Em uma conversa recente sobre produtividade científica, estava discutindo com amigos sobre a disparidade entre o Brasil e centros de pesquisa no exterior, onde conseguem publicar artigos mais citados e em revistas mais relevantes. Não só em países ricos da América do Norte e Europa, mas também em desenvolvimento, como Índia e China. Quando surgiu uma analogia que não pude evitar: o Culto à Carga.

Um documentário de 1963 apresentou o fenômeno, sobre o qual fui saber pela primeira vez no livro Armas, Germes e Aço do Jared Diamond. Trata-se de um reflexo da ocupação moderna de ilhas no oceano Pacífico, principalmente depois da Segunda Guerra. Muitas tribos locais ao verem aviões pousando e desembarcando comida e produtos manufaturados, começaram a se perguntar por que também não recebiam esta dádiva dos céus. Começaram então a construir pistas de pouso e até aviões e torres de controle de madeira e bambú, na esperança de atrair um daqueles instrumentos do paraíso para eles.

 

 

O vídeo acima é um pedaço do documentário de 1963, Mondo Cane, que espero que comece aos 6 minutos, onde mostram uma das pistas construídas. Um tipo de culto que foi relativemante comum entre 1950 e 1970, e que segundo a BBC ainda ocorre em Vanuatu. Para mim, é uma condição que descreve muito bem o que se faz em ciência no Brasil, um culto à carga.

E não me refiro à pseudo-ciência que Feynman cunhou [link para pdf], mas sim um culto a carga bem mais refinado. Não construímos nossa pesquisa com torres de bambú e aviões espantalho. A FAPESP e o CNPq financiam bem a pesquisa nacional – não posso falar propriamente sobre o CNPq, em especial fora do estado de São Paulo, mas aqui a FAPESP financia quase todo projeto com o qual tive contato, muitas vezes com mais de 5 casas decimais dígitos (brigado, Igor), muito dinheiro investido em pesquisa. Não tenho os números para comparar, mas garanto que em termos de porcentagem do PIB investido em pesquisa, não estamos tão longe de países desenvolvidos, embora não contemos com muito financiamento privado. A porcentagem é algo cruel, por mais que o total seja uma fração pequena do que se investe em outros países, proporcionalmente os números são similares. Mas não é esta a discussão aqui.

Nosso culto a carga é muito mais sofisticado. Temos equipamentos modernos, pirosequenciadores, sequenciadores Sanger, espectrômetros de massa, citômetros de fluxo, e vários outros métodos caros que desconheço. A burocracia com certeza atrapalha, já vi gente perdendo reagentes e até animais transgênicos na alfândega, mas não impede, e mesmo assim continuamos debatendo por que o Brasil publica muitos trabalhos mas de pouco fator de impacto. É aqui que entra o culto.

Publicar trabalhos de menor índice de impacto significa dizer que brasileiros produzem artigos que são menos lidos e menos citados pela comunidade científica. E não acho que o motivo seja só o fato de nomes latinos serem menos citados. Assim como os nativos das ilhas do Pacífico manipulam instrumentos de mentira, fuzis feitos de bambú e torres de controle de madeira e folhas, sem entender o princípio por trás de um carregamento chegando de avião, nós fazemos ciência aqui sem entender a motivação que está por trás de cada experimento.

Já vi diversas apresentações de trabalhos relevantes, que envolviam experimentos arrojados feitos por gente com muita capacidade, quase sempre sem um ingrediente fundamental de embasamento, uma boa hipótese. Basta olhar em volta, quantos experimentos são feitos, amostras coletadas e analisadas, sequenciamentos sem fim de todo tipo de genomas, quase sempre sem um motivo claro em vista. Nada contra a pesquisa básica, ela é extremamente necessária para o desenvolvimento de qualquer tecnologia, mas mesmo ciência básica precisa de um propósito claro. Não podemos levantar dados simplesmente por levantar. No entanto, são raros os trabalhos com um propósito claro, que começa com um problema a ser abordado e conta com passos definidos nessa direção.

Uma boa medida de como falta entendimento do que se faz é a carência de bioinformatas. Justamente o tipo de pesquisador que deveria ajudar a interpretar os dados massivos que estão sendo gerados, a responder e formular novas hipóteses, é o tipo de pesquisador mais escasso e mais procurado em vários institutos. É um problema lá fora também, mas que está sendo resolvido a muito mais tempo. O centro de computação e biologia de sistemas do MIT foi criado antes de 2005, e segundo a Wikipedia outros começaram ainda antes, e só de uns dois anos para cá comecei a ouvir o termo biologia de sistemas aqui. Um termo que implica em métodos bem mais abrangentes para a interpretação de dados.

E a coisa complica nos alunos também. Já fui taxado de chato em seminários, simplesmente por perguntar o motivo de um experimento, ou como estava sendo feito o controle positivo ou negativo. Algo recorrente é o aluno de mestrado ou mesmo doutorado que está simplesmente seguindo a linha de pesquisa do laboratório e sequer entende onde a pesquisa dele se insere – e não digo que estou de fora dessa. Apertando os botões e copiando os aviões dos estrangeiros, sem saber por que a carga não vem.

Entendam, não estou me queixando de falta de dinheiro ou de tecnologia. Longe da síndrome da ciência vira-lata, para mim um dos maiores atrasos que temos é na geração e interpretação de perguntas interessantes. Gerar dados e sequências todo mundo faz, mas depositá-las no GenBank não é o fim da pesquisa. Uma árvore filogenética ou a estrutura tridimensional de uma proteína não informam nada sem um propósito para serem feitas. Entender o que os dados informam é uma tarefa enorme e exige muita capacitação, que parece nos faltar.

 

Seguimos reproduzindo experimentos que fazem lá fora, comprando equipamentos e reagentes que compram lá fora, mas por algum motivo os aviões da Science, da Nature, da Cell e de várias outras revistas insistem em não pousar na nossa pista.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...