobre o tema e caso esteja interessada tenho alguma informação que pode ser relevante que partilharei com todo o gosto.
    Sem mais de momento, com os melhores cumprimentos
    r u i . d i n i s

  10. Caro Euclides,
    Agradeço por seu comentário e compartilho de muitas de suas opiniões. No entanto, gostaria de discutir melhor o problema da Agricultura Urbana e tentarei faze-lo em “posts” posteriores. Por que digo “o problema”? Porque, dependendo da forma, dos envolvidos e de vários outros fatores, a agricultura urbana pode trazer também externalidades negativas ambientais e até mesmo econômicas (ex. ambiental: cultivo em solos impróprios, anteriormente utilizados para deposição de lixo industrial)que, de forma geral, não são sempre verificadas nem levadas em consideração por tomadores de decisão. É um tema, portanto, muito complexo. Acredito que, como você disse, pode sim ser uma alternativa importante de acesso ao alimento se as pessoas forem treinadas para isso e se houver seriedade de ambos os lados (tomadores de decisão, treinadores e treinandos). Grata novamente. Espero que você continue nos visitanto, pois pretendo em breve dar continuidade ao tema aqui no Geófagos. Um abraço.

  11. euclides de oliveira pinto neto disse:

    Matéria oportuna, que pela sua importância deveria ser bastante divulgada.
    O conceito de segurança alimentar, principalmente entre as camadas mais pobres da população urbana e periurbana, é fator fundamental para estabilização social. A falta de alimentos é uma das maiores razões para geração de convulsões sociais.
    No Brasil, principalmente, a mudança do cenário urbano está ocorrendo de modo eruptivo, com grandes massas populacionais deslocando-se em direção aos centros urbanos, expulsos do campo pela famigerada “revolução verde”, promovida pelos grandes grupos neocolonialistas, de origem sionista anglo-norteamericana. Tal tipo de agricultura é direcionada para a exportação, deixando o país altamente deficiente e deficitário na produção de alimentos voltados para o consumo interno. A falta efetiva de destinação de recursos para a agricultura familiar, contrariando as mentiras divulgadas pela propaganda midiática governamental, está agudizando a crise.
    A agricultura urbana e periurbana pode ser um fator de equilibrio e aumento da oferta de produtos de alto consumo, que podem ser cultivados através de tecnologia muito simples e barata, gerando inclusive trabalho e renda nas comunidades.
    O Estado do Rio de Janeiro importa de outros Estados da Federação o equivalente a 92% dos alimentos que consome, com os consequentes custos de logistica, distribuição e perdas. Grande parte da população, amontoada nas favelas e guetos, não consegue produzir nenhum tipo de cultivo, por falta de interesse e motivação dos órgãos estatais (dos três níveis), que só fazem “programas” paliativos, gastando a maior parte dos recursos com divulgação midiática…
    Não se observa nenhum projeto sério, continuado, com o objetivo de treinar e capacitar as pessoas para o cultivo de frutas, legumes e verduras… o povo não está sendo ensinado a trabalhar com a terra, nem aprendendo a produzir seu próprio alimento… vive num mundo virtual…

  12. Sibele disse:

    Um assunto muito interessante e de grande relevância social, Flávia. Parabéns pelo post!
    E vc não poderia postar aqui as referências que mencionou? Acredito que assim teriam maior alcance na disseminação, ao contrário de vc remetê-las apenas aos interessados que se manifestassem por e-mail.

  13. manuel disse:

    Doutora Flávia,
    Cá estou eu,mais uma vez,batendo na tecla dos “allotments”,tão usuais nalguns países,como na Inglaterra. Suponho eu que nesses países,vem isso,para além de circunstâncias especiais de conflitos,de um certo pendor atávico,com raíz nos tempos primevos,do homem agricultor,para não falar de poderem ser eles uma forma de tornar o ar urbano mais respirável.Afinal,quase um luxo,substituindo uma necessidade vital por um lazer,que,em boa verdade,também deveria ser considerado vital.E então,ter-se-ia horta,ou jardim,por prazer. Fantasias,de quem não precisa de cultivar o quintal para sobreviver.
    Desculpe,Doutora,o abuso. Muito boa saúde,e as minhas felicitações pelo interesse despertado pelo seu “post”.

