O melhor amigo do homem — até na praia.

Você acha que encontrar cães numa praia é desagradável, mas as gaivotas lhe parecem melhores por serem nativas do litoral? É melhor mudar de ideia se quiser ir à praia da próxima vez. Gaivotas podem ser bonitas até, mas sua companhia pode não ser muito agradável. Mesmo em locais bem saneados, muitas vezes elas é que são culpadas pela interdição das praias.

O problema é que, apesar de voar e comer lixo, as gaivotas são agentes patogênicos. Suas fezes podem carregar micróbios como Escherichia coli e Enterococcus, que podem contaminar a água e a areia. Há muito que as autoridades sanitárias tentam manter as gaivotas longe das praias. Mas uma recente pesquisa americana revelou aliados supreendentes: os cães.

Normalmente, é recomendável manter os cães longe da beira-mar pelos mesmos motivos das gaivotas — eles também podem contaminar as praias, causando sua interdição. Só que cães são animais domésticos e são mais fáceis de controlar do que gaivotas. Além disso, caninos podem ser facilmente treinados para afastar as aves marinhas das áreas balneárias.

Em um estudo conduzido pela EPA (agência de proteção ambiental americana) durante este verão (do hemisfério norte), pesquisadores liderados pelo pela microbiologista ambiental Reagan Reed Converse (sim, esse é o nome dele dela!) examinaram a qualidade da água da North Beach, em Racine, Winconsin. Antes de começar o estudo na praia à beira do Lago Michigan e a 100 km de Chicago, os pesquisadores eliminaram outras fontes de contaminantes (como esgoto a céu aberto), deixando apenas as aves como possíveis agentes de contaminação. Só então a pesquisa realmente começou.

Soltando os cachorros

A equipe da EPA coletou amostras de água durante os 11 primeiros dias de agosto para ter uma noção da contagem bacterial do local. Recolhidas sem qualquer intervenção contra as gaivotas, essas primeiras amostras também serviram como controle. Daí, eles soltaram os cachorros.

Não apenas os cachorros, é claro. Eles eram acompanhados de guias humanos, que evitavam que os cães atacassem o público, espécies de aves inofensivas. Evidentemente, eles também recolhiam as fezes dos cães. As equipes de limpeza — formadas por um ou dois border collies treinados e por seus guias — trabalharam de sol a sol durante uma semana. Na segunda semana de patrulhamento anti-gaivota, os pesquisadores voltaram a colher amostras. No total, foram 9 dias (relativamente) livres de gaivotas.

Prós e Contras

O impacto do uso dos cães foi interessante. Nas amostras colhidas em 7 dos 11 dias antes do patrulhamento, foram encontradas não apenas E. coli e Enterococcus, mas também Samnonella e Campylobacter (entre elas, C. jejuni, causa comum de gastroenterite). Em comparação, durante os 9 dias de patrulhamento canino, a equipe não encontrou praticamente nenhuma bactéria patógena mais grave. Os níveis de E. coli e Enterococcus também caíram: segundo o artigo publicado pelos pesquisadores em Environmental Science and Technology [1], a população dessas bactérias caiu, respectivamente, 29% e 38%.

Entretanto, a própria Converse admite que o uso contínuo de cães não é um método barato — para ser efetivo, o patrulhamento das praias deveria ser diário durante o verão. A outra estratégia usada até agora era besuntar os ovos das gaivotas em óleo. Isso é menos efetivo (pois mesmo assim alguns ovos acabam chocando) e mais agressivo, mas muito mais barato, já que a aplicação de óleo pode ser feita apenas uma vez.

Quem também mantém reservas sobre os resultados é o ecologista e chefe da Estação de Pesquisa Ambiental do Lago Michigan (em Porter, Indiana), Richard Whitman. Ele lembra que outras aves — como gansos canadenses, no caso do grande lago — e mamíferos podem ser fontes de contaminação. Há também algas que, sob as condições certas, podem incubar E. coli e outros patógenos. Mas ele também reconhece que o controle das gaivotas por si só, já é um avanço — e que a qualidade da água melhora.

[via ScienceNOW]

Referência:

[1] Reagan R. Converse et. al. Dramatic Improvements in Beach Water Quality Following Gull Removal. Environ. Sci. Technol., 2012, 46 (18), pp 10206–10213 DOI: 10.1021/es302306b

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...