  14. Flávia Alcântara disse:

    Olá Márcia, obrigada pelo comentário e por partilhar sua experiência conosco. Queria dizer a voce que citei essa tendência (do interesse crescente de habitantes de grandes centros com mais alta escolaridade por cultivar em pequenos espaços de suas casas ou apartamentos) justamente para dizer que isso não é Agricultura Urbana. A Agricultura Urbana a qual me refiro no texto é a que você descreve. É ela que precisamos estudar com critério, pois tem vantagens e desvantagens. Ao meu ver não é a Solução para a fome no Brasil nem no mundo quando as pessoas a praticam porque não têm emprego formal (a praticam como atividade substitutiva e paleativa), mas pode ajudar quando é uma complemetação de renda. Como você vê, o assunto é bem complicado… Abraços!

  15. Márcia disse:

    Oi Flávia,
    longe de querer generalizar, e também sem qualquer base ou estudo científico, gostaria de dizer o que eu vejo acontecendo aqui em Salvador-BA sobre o tema.
    Nos subúrbios ou favelas de Salvador é muito comum a população produzir alimentos em qualquer espaço, e vender em carrinho de mão e balcões na rua, todo bairro tem gente vendendo frutas e verduras assim na rua – ao contrário do que acontece com o pessoal com mais renda e educação, moro em um condomínio de casas e não vejo jardins de frutas ou hortaliças, só piscinas se multiplicarem…
    A empregada de lá de casa volta e meia se vangloria dos abacates, cacaus e jambos que ela traz de vez em quando.
    Quando morava em Brotas, um bairro bem central da cidade, do meu prédio dava pra ver a ponta de uma favela, e eu podia ver alguns canteiros, estimo que o maior tinha uns 100 mt quadrados, com diversos legumes e hortaliças.
    O povo aqui aproveita qualquer espaço pra plantar e aumentar a renda, e o as classes com mais renda e escolaridade parece que não se preocupam com isso (ou simplesmente compram os hidropônicos no mercado)…

  16. Paula, Jonas e Guilherme,
    no mais tardar até a próxima sexta envio para vocês literatura sobre o tema (enviarei uma pequena lista para seus respectivos emails). Obrigada e um abraço.

  17. Que excelente divulgação Flávia,
    Me interesso demais pelo tema, agredeceria muito por mais referências, vejo muitas aplicações para o assunto.

  18. Oi Paula, obrigada!
    Enviarei para seu email as referências – logo, logo!
    Abraço.

  19. Paula disse:

    Excelente post, Flávia!
    E se vc tiver a literatura específica fácil aí eu quero sim!

  20. Olá João Carlos! Obrigada pelo retorno. São muitos os entraves para esse tipo de projeto. Os primeiros são os burocráticos, mas há também outros de ordem prática para o “funcionamento” da horta – infelizmente também conheço essa sensação de desânimo!
    Abraços.

  21. Caro Manuel,
    Pois é, esta agricultura urbana “atual” sobre a qual falei é bem diferente dos “allotments”. Ela ocorre também em países desenvolvidos, mas sempre para a população de baixa renda. Mais do que algo que dê um “cheirinho a campo” é uma forma de garantir que as pessoas mais carentes tenham acesso ao alimento. Não é nada futurista, ao contrário. Muitas vezes as técnicas empregadas são bem antigas, mas nem por isso desmerecedoras de uso. Falaremos mais adiante! Grande e fraterno abraço!

  22. João Carlos disse:

    Só para dar o feedback: não só já ouvi falar, como cheguei a me interessar por projetos de hortas comunitárias. Mas os entraves burocráticos conseguiram me desanimar.

  23. manuel disse:

    Doutora Flávia
    Quando vi o título do seu novo texto, julguei que iria tratar de “cultivo protegido”,em casas de vegetação,”greenhouses”,ou estufas,como aqui se diz,recorrendo-se, até, a meios sofisticados,como a hidropónica,ou aeropónica,a que o Ítalo já teve ocasião de se referir,em 5 de Fevereiro(Mudanças:cultivo protegido),onde ele escreveu”uma visão urbana e futurista da agricultura”,e mencionando ,também,”fazendas verticais”.
    Virá tudo isto,e mais alguma coisa,em outras Partes.
    Por altura da Segunda Grande Guerra,sob o lema de Produzir e Poupar,muita alface se produziu,aqui,em varandas,para além de quintais.
    E a propósito dessa agricultura,mais ou menos caseira,é de lembrar o que se passa nalguns países,como no Reino Unido,onde vigora muito o hábito,o salutar gosto,e não só,dos “allotments”,com estufas e estufins. Um cheirinho a campo,na paisagem urbana,o sonho de alguns urbanistas. Tive ocasião de ouvir que só a venda da salsa dava para pagar a renda.
    E pronto,Doutora Flávia,cá fico,ficamos,à espera do que se irá seguir. Muito boa saúde,e muito bom trabalho.

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